Crise de opioides nos EUA permanece visível durante Copa perto da final

Em 2023, 110 mil mortes por overdose nos EUA; estimativa para 2025 aponta 70 mil óbitos; fentanil causou 72,7 mil mortes em 2023, afetando desproporcionalmente comunidades pobres como Paterson.
O julgamento mata mais que a droga
Ruth Jean Marie explica por que o tratamento falha quando a sociedade condena quem usa opioides.
Mark

Por que Paterson especificamente? É só uma cidade pobre entre muitas outras nos EUA.

Mimi

Paterson é o lugar onde a crise se concentra de forma extrema. Ela responde por 55% das internações por opioides de toda uma região, apesar de ser apenas 29% da população. É como se a epidemia tivesse escolhido um endereço.

Mark

E como uma cidade assim consegue lidar com isso? Parece impossível.

Mimi

Não consegue sozinha. Organizações como a Eva's Village e a North Jersey Community Research Initiative fazem o trabalho que deveria ser responsabilidade do Estado. Servem refeições, oferecem tratamento, distribuem naloxona nas ruas.

Mark

Mas naloxona nas ruas — isso não é apenas um curativo?

Mimi

Sim, é um curativo. Mas Ruth Jean Marie, que trabalha lá, diz que o verdadeiro problema é como julgamos essas pessoas. Quando chegam com vergonha e medo, não se engajam no tratamento. O julgamento mata mais que a droga.

Mark

Como assim? Explica melhor.

Mimi

Se você chega a um centro de tratamento e sente que está sendo julgado, você não volta. Você não confia. E sem confiança, sem vínculo, as pessoas voltam para as ruas e para as drogas. O risco de overdose aumenta.

Mark

Então o trauma é realmente a porta de entrada?

Mimi

Segundo Dana Robertson, sim. Ela diz que ninguém acorda querendo ficar viciado em heroína porque estava se divertindo. Há sempre algo antes — perda, dor, falta de esperança. O fentanil só tornou tudo mais letal.

Mark

E como começou tudo isso?

Mimi

Nos consultórios. Analgésicos opioides prescritos de forma descontrolada entre 1996 e 2012. A indústria farmacêutica criou a epidemia. Depois veio o fentanil, cem vezes mais potente, e tudo piorou exponencialmente.

  • O fentanil, cem vezes mais potente que a morfina, responde hoje por 69% das mortes por overdose nos EUA — uma substância que em 1999 matou três mil pessoas e em 2023 matou mais de 72 mil.
  • Paterson, com apenas 29% da população do condado de Passaic, concentra 55% das internações por opioides da região, num território onde a taxa de pobreza supera o dobro da média nacional.
  • Quiosques de naloxona nas ruas e organizações como a Eva's Village tentam preencher o vácuo deixado pelo sistema, atendendo mais de três mil pessoas por ano com recursos que o poder público não garante.
  • Especialistas alertam que o julgamento moral é o maior inimigo do tratamento: quando a vergonha substitui o acolhimento, a retenção cai e o risco de overdose aumenta.
  • A narrativa de que o vício começa pela escolha é contestada por quem trabalha na linha de frente — 'o trauma é a porta de entrada, não a diversão', diz uma enfermeira que distribui seringas limpas nas ruas da cidade.

Enquanto os estádios americanos celebravam a Copa do Mundo, Paterson, Nova Jersey, permanecia palco de uma tragédia silenciosa e contínua: a epidemia de opioides que, em 2023, ceifou 110 mil vidas nos Estados Unidos. A cidade, marcada pela pobreza e pela desindustrialização, concentra desproporcionalmente o peso de uma crise que nasceu nos consultórios médicos e se transformou, com o fentanil, em algo ainda mais devastador. Entre quiosques de naloxona e organizações comunitárias que sustentam o que o Estado não alcança, emerge uma questão que transcende a saúde pública: como uma sociedade trata aqueles que o trauma, e não a escolha, conduziu à dependência.

Enquanto a Copa do Mundo reunia multidões nos estádios americanos, Paterson, Nova Jersey — a menos de trinta minutos do MetLife Stadium — vivia uma realidade distante dos holofotes. A cidade, que um dia foi polo industrial e nunca se recuperou da desindustrialização dos anos 1970, tornou-se um dos epicentros mais visíveis da epidemia de opioides que assola os Estados Unidos.

Os números são pesados: 110 mil mortes por overdose em 2023, com o fentanil respondendo por 69% dos óbitos. Um opioide sintético cem vezes mais potente que a morfina, o fentanil matou três mil pessoas em 1999 e 72,7 mil em 2023. Paterson carrega uma parcela desproporcional desse peso — com taxa de pobreza de 21,5% e responsável por 55% das internações por opioides do condado, apesar de representar menos de um terço da população local.

Nas ruas do centro, quiosques distribuem naloxona gratuitamente. A Eva's Village, fundada em 1982, ocupa quase três quarteirões no coração da crise e atende mais de três mil pessoas por ano, oferecendo desde alimentação até tratamento psiquiátrico e reinserção social. Ruth Jean Marie, chefe de serviços clínicos da organização, é direta sobre o maior obstáculo: não é a droga, é o julgamento. 'Quando recebemos as pessoas com julgamento, o engajamento com o tratamento diminui e o risco de overdose aumenta.'

