Ao longo dos séculos, a imagem de Nossa Senhora foi repetidamente convocada por povos que buscavam, na devoção, uma linguagem para a resistência — dos indígenas mexicanos que marcharam sob a Virgem de Guadalupe até os Xukuru de Pernambuco que veneram Mãe Tamain como guardiã de suas terras. O sagrado, nesse percurso, nunca foi neutro: foi bandeira, escudo e espelho de identidades forjadas à margem do poder. A pergunta que persiste não é teológica, mas profundamente humana — a quem pertence um símbolo quando tantos o reivindicam como seu?
De quem é Nossa Senhora? Santas disputadas entre fé, política e identidade
Uma santa preta padroeira de um país racista como o nosso
Por que essas imagens de santos se tornam tão disputadas politicamente? Parece estranho que uma figura religiosa cause tanto conflito.
Porque santos não são apenas religiosos. Quando uma comunidade encontra em uma imagem a representação de sua luta, de sua identidade, ela se torna sagrada de forma diferente. A Virgem de Guadalupe para os indígenas mexicanos não é só fé; é história, resistência, pertencimento.
Mas precisamos ser cuidadosos aqui. O texto mostra que diferentes grupos reivindicam a mesma santa. Isso significa que a santa é um símbolo vazio que cada um preenche com seu significado?
Não vazio. Ela carrega a história real de quem a encontrou, de quem a venerou primeiro. Para os Xukuru, Tamain foi encontrada na mata por seus ancestrais. Isso não é interpretação; é origem.
E quando a Igreja Católica tenta controlar essas imagens? Como isso funciona?
A Igreja tem autoridade institucional, mas não tem autoridade sobre o significado que uma comunidade atribui. O conflito entre o cacique Xukuru e as autoridades católicas sobre quem pode carregar o andor é exatamente isso: uma disputa sobre quem tem o direito de definir o sagrado.
O texto menciona que a Terra Indígena Xukuru foi homologada em 2001, e os Xukuru atribuem isso a Tamain. Mas homologação é um processo legal, político. Podemos dizer que a santa "causou" isso?
Não causou no sentido material. Mas Tamain foi o símbolo que manteve a comunidade unida durante décadas de luta. O cacique Xicão foi assassinado, e mesmo assim a luta continuou. A santa é a razão pela qual continuou.
E no Brasil, com Nossa Senhora Aparecida? Por que uma santa preta se torna padroeira de um país racista?
Porque o povo negro encontrou nela uma forma de existir dentro de um sistema que o negava. Uma santa preta padroeira é uma contradição que o racismo não consegue resolver completamente.
Mas o texto não explica por que o papa Pio XI escolheu Aparecida em 1930. Isso foi uma decisão institucional da Igreja, não uma escolha do povo negro.
Verdade. Mas uma vez que ela se tornou padroeira, o povo negro a reivindicou como sua. A história institucional e a história popular não são a mesma coisa.
Der Puls
- Em 1921, uma bomba escondida em flores destruiu o altar da Virgem de Guadalupe na Cidade do México, mas a imagem sobreviveu ilesa — e o episódio condensou séculos de disputa entre fé popular e poder anticlerical.
- Da Polônia comunista ao sertão pernambucano, governos tentaram confiscar imagens e silenciar multidões, mas as procissões continuaram sendo atos de desobediência civil vestidos de devoção.
- O cacique Xicão Xukuru foi assassinado por um fazendeiro enquanto lutava pela demarcação de terras — e os Xukuru atribuem a homologação da Terra Indígena, conquistada em 2001, à proteção de Mãe Tamain.
- Nossa Senhora Aparecida, santa negra padroeira de um país racista, acolheu por anos o Grito dos Excluídos e hoje reaparece invocada por todos os lados em tempos de eleição, revelando a plasticidade política do símbolo sagrado.
Ao longo dos séculos, a imagem de Nossa Senhora foi repetidamente convocada por povos que buscavam, na devoção, uma linguagem para a resistência — dos indígenas mexicanos que marcharam sob a Virgem de Guadalupe até os Xukuru de Pernambuco que veneram Mãe Tamain como guardiã de suas terras. O sagrado, nesse percurso, nunca foi neutro: foi bandeira, escudo e espelho de identidades forjadas à margem do poder. A pergunta que persiste não é teológica, mas profundamente humana — a quem pertence um símbolo quando tantos o reivindicam como seu?
Em 1921, uma bomba escondida entre flores explodiu aos pés da Virgem de Guadalupe na Cidade do México. O altar foi destruído, o crucifixo desfigurado — mas a imagem da Madona permaneceu intacta. O episódio sintetizava o clima do país: conflito aberto entre a Igreja Católica e grupos anticlericais do Estado. A Virgem de pele morena já havia sido convocada décadas antes, em 1810, pelo padre Miguel Hidalgo como estandarte da independência mexicana. Atravessava séculos sendo reivindicada por movimentos os mais distintos.
Essa tensão entre fé e política não é exclusividade mexicana. Na Polônia sob o regime comunista, as peregrinações em torno de Nossa Senhora de Częstochowa — a Virgem Negra — funcionavam como ato de resistência organizada. Em 1966, o Estado chegou a confiscar uma imagem da santa que percorria o país, tentando deter as multidões que se formavam ao seu redor.
