Em meio à pior seca em 91 anos, o Brasil se vê diante de uma pergunta que já fez antes e temia repetir: haverá racionamento de energia? O ministro Bento Albuquerque responde que não — por enquanto —, mas reconhece que a crise hídrica transcende 2021 e se estenderá por anos, com reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste chegando ao fim do ano abaixo de 10% da capacidade. Setembro surge como mês decisivo, um momento em que escolhas coletivas e políticas públicas se encontram com a imprevisibilidade do clima, lembrando que a água, recurso aparentemente abundante num país continental, pode ser també
Crise hídrica não acaba em 2021, avisa ministro de Minas e Energia
O monitoramento é permanente, é um processo que vamos avaliando
Por que o ministro insiste que não há racionamento "hoje" se a situação é tão grave?
Porque tecnicamente ainda há oferta suficiente — o sistema está operando no limite, mas não colapsou. Mas esse "hoje" é uma palavra muito importante. Ele está dizendo que o cenário muda se as pessoas não reduzirem consumo ou se não chover.
E se chover normalmente em outubro e novembro?
Mesmo assim, os reservatórios estarão tão vazios que levará anos para se recuperar. Sobradinho levou cinco anos. O Brasil está apostando que as chuvas virão, mas o solo está tão seco que absorverá muita água antes de encher as barragens.
Por que o governo demorou tanto para agir se sabia desde outubro?
Essa é a pergunta que o ministro não quer responder diretamente. Ele diz que é fácil ser sábio depois, mas a verdade é que campanhas de redução de consumo levam tempo para funcionar, e setembro é quando eles vão saber se funcionou.
Qual é o risco real de apagão?
Se muita gente ligar chuveiro, ar-condicionado e ferro ao mesmo tempo no meio da tarde, o sistema não tem potência. Não é falta de energia no mês — é falta de capacidade naquele momento específico. Por isso pedem para usar essas coisas à noite.
E as termelétricas resolvem?
Resolvem o apagão, mas não resolvem a conta de luz. Termelétrica é cara, e quem paga é o consumidor. É por isso que a bandeira de escassez hídrica está tão cara.
Então 2022 pode ser pior?
Pode ser muito pior. Se não chover bem agora e os reservatórios não se recuperarem, o governo entra em 2022 com uma crise já instalada. Não é um problema que termina em dezembro.
The Pulse
- Os reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste estão no nível mais baixo para esta época do ano desde que registros públicos começaram, em 2000 — a pior situação hídrica em 91 anos.
- O risco de apagão é real: se o consumo simultâneo ultrapassar a capacidade do sistema durante os horários de pico, o país pode enfrentar quedas de energia generalizadas.
- O governo lançou a bandeira de escassez hídrica, adicionando R$ 14,20 a cada 100 kWh consumidos, e investiu R$ 120 milhões em campanhas de redução — medidas cujo impacto ainda precisa ser comprovado.
- Setembro é o mês-chave: se a demanda não cair o suficiente, o governo terá de acionar mais termelétricas, cujo custo elevado é repassado diretamente às contas de luz da população.
- A recuperação dos reservatórios não virá rapidamente — o exemplo de Sobradinho, que levou quase cinco anos para se recuperar após chegar a 1% em 2015, ilustra a dimensão do desafio para 2022, 2023 e 2024.
Em meio à pior seca em 91 anos, o Brasil se vê diante de uma pergunta que já fez antes e temia repetir: haverá racionamento de energia? O ministro Bento Albuquerque responde que não — por enquanto —, mas reconhece que a crise hídrica transcende 2021 e se estenderá por anos, com reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste chegando ao fim do ano abaixo de 10% da capacidade. Setembro surge como mês decisivo, um momento em que escolhas coletivas e políticas públicas se encontram com a imprevisibilidade do clima, lembrando que a água, recurso aparentemente abundante num país continental, pode ser também a mais frágil das certezas.
No oitavo andar do Ministério de Minas e Energia, o ar-condicionado está desligado e as luzes apagadas — um retrato simbólico da crise que força o ministro Bento Albuquerque a responder diariamente se o Brasil enfrentará racionamento. Sua resposta é não, pelo menos por enquanto, mas vem acompanhada de uma ressalva: o monitoramento é permanente e nada está garantido.
Albuquerque afirma que o presidente Bolsonaro foi alertado sobre o risco desde outubro do ano anterior. Foi o próprio presidente quem sugeriu a campanha de redução de consumo — R$ 120 milhões em comerciais de televisão, rádio e internet. Aos críticos que cobram ação mais rápida, o ministro responde com uma metáfora: é fácil ser comentarista de videotape depois que tudo já aconteceu.
Mas há um consenso que transcende as disputas políticas: a crise não terminará em 2021. Os reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste chegarão ao fim do ano com menos de 10% de água — a pior situação em 91 anos. O solo está tão seco que exigirá mais chuva do que o normal para encher as barragens. A preocupação, reconhece o ministro, se estende a 2022, 2023 e 2024. A bacia do Rio São Francisco oferece uma lição dura: o lago de Sobradinho chegou a 1% em 2015 e levou quase cinco anos para recuperar 90% da capacidade.
