A morte de María del Carmen Abascal, uma idosa de 87 anos que passou décadas resistindo ao despejo de seu apartamento em Madri, condensou em um único destino humano as contradições de uma Espanha dividida entre o direito à moradia e a lógica do mercado imobiliário. Sua história forçou o primeiro-ministro Pedro Sánchez a reconhecer, nas urnas parlamentares, que havia perdido a capacidade de governar — e o empurrou a antecipar eleições para novembro. O que começou como a luta silenciosa de uma aposentada tornou-se o espelho de uma polarização que pode redesenhar o futuro político do país.
Crise habitacional espanhola expõe divisão política e aposta de Sánchez em eleições
Nenhuma Maricarmen a mais! gritam nas ruas de Madri
Por que a morte de uma idosa em Madri se tornou tão importante politicamente? Parece haver algo além da história individual.
Maricarmen virou símbolo porque sua luta resume um problema estrutural: a Espanha tem uma crise habitacional real, e as imobiliárias estão expulsando pessoas. Quando ela morreu logo após conseguir um acordo, virou impossível ignorar.
Mas precisamos ser claros: o acordo foi conquistado, sim, mas ela faleceu. Não sabemos se teria conseguido viver dignamente com 400 euros de aluguel numa aposentadoria de 1.400. O símbolo é poderoso, mas a vida dela foi trágica.
E como isso afeta Sánchez politicamente?
Ele viu a rua se mobilizar e tentou responder com dois decretos de proteção aos inquilinos. Quando ambos foram rejeitados, ficou claro que perdeu maioria no Parlamento. Isso o forçou a antecipar eleições.
Importante notar: ele perdeu maioria porque direita e extrema direita votaram juntas contra. Isso é um bloco de quase metade do Parlamento. A esquerda dele está rachada. Não é apenas que a direita venceu; é que ele está isolado.
A extrema direita é realmente tão radical assim?
O Vox pode ser mais radical que Meloni na Itália ou Le Pen na França. E o PP, o partido conservador tradicional, abraçou o Vox sem pudor. Isso é novo na Espanha desde Franco.
Mas aqui temos que separar duas crises: a habitacional, que Sánchez quer usar a seu favor, e a migratória em Ceuta, que o Vox quer usar contra ele. São narrativas concorrentes. Qual vai vencer nas eleições ainda é aberto.
E se o Marrocos deixar mais imigrantes entrarem em Ceuta?
Aí a crise migratória explode de novo, e o Vox ganha munição. Sánchez perde.
Exatamente. Há um fator externo — o controle marroquino das fronteiras — que pode ser decisivo. Isso não é especulação; é uma dinâmica real que a colunista nomeou.
Le Pouls
- Maricarmen morreu antes de completar um mês no contrato que levou anos para conquistar, e seu rosto agora orna cartazes de manifestantes que ameaçam greve geral em Madri.
- O Parlamento espanhol rejeitou dois decretos de emergência de Sánchez para proteger inquilinos, com direita e extrema direita unidas contra a agenda social do governo.
- Sem maioria legislativa e acuado por denúncias de corrupção e pela crise migratória em Ceuta, Sánchez antecipou as eleições gerais para novembro em uma aposta política de alto risco.
- O PP e o Vox, somando quase metade do Parlamento, apostam que o caos migratório em Ceuta pesará mais do que a crise habitacional na decisão dos eleitores.
- A esquerda permanece internamente rachada, enquanto a extrema direita espanhola se apresenta como a força mais disposta a chegar ao poder desde o fim da ditadura de Franco.
A morte de María del Carmen Abascal, uma idosa de 87 anos que passou décadas resistindo ao despejo de seu apartamento em Madri, condensou em um único destino humano as contradições de uma Espanha dividida entre o direito à moradia e a lógica do mercado imobiliário. Sua história forçou o primeiro-ministro Pedro Sánchez a reconhecer, nas urnas parlamentares, que havia perdido a capacidade de governar — e o empurrou a antecipar eleições para novembro. O que começou como a luta silenciosa de uma aposentada tornou-se o espelho de uma polarização que pode redesenhar o futuro político do país.
Maricarmen tinha oitenta e sete anos quando finalmente assegurou oito anos a mais no apartamento do centro de Madri onde vivera por sete décadas. Após negociar o aluguel de 2.650 euros para 400 euros mensais — pagos com sua aposentadoria de 1.400 euros —, a vitória chegou tarde demais. María del Carmen Abascal morreu em 7 de outubro, antes de usufruir um único mês do acordo.
Sua morte acendeu as ruas de Madri. Manifestantes gritam 'Nenhuma Maricarmen a mais!' e ameaçam greve geral. Estudantes, professores e ativistas que haviam se deitado no chão para impedir seu despejo chamam os proprietários de 'rentistas terroristas' e denunciam o governo de 'vergonhoso'. O caso tornou-se o rosto de uma crise habitacional em que o estoque disponível foi progressivamente tomado por reformas e preços proibitivos, deixando idosos e jovens sem saída.
