Dayvigo chega ao Brasil com promessa de menos dependência no tratamento da insônia

Bloqueia o que nos mantém acordado, ao contrário de outras classes que desligam o cérebro
A diferença fundamental entre o lemborexante e os medicamentos tradicionais para insônia, segundo especialista.
Mark

Por que exatamente o lemborexante funciona diferente dos benzodiazepínicos?

Mimi

Os benzodiazepínicos essencialmente desligam todo o sistema nervoso central — é como apagar a luz. O lemborexante, em contraste, identifica especificamente os sinais que mantêm o cérebro acordado e os bloqueia. É uma abordagem muito mais seletiva.

Mark

E isso realmente reduz o risco de dependência?

Mimi

Os estudos clínicos sugerem que sim, mas os pesquisadores são cautelosos. Levou quase 30 anos para descobrir que os benzodiazepínicos causavam dependência, então ninguém quer fazer suposições precipitadas.

Mark

Então por que os brasileiros continuam tomando zolpidem em quantidades crescentes?

Mimi

Porque funciona, é barato, e a maioria das pessoas não sabe ou não se importa com os riscos a longo prazo. Além disso, muitos médicos ainda prescrevem sem considerar alternativas ou terapia comportamental primeiro.

Mark

A terapia comportamental é realmente eficaz?

Mimi

É considerada padrão-ouro pelas diretrizes internacionais. Mas exige tempo, disciplina e mudanças de vida que nem todos conseguem fazer. Um comprimido é mais fácil.

Mark

Então o Dayvigo é a solução?

Mimi

É uma ferramenta melhor para quem realmente precisa de medicação. Mas os especialistas deixam claro que não é a primeira linha de tratamento. Higiene do sono e terapia comportamental devem vir antes.

Mark

E quanto ao preço? R$ 200 é acessível?

Mimi

Para muitos brasileiros, não. Mas é o preço inicial. O que importa é se o sistema de saúde vai cobrir, e se os médicos vão prescrever de forma responsável.

  • Dayvigo chega ao Brasil a partir de R$ 200 neste semestre
  • Lemborexante foi eleito melhor entre 36 alternativas por pesquisadores de Oxford
  • 18 milhões de brasileiros usam medicamentos para dormir; zolpidem passou de 5 milhões para 16 milhões de caixas anuais em 10 anos
  • 15% da população de São Paulo tem diagnóstico formal de insônia crônica

Dayvigo usa mecanismo inédito que bloqueia o que mantém acordado, diferente de remédios que 'desligam o cérebro', reduzindo dependência e efeitos colaterais. Benzodiazepínicos causam dependência e déficit cognitivo a longo prazo; 18 milhões de brasileiros usam medicamentos para dormir, com zolpidem em alta.

Eurofarma e Eisai anunciam parceria para comercializar Dayvigo no Brasil a partir de R$ 200. O medicamento com lemborexante foi eleito por Oxford como o melhor entre 36 alternativas, oferecendo menor risco de dependência que benzodiazepínicos.

A Eurofarma e a Eisai anunciaram esta semana uma parceria para trazer ao mercado brasileiro o Dayvigo, um medicamento para insônia que promete mudar a forma como os brasileiros tratam os problemas de sono. O fármaco, que deve chegar às prateleiras ainda neste semestre com preço inicial a partir de R$ 200, funciona de maneira radicalmente diferente dos remédios que dominam o mercado há décadas.

O princípio ativo do Dayvigo é o lemborexante, uma molécula que opera através de um mecanismo inédito no cérebro. Enquanto os benzodiazepínicos e as drogas Z — medicamentos tradicionais para insônia — essencialmente desligam o sistema nervoso central para forçar o sono, o lemborexante trabalha de forma oposta: bloqueia os sinais que mantêm o cérebro acordado. É como desligar o combustível que alimenta o interruptor da vigília, em vez de apagar a luz inteira. Lucio Huebra, neurologista e médico do sono do Hospital Sírio-Libanês em São Paulo, resume a diferença: enquanto outras classes induzem o sono, o lemborexante impede a ação daquilo que nos mantém despertos.

