Um país que esgotou os seus recursos e as suas alianças
A central termoelétrica Antonio Guiteras, coração da rede elétrica, tem 10 de 16 unidades inoperacionais, criando défice de 2230 megawatts. O fim do petróleo subsidiado da Venezuela em 2026 expôs a dependência cubana; o país produz apenas 40% do combustível que necessita.
- Setenta e dois por cento do território sem eletricidade no domingo, 5 de julho de 2026
- Dez de dezasseis unidades geradoras inoperacionais; défice de 2230 megawatts
- Cuba produz apenas 40 mil dos 100 mil barris diários de petróleo necessários
- Modernização da rede custaria 8-10 mil milhões de euros
- Bairros de Havana enfrentam 20 horas diárias sem eletricidade
Cuba atinge recorde histórico de 72% de apagões devido ao colapso da infraestrutura energética, fim dos subsídios venezuelanos e incapacidade financeira de importar combustível.
No domingo, 5 de julho, Cuba enfrentou o seu pior dia de apagões em toda a história registada. Setenta e dois por cento do território nacional ficou sem eletricidade durante as horas de pico de consumo — um recorde que superou em um ponto percentual o que havia acontecido apenas quatro dias antes. Nas ruas de Havana, bairros inteiros permaneceram às escuras durante vinte horas consecutivas, transformando o dia numa sucessão de horas sem luz, sem refrigeração, sem os serviços mais elementares que a eletricidade torna possível.
O colapso não é acidental. A central termoelétrica Antonio Guiteras, que deveria ser o coração da rede elétrica cubana, está praticamente morta. Das dezasseis unidades geradoras do país, dez estão completamente inoperacionais. O resultado é um défice de dois mil duzentos e trinta megawatts — uma lacuna enorme num país que necessita de três mil e cem megawatts apenas para funcionar no mínimo. O governo cubano admite que a situação é "aguda" e "extremamente tensa", mas estas palavras mascaram uma realidade muito mais profunda: a infraestrutura energética da ilha é obsoleta, está em colapso, e não há recursos visíveis para a reparar.
O problema começou muito antes deste domingo. Durante décadas, Cuba viveu de uma ilusão económica sustentada por um único parceiro: a Venezuela. O país caribenho recebia petróleo a preços que eram, na prática, uma doação — em troca, enviava médicos e pessoal de segurança para Caracas. Era uma transação que funcionava enquanto a Venezuela tinha petróleo para dar. Mas no início de 2026, essa torneira fechou-se. Os envios pararam. E Cuba descobriu-se sozinha, sem a "muleta" que a tinha mantido de pé durante três décadas.
A economia cubana não estava preparada para este golpe. O país produz apenas quarenta mil dos cem mil barris de petróleo que necessita diariamente. Sem a importação subsidiada, e sem liquidez para comprar combustível a preços de mercado, as centrais a diesel — que representam quarenta por cento de toda a energia que Cuba gera — começaram a parar. Não havia combustível. Não havia dinheiro para o comprar. E não havia alternativa.
Havana culpa Washington. O discurso oficial centra-se nas sanções norte-americanas, nas restrições marítimas impostas pelas ordens executivas presidenciais. E é verdade que as sanções existem e que prejudicam. Mas analistas de mercado apontam para algo mais incómodo: Cuba não consegue modernizar a sua rede porque ninguém lhe empresta dinheiro. A modernização custaria entre oito mil e dez mil milhões de euros — uma soma impossível para um país que tem um historial crónico de incumprimento com credores internacionais. O regime rejeita a abertura ao capital privado, o que significa que não oferece qualquer garantia económica a quem quisesse investir. Mesmo sem as sanções americanas, os bancos internacionais já consideravam Cuba financeiramente inviável. As sanções são apenas o golpe final num mercado que já tinha virado as costas.
O que se vê agora é um país que esgotou os seus recursos e as suas alianças. Não há margem de manobra técnica — as máquinas estão velhas demais. Não há margem de manobra financeira — não há dinheiro. E não há margem de manobra política — as alianças que sustentavam o modelo desapareceram. Os apagões de setenta e dois por cento não são um acidente. São o resultado inevitável de um modelo económico que chegou ao fim.
Notable Quotes
O governo cubano qualifica a situação como aguda e extremamente tensa— Governo cubano
The Hearth Conversation Another angle on the story
Como é que um país chega a um ponto em que setenta e dois por cento da população fica sem eletricidade ao mesmo tempo?
Não é algo que aconteça de repente. Cuba construiu toda a sua economia em torno de um único fornecedor — a Venezuela — e quando esse fornecedor desapareceu, não havia plano B.
Mas o país tem outras fontes de energia, não tem?
Tem, mas estão todas velhas demais. A central principal tem dez de dezasseis unidades completamente paradas. Não é uma questão de ligar ou desligar — é uma questão de máquinas que não funcionam há anos e que ninguém consegue reparar.
Porque é que não conseguem reparar?
Porque reparar exigiria peças, expertise, e dinheiro. Cuba não tem nenhum dos três. E modernizar toda a rede — que é o que realmente seria necessário — custaria dez mil milhões de euros. Nenhum banco do mundo empresta esse dinheiro a um país que não paga as suas dívidas.
Então as sanções americanas são o problema principal?
São uma parte, mas não a principal. As sanções existem, mas o verdadeiro problema é que Cuba construiu uma economia que depende de subsídios externos e que não consegue gerar divisas próprias. Mesmo sem sanções, ninguém investiria nisto.
E as pessoas? Como é que vivem com vinte horas sem eletricidade?
Vivem mal. Sem refrigeração, sem água quente, sem luz para trabalhar ou estudar. É uma crise que afeta tudo — hospitais, escolas, negócios. É um colapso que toca em cada aspecto da vida diária.