No Brasil, o povo Xukuru da Serra do Ororubá, em Pernambuco, venera Mãe Tamain — chamada por não indígenas de Nossa Senhora das Montanhas. A imagem repousa na igreja de Cimbres, antigo aldeamento colonial erguido, segundo pesquisas, para interromper o apoio indígena ao Quilombo de Palmares. Para os Xukuru, a santa pertence à natureza e ao povo; apenas o cacique pode tocá-la. Na década de 1980, o cacique Xicão Xukuru liderou a luta pela recuperação das terras tradicionais. Foi assassinado a mando de um fazendeiro durante os conflitos pela demarcação. Em 2001, a Terra Indígena Xukuru foi homologada — conquista que o povo atribui à proteção de Tamain.
Em outro registro, mais íntimo, Nossa Senhora Aparecida é a padroeira de famílias negras e pobres que todo ano pegam ônibus até Aparecida do Norte para agradecer milagres. Encontrada por pescadores em 1717 no Vale do Paraíba e declarada padroeira do Brasil em 1930, a santa negra presidiu por décadas o Grito dos Excluídos no 7 de setembro. Hoje, em tempo de eleição, sua imagem é invocada por todos os lados — inclusive por quem antes pregava a separação entre religião e política. A pergunta permanece sem dono fixo: de quem é a santa? A resposta muda conforme quem a chama.
Em 1921, um homem colocou flores aos pés da Virgem de Guadalupe na Cidade do México. Escondida entre as flores havia uma bomba. A explosão destruiu o altar, tornou o crucifixo irreconhecível, mas a imagem da Madona permaneceu ilesa. Naquele momento, o México fervia em conflitos entre a Igreja Católica e grupos anticlericais do Estado. A Virgem de pele morena, ligada às populações indígenas e mestiças do país, havia atravessado séculos sendo reivindicada por movimentos políticos distintos. Décadas antes, em 1810, Miguel Hidalgo havia colocado sua imagem no centro da luta pela independência mexicana.
Essa apropriação de santos por diferentes grupos não é exclusividade mexicana. Na Polônia, Nossa Senhora de Częstochowa, conhecida como a Virgem Negra, tornou-se o símbolo máximo da identidade nacional. Durante o regime comunista, as peregrinações católicas funcionavam como ato de resistência política. Em 1966, o Estado chegou a confiscar uma imagem da santa que circulava pelo país, tentando impedir as multidões que se formavam ao seu redor.
No Brasil, na Serra do Ororubá em Pernambuco, o povo Xukuru venera Mãe Tamain, chamada por não indígenas de Nossa Senhora das Montanhas. A pequena imagem repousa no altar da igreja de Cimbres, um antigo aldeamento estabelecido durante a colonização, segundo pesquisas, justamente para interromper o apoio indígena aos mocambos que cercavam a região, parte do Quilombo de Palmares. Para os Xukuru, a santa encontrada na mata por seus ancestrais pertence à natureza e ao povo indígena. Por isso, apenas o cacique pode tocá-la. O direito de carregar seu andor já provocou conflitos com autoridades religiosas católicas.
Na década de 1980, o cacique Xicão Xukuru liderou a mobilização pela recuperação das terras tradicionais. Nos anos seguintes, em meio aos conflitos pela demarcação, foi assassinado a mando de um fazendeiro. Em 2001, a Terra Indígena Xukuru foi homologada. Os Xukuru atribuem essa conquista a Tamain.
Em outro contexto, cresci em uma família negra, pobre e devota de Nossa Senhora Aparecida. Todo ano, minha avó Polu, meu tio Haroldo, minha mãe e eu pegávamos o ônibus na rodoviária do Tietê para agradecer à santa. Minha avó repetia histórias de milagres: a do homem que tentou entrar a cavalo na igreja desrespeitando Nossa Senhora, e as patas do animal ficaram presas em uma pedra. E a do homem escravizado, capturado em uma tentativa de fuga, que ajoelhou aos pés da santa com algemas nos pulsos e as viu se abrirem.
Encontrada por pescadores em 1717 no Vale do Paraíba, Nossa Senhora Aparecida foi declarada padroeira do Brasil pelo papa Pio XI em 1930. Uma santa preta padroeira de um país racista como o nosso. Cinquenta anos depois, durante a ditadura militar, uma lei instituiu o feriado nacional de 12 de outubro. Por anos, Aparecida do Norte acolheu, no 7 de setembro, o chamado Grito dos Excluídos.
Hoje, em plena eleição, Nossa Senhora reaparece na boca de quem costumava querer separar religião e política. Sua imagem sofreu ataques ao longo do tempo. Mas é 12 de outubro, e estou, também eu, rogando à padroeira proteção à democracia. A questão permanece: de quem é a santa? A resposta muda conforme quem a invoca.
Bemerkenswerte Zitate
Na tradição Xukuru, a santa encontrada na mata por seus ancestrais pertence à natureza e ao povo indígena— Tradição Xukuru sobre Mãe Tamain
Minha avó repetia as histórias dos milagres— Autora, sobre sua infância devota de Nossa Senhora Aparecida