CVM acusa Paiffer de irregularidades em operação que levou Atom à B3

Estrutura negocial que representa potencial desvio de finalidade
Avaliação da Procuradoria Federal sobre o arranjo contábil entre a Atom e sua controladora WHPH.

CVM identifica AFAC de R$ 8,1 milhões constituído irregularmente em favor da controladora WHPH, com base em passivos que deveriam ter sido baixados da contabilidade. Procuradoria Federal vê indícios de crimes previstos no Código Penal, incluindo afirmações falsas em prospecto e ocultação fraudulenta de fatos relativos à constituição da sociedade.

  • AFAC de R$ 8,1 milhões constituído irregularmente em favor da WHPH em 2015
  • Dez acusados, incluindo Carol e José Joaquim Paiffer, auditoras Bwel e Alpha Auditores
  • PFE recomenda comunicação ao MP-SP por indícios de crimes societários no Código Penal
  • Investigações iniciadas em 2018; caso em fase de apresentação de defesas

Procuradoria da CVM acusa Carol e José Paiffer de irregularidades contábeis na Atom, incluindo constituição irregular de AFAC de R$ 8,1 milhões e ocultação de operações. PFE recomenda comunicação ao MP-SP por indícios de crimes societários.

A Comissão de Valores Mobiliários acusa Carol Paiffer e seu irmão José Joaquim Paiffer de orquestrar uma série de irregularidades contábeis na Atom Participações, a empresa que nasceu em 2015 quando a holding WHPH, controlada pelos irmãos, comprou o controle da Inepar Telecom por R$ 5 milhões e a transformou em uma companhia listada na B3. O caso, que envolve dez acusados no total, inclui a constituição de um adiantamento para futuro aumento de capital (AFAC) de R$ 8,1 milhões em favor da própria controladora — uma quantia equivalente a 162% do valor desembolsado na aquisição — e o registro contábil de operações que, segundo a autarquia, deveriam ter sido tratadas de forma radicalmente diferente.

O núcleo da acusação repousa em uma operação realizada em novembro de 2015. Naquele mês, passivos fiscais e intragrupo da antiga Inepar Telecom foram cedidos à WHPH por valores simbólicos de R$ 1. A CVM sustenta que esses passivos deveriam ter sido assumidos, compensados ou quitados pelo antigo controlador e baixados da contabilidade no processo de transferência do controle. Em vez disso, foram mantidos e convertidos em crédito da WHPH contra a Atom, proporcionando à controladora um benefício econômico estimado em R$ 8.096.237,50. A Procuradoria Federal Especializada (PFE), que atua junto à CVM, recomendou a comunicação do caso ao Ministério Público do Estado de São Paulo por indícios de crimes societários previstos no Código Penal, especificamente a promoção da fundação de sociedade por ações com afirmações falsas em prospecto ou comunicação ao público.

A segunda frente do caso ganhou corpo a partir de 2017, quando a Atom anunciou a transferência das atividades de mesa proprietária desenvolvidas pela WHPH para a Atom Traders, subsidiária da companhia aberta, pelo valor simbólico de R$ 1. A operação foi apresentada ao mercado como uma transferência gratuita destinada a tornar a empresa novamente operacional. Segundo a acusação, receitas e despesas de atividades executadas em nome de terceiros foram registradas como próprias da Atom e de sua subsidiária, embora os recursos permanecessem na WHPH. Os fluxos financeiros continuavam na controladora, que emitia debêntures em garantia do contrato de cessão com a Atom. Dessa forma, a companhia aberta reconhecia contabilmente os resultados da operação, mas recebia, no lugar do fluxo de caixa correspondente, debêntures emitidas por sua própria controladora. A dinâmica foi relatada em notas explicativas das demonstrações financeiras de 2017 e 2018, mas a CVM questiona a transparência com que esse arranjo foi apresentado ao mercado. O contrato foi encerrado em fevereiro de 2019, mas a explicação detalhada sobre a estrutura só foi apresentada em abril de 2019, nas notas explicativas de uma atualização das demonstrações financeiras de 2018, sem divulgação de fato relevante sobre o encerramento.

Os controladores também são acusados de terem participado da aprovação de suas próprias contas nas assembleias referentes aos exercícios de 2015 a 2018, quando as demonstrações financeiras continham tanto o AFAC em favor da WHPH quanto, nos dois últimos anos, os registros de receitas e despesas relacionados ao contrato de cessão. A PFE afirma que não se trata de erro técnico contábil complexo, mas de estrutura negocial que, por sua própria configuração econômica, representa potencial desvio de finalidade. A autarquia sustenta que os controladores deveriam ter se abstido de votar em deliberações nas quais havia conflito de interesses.

