Decisões de Kassio contra Lula e a favor de Flávio geram críticas dentro do TSE

Uma quebra de confiança dentro do TSE
O corregedor-geral eleitoral relatou a auxiliares sua preocupação após Kassio ignorar sua competência e censurar o canal de Lula.
Mark

Por que a decisão sobre o WhatsApp gerou tanta reação? Parecia uma questão administrativa simples.

Mimi

Porque não foi simples. O corregedor já estava analisando o caso quando Kassio agiu, ignorando a competência dele. Horas depois, Cueva reverteu tudo.

Luke

Mas qual era exatamente a acusação contra o canal? O texto diz que Flávio não apresentou provas suficientes, mas não fica claro o que Flávio alegava que o canal estava fazendo.

Mimi

Boa pergunta. O texto não detalha. Sabemos que era um canal de apoio a Lula, administrado por André Janones, mas os motivos específicos da censura não aparecem.

Mark

E os outros casos? Parecem um padrão mesmo?

Mimi

Sim. Pesquisa censurada em junho, posts removidos, julgamentos interrompidos. Sempre quando a maioria estava formada a favor de Lula.

Luke

Mas Kassio nega parcialidade e diz que segue padrão decisório. Como sabemos que não é só uma diferença legítima de interpretação jurídica?

Mimi

Os especialistas em direito eleitoral dizem que não é. Neisser chamou de inconstitucional. Cabral disse que a competência é do corregedor, não dele.

Mark

Então por que Kassio continua fazendo isso?

Luke

Porque pode. Enquanto não houver uma decisão do STF ou uma reação institucional formal do tribunal, ele segue com suas ordens.

Mimi

E é por isso que os ministros estão discutindo uma reação institucional. Eles entendem que há um abuso de poder.

Mark

Qual é o risco real aqui?

Mimi

Que a confiança na isenção do TSE seja abalada em um momento em que a eleição está acontecendo. Se as pessoas acreditarem que a corte está parcial, a legitimidade de qualquer resultado fica comprometida.

Luke

Embora seja justo notar que a decisão sobre o WhatsApp foi revertida. O sistema funcionou, de certa forma.

Mimi

Funcionou, mas só porque Cueva agiu rápido. Se ele não tivesse, o canal permaneceria censurado.

  • Kassio Nunes Marques censurou o canal 'Exército do Lula' no WhatsApp; a decisão foi revertida horas depois pelo corregedor Ricardo Villas Bôas Cueva
  • Em junho, Kassio censurou pesquisa Atlas/Bloomberg que mostrava queda de 6% nas intenções de voto a Flávio após caso 'Dark Horse'
  • Ministros apontam pelo menos quatro ocasiões em que Kassio interrompeu julgamentos virtuais com maioria formada a favor de Lula
  • Especialistas em direito eleitoral classificam a censura ao WhatsApp como inconstitucional e censura prévia

Kassio censurou canal de apoio a Lula, mas decisão foi revertida horas depois pelo corregedor Ricardo Villas Bôas Cueva, que questionou a competência do presidente do TSE. Ministros de ala oposta a Kassio apontam padrão de interrupções em julgamentos virtuais com maioria formada a favor de Lula, mantendo liminares contrárias ao petista válidas por mais tempo.

Presidente do TSE Kassio Nunes Marques enfrenta críticas de ministros e especialistas por decisões que beneficiariam Flávio Bolsonaro, incluindo censura ao canal 'Exército do Lula' no WhatsApp, posteriormente revertida pelo corregedor.

No domingo à noite, ministros de uma ala do Tribunal Superior Eleitoral começaram a falar extraoficialmente sobre um padrão que os incomodava: o presidente da corte, Kassio Nunes Marques, parecia estar agindo de forma coordenada com a campanha de Flávio Bolsonaro à Presidência. A mais recente evidência era a ordem de Kassio para censurar o canal "Exército do Lula" no WhatsApp, um grupo de apoio administrado pelo deputado federal André Janones. Horas depois, o corregedor-geral eleitoral, Ricardo Villas Bôas Cueva, derrubou a decisão e restabeleceu o canal, deixando claro que a campanha de Flávio não havia apresentado provas suficientes para justificar a suspensão integral.