A enfermeira Dana Robertson, da North Jersey Community Research Initiative, vai além ao questionar a origem do vício: 'O trauma é a porta de entrada para as drogas, não a diversão.' A epidemia, afinal, começou dentro dos consultórios — prescrições descontroladas entre 1996 e 2012 criaram uma geração de dependentes antes mesmo de o fentanil transformar a crise em algo ainda mais letal.

Paterson segue como espelho de uma contradição americana: enquanto os estádios celebravam, suas ruas continuavam um jogo sem vencedores, contado em vidas perdidas.

Enquanto a Copa do Mundo se desenrolava nos estádios americanos, a crise de opioides continuava seu trabalho silencioso nas ruas de Paterson, Nova Jersey — a menos de trinta minutos de East Hanover, onde a seleção espanhola se preparava para a final contra a Argentina no MetLife Stadium. A cidade antiga, que um dia foi polo industrial, agora concentra alguns dos sinais mais extremos da epidemia que assola o país: overdoses diárias, internações emergenciais, e uma população desesperada por ajuda.

Os números contam parte da história. Em 2023, os Estados Unidos registraram 110 mil mortes por overdose. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças estima que 2025 trará pelo menos 70 mil óbitos — uma queda em relação ao pico, mas ainda um número devastador. O culpado principal é o fentanil, um opioide sintético cerca de cem vezes mais potente que a morfina e cinquenta vezes mais forte que a heroína. Em 1999, essa substância causou três mil mortes; em 2023, matou 72,7 mil pessoas. Hoje responde por 69% de todas as mortes por overdose no país.

Parterson carrega o peso desproporcional dessa crise. A cidade perdeu sua força econômica após a desindustrialização que começou nos anos 1970 e nunca se recuperou. Sua taxa de pobreza é de 21,5%, mais que o dobro da média nacional. Embora represente apenas 29% da população do condado de Passaic, Paterson responde por 55% de todas as internações relacionadas a opioides na região. Nas ruas do centro, usuários de heroína permanecem visíveis durante o dia. A maior parte das overdoses ocorre em uma área que corresponde a apenas 2% do território municipal — um epicentro dentro de um epicentro.

Mas há também sinais de resistência. Em terminais de ônibus e esquinas, quiosques parecidos com bancas de jornal oferecem naloxona gratuitamente, o medicamento que reverte overdoses de opioides. As caixas trazem avisos de "revenda proibida", e jovens as retiram sob observação da polícia. Organizações locais assumem boa parte do trabalho que o sistema deveria fazer. A Eva's Village, fundada em 1982, ocupa quase três quarteirões no coração da crise e oferece atendimento médico, tratamento para abuso de substâncias, acompanhamento psiquiátrico, alimentação e programas de reinserção social. Atende mais de três mil pessoas por ano, mantém mais de vinte programas e serve mais de 300 mil refeições anuais.

Ruth Jean Marie, chefe de serviços clínicos e compliance da Eva's Village, entende que o maior obstáculo não é a droga em si, mas como a sociedade trata quem a usa. "As pessoas que entram em tratamento geralmente carregam traumas, vergonha e luto", disse ela. O julgamento moral, explica, sabota a recuperação. "Quando as recebemos com julgamento, o engajamento com o tratamento diminui, a retenção diminui e o risco de overdose aumenta." A North Jersey Community Research Initiative também trabalha em Paterson, distribuindo seringas limpas e descartando material usado — um trabalho que Dana Robertson, enfermeira da organização, defende com clareza: "Qual a alternativa? Devemos abandonar toda uma geração de pessoas?"

Robertson vai além. Ela questiona a narrativa comum sobre como as pessoas chegam às drogas. "A maconha não é a porta de entrada para as drogas, o trauma é. Você não vai parar num lugar como este porque estava se divertindo." A epidemia, afinal, começou dentro dos consultórios. Entre 1996 e 2012, prescrições descontroladas de analgésicos opioides desenvolvidos pela indústria farmacêutica criaram uma geração de dependentes. As prescrições e vendas quadruplicaram entre 1999 e 2010; em 2000, as vendas do OxyContin passaram de um bilhão de dólares. O CDC declarou oficialmente as overdoses como epidemia em 2011, e o endurecimento das regras avançou gradualmente até 2016. Mas o fentanil, que começou a se disseminar em 2013, transformou a crise em algo ainda mais letal.

Parterson segue como um espelho dessa realidade americana — um lugar onde a pobreza, o trauma, as drogas e a falta de recursos se encontram todos os dias. Enquanto os estádios celebravam a Copa, as ruas da cidade continuavam seu próprio jogo, sem vencedores, apenas perdas contadas em vidas.

Quando as recebemos com julgamento, o engajamento com o tratamento diminui, a retenção diminui e o risco de overdose aumenta
— Ruth Jean Marie, chefe de serviços clínicos da Eva's Village
O trauma é a porta de entrada para as drogas, não a maconha. Você não vai parar num lugar como este porque estava se divertindo
— Dana Robertson, enfermeira da North Jersey Community Research Initiative
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