A menos de dois meses do primeiro turno, o Brasil de setembro de 2022 assistia a uma disputa presidencial que os números teimavam em não mover: Lula à frente, Bolsonaro resistente, e o país aguardando, naquela quinta-feira, mais uma sondagem do Datafolha como quem espera que o rio revele seu curso. Enquanto os candidatos percorriam palcos distintos — um no Norte amazônico, outro nas telas da televisão —, a democracia brasileira negociava, nos bastidores, a própria confiança em suas urnas.
Datafolha divulga pesquisa à noite enquanto Lula segue no Norte e Bolsonaro dá entrevista
Lula lidera em todos os institutos, em todos os cenários
Por que essa pesquisa Datafolha de quinta-feira importa se três outras já mostraram estabilidade?
Porque o Datafolha é o maior instituto do país e tem contrato com a Folha e a Globo — quando ele fala, a narrativa da campanha muda. Se confirmar estabilidade, reforça que Lula mantém vantagem sólida. Se houver movimento, é notícia.
Mas "estabilidade" dentro da margem de erro não é realmente estabilidade, certo? Lula oscilou de 47% em 18 de agosto para 43-44% no final de agosto. Isso é queda ou ruído?
Boa pergunta. Olhando as três pesquisas de 31 de agosto, Lula está entre 43% e 44%. Parece ter estabilizado ali, mas você está certo — caiu 3 pontos em duas semanas.
E Bolsonaro? Ele está crescendo?
Também oscilando. Em 18 de agosto estava em 32%, agora está entre 32% e 36%. Não há movimento claro para nenhum dos dois — é mais como se tivessem encontrado um patamar.
A questão é: quanto disso é movimento real e quanto é variação normal entre institutos diferentes? A margem de erro de 2 pontos significa que Lula poderia estar em 41% ou 46% de verdade.
Então não sabemos realmente o que está acontecendo?
Sabemos que Lula lidera em todos os institutos, em todos os cenários. Isso é sólido. O resto é ruído.
E há um detalhe: Lula está no Norte, consolidando uma região. Bolsonaro está fazendo entrevistas e promessas sobre combustível. São estratégias diferentes — ele está tentando criar movimento, ela está consolidando.
O que muda se o Datafolha mostrar queda para Lula?
Muda a narrativa de inevitabilidade. Muda o moral das campanhas. Mas não muda o fato de que faltam semanas e há muito tempo ainda.
The Pulse
- A estabilidade nas pesquisas criava uma tensão silenciosa: três institutos divulgados na véspera mostravam oscilações dentro da margem de erro, sugerindo que nem o debate presidencial nem as entrevistas ao Jornal Nacional haviam alterado o equilíbrio da disputa.
- Lula percorria o Norte do país com promessas econômicas — isenções fiscais para a Zona Franca e renegociação de dívidas de famílias —, enquanto consolidava uma liderança que, nos cenários de segundo turno, chegava a 15 pontos de vantagem sobre Bolsonaro.
- Bolsonaro apostava na antecipação de uma 'boa notícia' da Petrobras sobre combustíveis, mas seu próprio governo enviava ao Congresso um orçamento que ignorava promessas centrais de sua campanha, como o Auxílio Brasil de 600 reais.
- Nos bastidores institucionais, o TSE sinalizava abertura para incorporar biometria ao teste de integridade das urnas, atendendo parcialmente à pressão das Forças Armadas — um movimento que revelava a fragilidade do consenso em torno do processo eleitoral.
- O Datafolha, marcado para as 20h55, era aguardado como árbitro simbólico de uma noite em que campanha, pesquisa e institucionalidade se entrelaçavam no mesmo noticiário.
A menos de dois meses do primeiro turno, o Brasil de setembro de 2022 assistia a uma disputa presidencial que os números teimavam em não mover: Lula à frente, Bolsonaro resistente, e o país aguardando, naquela quinta-feira, mais uma sondagem do Datafolha como quem espera que o rio revele seu curso. Enquanto os candidatos percorriam palcos distintos — um no Norte amazônico, outro nas telas da televisão —, a democracia brasileira negociava, nos bastidores, a própria confiança em suas urnas.
Na primeira quinta-feira de setembro de 2022, o Brasil eleitoral vivia um dia de múltiplas camadas. O instituto Datafolha divulgaria às 20h55 um novo levantamento presidencial encomendado pela Folha de S.Paulo e TV Globo — mas a expectativa era temperada pela estabilidade: três pesquisas divulgadas na véspera, da Genial/Quaest, XP/Ipespe e PoderData, mostravam que o embate entre Lula e Bolsonaro não havia se movido de forma significativa após uma semana intensa de campanha, que incluiu o primeiro debate presidencial e entrevistas ao Jornal Nacional.
Os dois candidatos seguiam agendas separadas. Lula estava em Belém, onde participaria de um ato pela cultura e de um comício. Vinha de Manaus, onde prometera manter as isenções fiscais da Zona Franca e renegociar dívidas de famílias. Bolsonaro, após comício e motociata em Curitiba, concederia entrevista à RedeTV! às 21h, tendo prometido anteriormente que a Petrobras anunciaria uma boa notícia sobre combustíveis até sexta-feira. Ao mesmo tempo, o governo enviava ao Congresso uma proposta orçamentária que não contemplava promessas centrais de sua campanha à reeleição.