Setembro é o mês decisivo. O governo avaliará o impacto das medidas anunciadas em agosto — a bandeira de escassez hídrica, os programas de redução para residências e grandes empresas. Se a demanda não cair, será necessário acionar mais termelétricas, cujo custo elevado recai diretamente sobre as contas de luz. Outubro e novembro são críticos antes do período úmido. O que acontecer nas próximas semanas será determinante para o que o Brasil enfrentará nos anos seguintes.
No oitavo andar do Ministério de Minas e Energia, o ar-condicionado está desligado e as luzes apagadas. É um retrato vivo da crise que se desenrola desde o ano anterior, forçando o ministro Bento Albuquerque a responder diariamente uma pergunta que o Brasil não queria fazer novamente: o país enfrentará racionamento de energia? Sua resposta é não — pelo menos por enquanto. Mas vem acompanhada de uma ressalva incômoda: o monitoramento é permanente, e nada está garantido.
Albuquerque afirma que o presidente Jair Bolsonaro foi alertado sobre o risco de crise hídrica desde outubro do ano anterior, quando apresentou dados junto com o diretor-geral da Aneel, André Pepitone, e com Rodrigo Limp, então secretário de Energia e agora presidente da Eletrobras. Foi o próprio presidente quem sugeriu uma campanha para incentivar redução de consumo — um investimento de R$ 120 milhões em comerciais de televisão, rádio e internet. Quando críticos apontam que o governo deveria ter agido com mais rapidez, o ministro responde com uma metáfora: é fácil ser comentarista de videotape, falando depois que tudo já aconteceu. As medidas tomadas, defende, eram as apropriadas para aquele momento.
Mas há um consenso entre especialistas e governo que transcende as disputas políticas: a crise hídrica não terminará em 2021. Os reservatórios continuarão caindo até dezembro, quando começa o período úmido que se estende até abril. Dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico mostram que grande parte das represas do Sudeste e Centro-Oeste chegará ao fim do ano com menos de 10% de água. O solo está tão seco que será necessária mais água para encher uma barragem quando as chuvas finalmente chegarem. Albuquerque reconhece que a preocupação não é apenas com 2021, mas com 2022, 2023 e 2024. Os reservatórios estão em níveis baixos e ficarão ainda mais baixos até o fim do ano. Nada se resolverá em dezembro, muito menos em abril de 2022.
A bacia do Rio São Francisco oferece uma lição sobre a dificuldade de recuperação. O lago de Sobradinho, na Bahia, chegou a apenas 1% de água em 2015. Levou até maio de 2020 — quase cinco anos — para recuperar 90% da capacidade, e isso exigiu chuvas acima da média e um conjunto de medidas coordenadas. Agora, as usinas do Velho Chico são fundamentais para transmitir energia para o Sudeste, adicionando pressão a um sistema já frágil.
O ministro aponta setembro como mês decisivo. Nas próximas semanas, até outubro, o governo avaliará o impacto das medidas anunciadas no fim de agosto: a criação da bandeira de escassez hídrica, que adiciona R$ 14,20 a cada 100 quilowatts-hora consumidos; um programa para incentivar redução de consumo entre residências e pequenos comércios; e uma medida para grandes empresas reduzirem uso nos horários de pico. Se a demanda não cair ou o programa de resposta não funcionar como esperado, o governo terá que trabalhar na ampliação da geração — basicamente, usar mais termelétricas, cujo custo é repassado diretamente às contas de luz. Outubro e novembro são críticos porque marcam o fim do período seco. O que acontecer em setembro será determinante.
Albuquerque, um ministro discreto de uma área técnica que raramente ganha destaque, foi à televisão em rede nacional duas vezes em dois meses. Pediu às pessoas que usassem chuveiros elétricos e ferros de passar fora do horário de pico — aquele período no meio da tarde quando o sistema está mais tenso. O risco é real: se muita gente consumir simultaneamente, o sistema pode não ter potência suficiente e ocorrer um apagão. Quando perguntado se o governo está escondendo algo, ele nega categoricamente. Não há segredo, diz, apenas um processo desafiador conduzido com critério, método e processo. Já percebe, acrescenta, maior engajamento das pessoas na redução de consumo.
O Brasil enfrenta sua pior crise hídrica em 91 anos. O nível dos reservatórios das hidrelétricas do Sudeste e Centro-Oeste é o mais baixo para esta época do ano desde que o Operador Nacional começou a registrar dados públicos, em 2000. A comparação com 2001 é inevitável — a crise está concentrada na mesma região que funciona como caixa d'água do setor elétrico. Mas há diferenças: hoje há maior possibilidade de transferência de energia do Nordeste e Norte, e o uso massivo de termelétricas oferece uma válvula de escape que não existia duas décadas atrás. O custo dessa válvula, porém, é sentido diretamente nas contas de luz de quem não pode pagar mais.
Notable Quotes
É o que nós chamamos de comentarista de videotape, que comenta depois que aconteceu. Depois que aconteceu, é mais fácil dizer.— Bento Albuquerque, ministro de Minas e Energia
Não estamos escondendo absolutamente nada. Estamos conduzindo um processo desafiador, mas com muito critério, método e processo.— Bento Albuquerque