Entre 50 mil e 60 mil migrantes tentaram cruzar a fronteira do Marrocos para a Espanha em 24 horas, deixando ao menos 72 mortos. Ceuta e Melilla permanecem sob domínio espanhol desde 1415 e 1497, respectivamente, funcionando como portas de entrada para a Europa enquanto mantêm lógica militar colonial.
Crise migratória no norte da África é herança do colonialismo que persiste
Catorze quilômetros separam quem pode ir e vir de quem pode morrer tentando
Por que Ceuta e Melilla continuam sendo espanholas? Não deveriam ter sido devolvidas ao Marrocos quando o colonialismo terminou?
Tecnicamente, sim. Mas a história não funciona assim. Quando o império desabou, a Espanha simplesmente decidiu que esses territórios eram diferentes — que faziam parte da metrópole, não da colônia. Ninguém forçou a questão.
E o Marrocos? Não reclama?
Reclama constantemente. Mas Ceuta e Melilla são parte da União Europeia agora. Isso complica tudo. Não é só um problema bilateral entre dois países.
Então a fronteira é realmente sobre colonialismo, não sobre migração?
A migração é o sintoma. O colonialismo é a doença. A fronteira existe porque a Espanha nunca saiu da África. A migração existe porque a África nunca se recuperou do colonialismo.
Essas pessoas que morrem tentando cruzar — elas sabem que é tão perigoso?
Sabem. Mas o que elas deixam para trás é pior. Deserto, guerra, fome, falta de futuro. A morte é um risco calculado quando a vida já é impossível.
E depois que as imagens desaparecerem das redes sociais?
Volta tudo ao normal. As cercas continuam. Os acordos continuam. As mortes continuam. Só que ninguém está vendo mais.
The Pulse
- Entre 50 mil e 60 mil migrantes tentaram cruzar a fronteira em 24 horas
- Pelo menos 72 pessoas morreram na crise de Ceuta
- Ceuta foi conquistada por Portugal em 1415; Melilla pela Espanha em 1497
- Ambos os territórios permanecem sob domínio espanhol e fazem parte da União Europeia
- Dezenas de imigrantes morreram no Barrio Chino de Melilla em junho de 2022
Entre 50 mil e 60 mil migrantes tentaram cruzar a fronteira do Marrocos para a Espanha em 24 horas, deixando ao menos 72 mortos. Ceuta e Melilla permanecem sob domínio espanhol desde 1415 e 1497, respectivamente, funcionando como portas de entrada para a Europa enquanto mantêm lógica militar colonial.
Crise migratória em Ceuta e Melilla revela como o colonialismo espanhol perdura em territórios africanos, criando fronteiras que separam radicalmente experiências de cidadania e humanidade.
As imagens chegaram rápido demais para serem ignoradas: jovens homens emergindo da água, soldados em posição de combate, cercas de aço cortando a paisagem. Ceuta, o pequeno território espanhol na costa norte da África, virou símbolo de uma crise que matou pelo menos 72 pessoas em poucos dias. Entre 50 mil e 60 mil migrantes tentaram cruzar a fronteira do Marrocos para a Espanha em apenas 24 horas, transformando dois enclaves coloniais esquecidos no centro de um debate que nunca deveria ter saído de pauta.
Ceuta e Melilla não são acidentes geográficos. São relíquias de um império que oficialmente terminou há décadas, mas que continua muito vivo. Portugal conquistou Ceuta em 1415; a Espanha tomou Melilla em 1497. Quando o colonialismo europeu desabou no século 20, quando as potências ocidentais devolveram suas possessões ultramarinas aos povos que as habitavam, esses dois territórios permaneceram. Ainda pertencem à Espanha. Ainda fazem parte da União Europeia, apesar de ficarem em solo africano. O colonialismo, simplesmente, não saiu.
Durante séculos, as fortificações que cercam essas cidades controlavam rotas comerciais do Mediterrâneo. Exércitos rivais eram contidos por muros de pedra e canhões. Hoje, a lógica é a mesma, mas os inimigos mudaram. Grades e câmeras agora delimitam quem não pode entrar. A máquina militar que outrora defendia impérios agora contém pessoas que atravessaram desertos, acampamentos de refugiados e o mar em busca de proteção ou de trabalho. A estrutura persiste; apenas o alvo foi redefinido.
Melilla gosta de se apresentar como a cidade das quatro culturas: cristã, judaica, muçulmana e amazigh, dos povos originários. Os museus celebram essa diversidade. Os roteiros turísticos a vendem. Os discursos institucionais a exaltam. Mas há uma quinta presença que ninguém menciona nos panfletos. Os africanos subsaarianos atravessam Melilla há décadas, buscando chegar à Europa. Em junho de 2022, dezenas deles morreram durante uma tentativa de passagem pelo Barrio Chino. Um ano depois, ativistas voltaram ao local para pendurar cravos vermelhos nas grades da fronteira, com cartazes que diziam: nenhum ser humano é ilegal.
Catorze quilômetros separam Melilla do Marrocos. Nessa distância, experiências radicalmente diferentes de cidadania e humanidade coexistem lado a lado. De um lado, cidadãos da União Europeia com direito de ir e vir. Do outro, pessoas que podem morrer tentando atravessar. A fronteira não é apenas uma linha no mapa. É uma máquina que transforma seres humanos em números, em crises, em problemas a serem contidos.
Ceuta voltou às manchetes porque milhares conseguiram cruzar em poucos dias. As imagens circularam, geraram debate, provocaram reações. Mas as imagens vão desaparecer. Os jornais vão virar página. O mundo vai esquecer, como esqueceu das mortes de 2022, como esquece de tudo que não cabe nos ciclos de notícia de 48 horas. O que não vai desaparecer são as cercas. Os acordos entre Espanha e Marrocos vão permanecer. As tensões vão persistir. A política migratória europeia vai continuar funcionando exatamente como funciona agora. E o colonialismo, aquele que supostamente terminou há 70 anos, vai seguir em frente, invisível, estrutural, tão normal que ninguém mais o chama pelo nome.
Notable Quotes
A Espanha é mais que a soma dos seus territórios. E seus territórios são muito mais que a Espanha— Fernanda Papa, jornalista
Os africanos subsaarianos atravessam Melilla há décadas— Fernanda Papa, jornalista