Os números das pesquisas desenhavam um quadro consistente: Lula oscilava entre 42% e 46,7% no primeiro turno, enquanto Bolsonaro ficava entre 32% e 38,3%, a depender do instituto. No segundo turno, a vantagem do petista era ainda mais pronunciada, chegando a 15 pontos em alguns levantamentos. A AtlasIntel, com margem de apenas 1 ponto percentual, era a que apresentava os números mais próximos entre os dois.
Um desenvolvimento institucional também ganhava relevância naquele dia. O presidente do TSE, Alexandre de Moraes, sinalizou em reunião com o ministro da Defesa que poderia haver um teste de integridade das urnas com biometria dos eleitores, conforme sugestão das Forças Armadas. A proposta buscava deslocar essa etapa para as próprias seções eleitorais — uma concessão simbólica que revelava a pressão sobre o sistema eleitoral a menos de dois meses do primeiro turno de outubro.
Na quinta-feira de 1º de setembro, o instituto Datafolha divulgaria um novo levantamento sobre a corrida presidencial às 20h55, encomendado pela Folha de S.Paulo e TV Globo. A pesquisa chegava em um momento de estabilidade na disputa: três sondagens divulgadas na véspera — Genial/Quaest, XP/Ipespe e PoderData — mostravam oscilações dentro da margem de erro, sinalizando que o embate entre Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro não havia se movido significativamente após a semana de eventos de campanha que incluiu entrevistas dos principais candidatos ao Jornal Nacional e o primeiro debate presidencial no domingo anterior.
Enquanto a pesquisa era preparada para divulgação noturna, os dois principais candidatos seguiam agendas distintas. Lula permanecia na Região Norte, desta vez em Belém, onde participaria de um ato pela cultura pela manhã e de um comício no início da noite. O petista, que liderava consistentemente nas intenções de voto, havia visitado Manaus na quarta-feira, onde prometeu manter as isenções fiscais às indústrias da Zona Franca caso eleito. Em entrevista a uma rádio local, também se comprometeu a renegociar as dívidas de famílias com empresas e prefeituras.
Bolsonaro, por sua vez, seguia agenda de campanha diferente. Após fazer campanha em Curitiba na quarta-feira, onde participou de comício e motociata, o presidente concederia entrevista à RedeTV! às 21h. Na entrevista anterior ao SBT, havia dito que até sexta-feira a Petrobras divulgaria uma "boa notícia" sobre combustíveis. Simultaneamente, o governo enviava ao Congresso a proposta orçamentária para o ano seguinte, que não contemplava promessas de campanha do candidato à reeleição, como a manutenção do Auxílio Brasil em 600 reais e a correção da tabela do Imposto de Renda da Pessoa Física.
Os números das pesquisas divulgadas na véspera mostravam um quadro relativamente consistente. Na sondagem XP/Ipespe, Lula aparecia com 43% das intenções de voto no primeiro turno contra 35% de Bolsonaro, com margem de erro de 2,2 pontos percentuais. A PoderData registrava 44% para Lula e 36% para Bolsonaro, com margem de 2 pontos. A Genial/Quaest apontava 44% para o petista e 32% para o presidente, também com 2 pontos de margem. Nos cenários de segundo turno, a vantagem de Lula era ainda mais pronunciada: 53% contra 38% na XP/Ipespe, 50% contra 41% na PoderData, e 51% contra 37% na Genial/Quaest.
Outras pesquisas divulgadas nos dias anteriores reforçavam a tendência. A CNT/MDA, de 30 de agosto, mostrava Lula com 42,3% e Bolsonaro com 34,1% no primeiro turno. A Ipec, de 29 de agosto, registrava 44% para Lula e 32% para Bolsonaro. A BTG/FSB, também de 29 de agosto, apontava 43% para o petista e 36% para o presidente. A AtlasIntel, de 25 de agosto, apresentava números ligeiramente maiores para ambos: 46,7% para Lula e 38,3% para Bolsonaro, com margem de erro de apenas 1 ponto percentual.
Além das atividades de campanha e pesquisas, um desenvolvimento institucional ganhava relevância. Alexandre de Moraes, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, sinalizou durante reunião com o ministro da Defesa Paulo Sergio Nogueira de Oliveira que poderia haver um teste de integridade das urnas eletrônicas com utilização de biometria dos eleitores, conforme sugestão das Forças Armadas. Historicamente, esse teste era realizado nos Tribunais Regionais Eleitorais no mesmo dia da votação com acompanhamento de auditoria externa. A proposta militar buscava deslocar essa etapa para as seções eleitorais, incorporando a biometria ao processo.
O calendário de pesquisas seguiria adiante: além do Datafolha de 1º de setembro, o Ipespe divulgaria novo levantamento em 3 de setembro, e o Ipec em 5 de setembro. A eleição estava marcada para outubro, e a campanha entrava em fase de intensificação, com os candidatos buscando consolidar suas bases e conquistar eleitores indecisos enquanto os institutos de pesquisa monitoravam movimentos na preferência eleitoral.
Notable Quotes
Lula prometeu manter as isenções às indústrias da Zona Franca de Manaus se eleito— Lula, em campanha em Manaus
Bolsonaro disse que até sexta-feira a Petrobras divulgaria uma 'boa notícia' sobre combustíveis— Bolsonaro, em entrevista ao SBT em Curitiba