A Anvisa aprovou o medicamento no ano passado, e pesquisadores da Universidade de Oxford o elegeram como o melhor entre 36 alternativas para insônia avaliadas em um estudo publicado na revista The Lancet, considerando eficácia, aceitabilidade e tolerabilidade. A dose recomendada é de 5 miligramas, tomados uma vez por noite alguns minutos antes de dormir, com possibilidade de aumento para 10 miligramas conforme a resposta clínica do paciente. A aprovação é restrita a adultos.

Esta chegada ao mercado brasileiro responde a um problema crescente. Desde que foram descobertos nos anos 1960, os benzodiazepínicos se tornaram uma das categorias de fármacos mais vendidas no mundo, utilizados não apenas para insônia mas também para ansiedade e depressão. Porém, com o tempo, revelou-se que causam dependência significativa e, com o uso prolongado, aumentam o risco de déficit cognitivo. Quando combinados com álcool ou ingeridos em excesso, podem provocar consequências graves como paradas respiratórias. A partir dos anos 1980, quando esses efeitos negativos começaram a ser documentados, iniciou-se um movimento de "desprescrição". Foi então que surgiram as drogas Z, como o zolpidem, apresentadas como alternativas mais seguras.

Mas o problema persiste. Dados da Anvisa mostram que quase 16 milhões de caixas de zolpidem foram comercializadas no ano passado — um aumento significativo comparado aos 5 milhões de caixas anuais de uma década atrás. Segundo a Associação Brasileira do Sono, duas a cada três pessoas no país têm alguma dificuldade relacionada ao sono. Uma pesquisa realizada em São Paulo revelou prevalência de 15% de diagnóstico formal de insônia crônica, quando as queixas ocorrem pelo menos três vezes por semana e duram mais de três meses. Dados do IBGE indicam que 8,5% da população brasileira — cerca de 18 milhões de pessoas — usam medicamentos para dormir.

Os especialistas celebram o lemborexante porque os estudos clínicos até agora indicam um perfil mais favorável, com menor risco de dependência e efeitos colaterais. Alexandre Pinto de Azevedo, psiquiatra do Programa de Transtornos do Sono do Hospital das Clínicas da USP, afirma que o medicamento pode preencher uma lacuna terapêutica importante, oferecendo uma alternativa sem necessidade de desmame gradual ou risco evidente de insônia rebote quando a medicação é interrompida. Luciana Palombini, pneumologista e pesquisadora do Instituto do Sono, reforça que a dependência é um grande problema atual com os medicamentos disponíveis e que eles não devem ser usados a longo prazo devido aos riscos cognitivos e comportamentais, como sonambulismo.

Contudo, há ressalvas importantes. Dalva Poyares, professora de Medicina do Sono na Universidade Federal de São Paulo, adverte que ainda é necessário mais tempo para confirmar que o lemborexante realmente causa menos dependência. Ela aponta que levou quase 30 anos para descobrir o primeiro caso de abuso de benzodiazepínicos, portanto a vigilância deve ser contínua. Azevedo também pondera que existe uma droga Z já disponível, a eszopiclona, que também não apresenta o mesmo risco de dependência do zolpidem e foi considerada a segunda melhor opção pela revisão de Oxford. Diferentes diretrizes internacionais apontam tanto a eszopiclona quanto o lemborexante como principais medicações de escolha para insônia crônica.

Os especialistas reforçam que o tratamento inicial não deve envolver medicamentos, mas sim mudanças de hábitos: prática de atividades físicas, redução de estímulos como telas e cafeína ao final do dia, evitar álcool e tabagismo, e ajustes no ambiente do quarto. A Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia é considerada padrão-ouro pelas diretrizes internacionais. O tratamento medicamentoso geralmente é indicado apenas para pacientes cujo tempo total de sono é inferior a 6 horas, que apresentam prejuízos na funcionalidade cotidiana e não respondem à terapia convencional. Quando prescrito, o princípio é claro: a menor dose eficaz, pelo menor tempo necessário, sempre com monitoramento médico, evitando o uso crônico.

O lemborexante bloqueia o que nos mantém acordados, ao contrário de outras classes que agem induzindo o sono
— Lucio Huebra, neurologista e médico do sono do Hospital Sírio-Libanês
O lemborexante pode preencher uma lacuna terapêutica no mercado brasileiro, oferecendo uma alternativa sem necessidade de desmame ou risco evidente de insônia rebote
— Alexandre Pinto de Azevedo, psiquiatra do Hospital das Clínicas da USP
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