As firmas de auditoria também figuram na acusação. A Bwel Auditores, responsável pelas demonstrações financeiras de 2015, é acusada de não identificar nem reportar a constituição irregular do AFAC e de emitir relatório sem modificação de opinião, apesar de já fazer a auditoria da Inepar Telecom e ter conhecimento dos saldos envolvidos. A Alpha Auditores, responsável pela auditoria das demonstrações de 2017 e 2018, é acusada de não avaliar adequadamente os riscos de distorção relacionados ao arranjo operacional e de não emitir relatórios com modificação de opinião. Quando questionados sobre o reconhecimento de receitas financeiras originadas de uma operação de crédito entre a Paiffer Management e a Guerini Planejamentos para financiar loteamentos em Sorocaba, os diretores da Atom afirmaram que os auditores independentes recomendaram a transferência dessa operação para as controladas juntamente com a atividade de mesa proprietária. A resposta da Alpha Auditores aos ofícios da CVM sobre essa orientação não consta dos documentos obtidos.

A PFE argumenta que admitir que inconsistências nos trabalhos de auditoria são aptas a afastar a responsabilidade dos administradores significa transformar a auditoria em mecanismo de blindagem automática de condutas potencialmente abusivas. Segundo a procuradoria, tal abordagem conduziria a um verdadeiro vácuo de responsabilização dos administradores de companhias abertas, reduzindo a efetividade da supervisão realizada pela CVM a um ato meramente simbólico, desprovido de consequências legais.

O AFAC permaneceu registrado no balanço da companhia após os fatos investigados. Com a saída da WHPH do controle, os créditos foram cedidos à Fictor Holding e à AQWA Capital Holdings, que adquiriram a empresa em 2024. O saldo do AFAC só foi extinto em setembro de 2025, quando a AQWA cedeu à Fictor Holding a parcela que ainda detinha, e parte relevante do saldo foi integralizada ao capital social da companhia. Os R$ 770 mil restantes foram perdoados pela nova controladora e reconhecidos diretamente no patrimônio líquido. O caso está em fase de apresentação de defesas, mas as investigações começaram em 2018, o mesmo ano em que o colegiado da CVM condenou, por unanimidade, a gestora Paiffer Management e seu controlador, José Joaquim Paiffer, por manipulação de mercado na modalidade spoofing.

Não se trata de erro técnico contábil complexo, mas de estrutura negocial que, por sua própria configuração econômica, representa potencial desvio de finalidade
— Procuradoria Federal Especializada (PFE)
Admitir que inconsistências nos trabalhos de auditoria afastam a responsabilidade dos administradores significa transformar a auditoria em mecanismo de blindagem automática de condutas potencialmente abusivas
— Procuradoria Federal Especializada (PFE)
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que a CVM considera que esses passivos deveriam ter sido simplesmente eliminados dos registros?

Model

Porque quando você transfere o controle de uma empresa, as dívidas antigas não viram crédito da nova controladora. Elas deveriam ter sido quitadas ou assumidas pelo antigo dono. Mantê-las e convertê-las em um crédito contra a nova empresa é criar um ativo que não deveria existir.

Inventor

E qual era o benefício real para a WHPH em manter esse AFAC de R$ 8,1 milhões?

Model

Se aquele crédito fosse convertido em capital, a WHPH receberia novas ações da Atom com base em uma obrigação que não deveria existir. Isso ampliaria a participação deles na companhia sem que tivessem desembolsado dinheiro novo. É um ganho econômico indevido.

Inventor

E quanto ao arranjo com as debêntures? Por que isso é problemático?

Model

Porque a Atom estava reconhecendo receitas e despesas de operações que na verdade estavam sendo executadas pela WHPH. O dinheiro nunca chegava na Atom — chegavam debêntures da controladora. Isso distorce completamente a imagem financeira da companhia para quem está lendo os números.

Inventor

Os auditores realmente não viram isso?

Model

Segundo a CVM, eles viram. A Bwel já auditava a Inepar Telecom e conhecia os saldos. A Alpha estava auditando quando o arranjo estava em operação. A questão é se eles alertaram sobre os riscos ou simplesmente assinaram os relatórios sem ressalvas.

Inventor

Por que a PFE quer envolver o Ministério Público?

Model

Porque a procuradoria vê indícios de crime — não apenas irregularidades administrativas. Fazer afirmações falsas em prospecto ou ocultar fraudulentamente fatos sobre a constituição da sociedade é crime no Código Penal. Isso ultrapassa o escopo da CVM.

Inventor

E se tudo isso foi feito para proteger a companhia de bloqueios judiciais, como a WHPH argumenta?

Model

Esse é o argumento deles — que mantiveram os recursos na WHPH porque havia dívidas do Grupo Inepar que poderiam bloquear as contas bancárias. Mas a CVM diz que, mesmo que houvesse uma razão legítima, a forma como foi estruturado e comunicado ao mercado foi irregular. Transparência não é opcional.

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