O que tornou o episódio particularmente delicado foi a forma como aconteceu. Cueva já estava analisando o caso e havia dado prazo para as candidaturas se posicionarem quando Kassio simplesmente agiu, ignorando a competência do corregedor. Cueva relatou a auxiliares uma "quebra de confiança" dentro do tribunal. Para os ministros da ala oposta a Kassio, isso não era um incidente isolado — era parte de um padrão mais amplo de interferência.

Em junho, Kassio havia censurado uma pesquisa Atlas/Bloomberg que mostrava queda de seis pontos percentuais nas intenções de voto a Flávio após o caso "Dark Horse", que expôs a relação do presidenciável com Daniel Vorcaro, banqueiro do Master, pedindo dinheiro para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro. Agora, três magistrados de ala oposta a Kassio contabilizavam pelo menos quatro ocasiões em que o presidente do TSE havia interrompido julgamentos virtuais com maioria já formada a favor de Lula. Em um caso, ministros votavam para remover vídeos em que Flávio ou seus apoiadores retratavam Lula como "defensor de bandidos". Kassio pediu destaque — a suspensão do julgamento virtual — para que o processo fosse decidido em sessão presencial. O mesmo roteiro se repetiu em outro caso, em que Lula pedia a exclusão de um perfil que o acusava de ser "amigo" de organizações criminosas.

Para essa ala do tribunal, a estratégia era clara: ao decidir em processos administrativos, Kassio contornava a obrigatoriedade de levar o caso ao plenário do TSE. Isso mantinha liminares contrárias à campanha do petista válidas por mais tempo. Eles classificavam isso como abuso do poder de polícia do tribunal. O próprio Kassio, porém, sinalizou a um auxiliar que pretendia submeter a questão do WhatsApp ao colegiado na semana seguinte e negou agir com parcialidade, afirmando que as críticas eram tentativas de intimidação.

Especialistas em direito eleitoral consultados pela reportagem questionaram fortemente a postura do magistrado. Fernando Neisser, advogado eleitoralista e professor da Fundação Getulio Vargas, chamou a derrubada do canal de inconstitucional e censurada prévia. "É uma decisão muito perigosa e juridicamente equivocada", disse. Neisser afirmou que a campanha de Flávio "construiu um atalho absolutamente artificial" para que o assunto chegasse às mãos de Kassio, e que a decisão trazia "sérias dúvidas quanto à isenção do presidente para conduzir o processo eleitoral".

Rodrigo Pedreira, advogado e membro fundador da Academia Brasileira de Direito Público e Eleitoral, disse desconhecer um precedente que tivesse impedido o funcionamento de um grupo de WhatsApp. Anne Cabral, também advogada e vice-presidente da mesma academia, foi mais específica: uma ação como a movida pela campanha de Flávio contra o canal de apoio a Lula é de competência privativa do corregedor, não do presidente do TSE. Ela também apontou que o procedimento em caso de desinformação é a remoção de conteúdo específico, não a remoção de um perfil inteiro, e que derrubar um canal deveria ser a última medida, não a primeira.

Kassio foi indicado ao Supremo por Jair Bolsonaro, e desde o início da corrida eleitoral a campanha do PT temia sua atuação à frente do TSE. Um integrante da equipe de Kassio argumentou que os pedidos da campanha de Flávio tinham funções distintas — um buscava a inelegibilidade de Lula, outro focava a atuação das plataformas — mas ponderou que haveria busca por uma atuação coordenada. O grupo de ministros críticos a Kassio discutia internamente sobre o desconforto e avaliava uma reação institucional. O que estava em jogo era a confiança na isenção da corte eleitoral em um momento crítico da campanha.

É uma decisão muito perigosa e juridicamente equivocada. Na minha visão, configura censura prévia.
— Fernando Neisser, advogado eleitoralista e professor da FGV
A decisão traz sérias dúvidas quanto à isenção do presidente para conduzir o processo eleitoral, especialmente vista ao lado de uma gestão da pauta do tribunal que tem sido, no mínimo, sujeita a críticas.
— Fernando Neisser
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