O primeiro-ministro socialista Pedro Sánchez respondeu enviando dois decretos de emergência ao Parlamento para ampliar as garantias aos inquilinos. Ambos foram derrubados pela direita e pela extrema direita. A derrota confirmou o que já se suspeitava: Sánchez havia perdido a maioria para governar. Com o PP controlando 137 cadeiras e o Vox outras 33, e a esquerda internamente dividida, o premier antecipou as eleições gerais para novembro.
A crise habitacional, porém, não é seu único flanco. Denúncias de corrupção envolvendo aliados e familiares desgastam o governo, e a crise migratória em Ceuta o colocou na defensiva: 72% dos espanhóis o responsabilizam pelo caos resultante da entrada em massa de imigrantes naquela região. O Vox aposta que esse tema o enterrará; Sánchez aposta que a morte de Maricarmen o ressuscitará. As eleições de novembro dirão qual narrativa prevalece — e se a Espanha caminha para seu governo de extrema direita mais poderoso desde o fim da ditadura de Franco.
Maricarmen tinha oitenta e sete anos quando finalmente conseguiu o que procurava: oito anos a mais no contrato de aluguel do apartamento no centro de Madri onde havia vivido durante sete décadas. A imobiliária havia exigido 2.650 euros por mês. Ela negociou até 400 euros, tirados de uma aposentadoria de 1.400 euros mensais. Era uma vitória pequena, conquistada após anos de luta pessoal. Mas chegou tarde demais. María del Carmen Abascal morreu na quarta-feira, 7 de outubro, antes de poder usufruir sequer um mês daquele acordo.
Sua morte não passou despercebida. Nas ruas de Madri, manifestantes gritam "Nenhuma Maricarmen a mais!", ameaçando greve geral. Seu rosto tornou-se o rosto da crise habitacional espanhola, uma das mais complexas que o país enfrenta. O problema não é apenas a escassez de moradias. É que grande parte do estoque disponível tornou-se inacessível para idosos e jovens. Empresas imobiliárias reformam o que conseguem para vender as unidades a preços proibitivos. Estudantes, professores, sindicalistas, artistas e ativistas se jogaram no chão para impedir o despejo de Maricarmen. Chamam os proprietários de "rentistas terroristas" e denunciam o governo como "vergonhoso".
O primeiro-ministro socialista Pedro Sánchez sentiu a pressão vindo das ruas. Enviou dois decretos ao Parlamento em regime de emergência, ampliando as garantias aos inquilinos. Ambos foram rejeitados. A direita votou contra. A extrema direita votou contra. Naquele momento, Sánchez teve a confirmação empírica de que havia perdido a maioria para governar. O Parlamento está dividido: o partido direitista PP controla 137 cadeiras, a extrema direita Vox tem 33, somando quase metade da casa. A esquerda continua rachada internamente. Sem conseguir aprovar sua agenda legislativa, Sánchez antecipou as eleições gerais para novembro. É uma aposta de tudo ou nada político.
Mas a crise habitacional não é seu único problema. Denúncias de corrupção envolvendo aliados e familiares do primeiro-ministro desgastam seu governo. A crise migratória em Ceuta o colocou na defensiva. Quando massas de imigrantes entraram naquela região espanhola, 89% da população responsabilizou o Marrocos. Porém, 72% atribuem ao próprio Sánchez a culpa pelo caos resultante. É uma divisão de responsabilidades que o prejudica politicamente.
O que está em jogo nas eleições de novembro vai além da habitação. Sánchez e seu partido, o PSOE, defendem um programa de políticas sociais robustas. O maior partido da oposição, o PP, é defensor do livre mercado e perdeu qualquer constrangimento em abraçar o Vox, cuja plataforma pode ser ainda mais radical do que a de Giorgia Meloni na Itália ou Marine Le Pen na França. Desde a morte do ditador Franco, a Espanha não havia enfrentado uma extrema direita tão disposta a chegar ao governo.
Sánchez aposta que a crise habitacional, personificada pela morte de Maricarmen, pode catapultá-lo de volta ao poder. Mas os políticos do Vox fazem uma aposta diferente: que a crise migratória de Ceuta o enterrará. Se o Marrocos "esquecer" de controlar as passagens fronteiriças outra vez, essa dinâmica pode se intensificar. O que começou como uma luta pessoal de uma idosa por um lugar para viver transformou-se em um termômetro da polarização política espanhola e em um catalisador para eleições que podem redefinir o país.
Citations marquantes
Nenhuma Maricarmen a mais!— Manifestantes em Madri
Chamam os proprietários de imóveis de rentistas terroristas e de vergonhoso o governo atual— Participantes do movimento de defesa de Maricarmen