Em mais de dois séculos de convivência diplomática, Brasil e Estados Unidos sempre encontraram maneiras de encapsular suas tensões sem deixar que elas corroessem o tecido da relação bilateral. Hoje, com a revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Viotti e o confronto aberto conduzido por Marco Rubio, esse padrão histórico parece ter se rompido — não por acidente, mas como reflexo de escolhas políticas deliberadas em Washington e Brasília. O que está em jogo não é apenas uma crise diplomática, mas a pergunta sobre se dois países podem, depois de tanto atrito, encontrar o caminho de volta ao
Crise Brasil-EUA rompe padrão de 200 anos, diz pesquisador
A diplomacia brasileira encapsula crises. Agora rompe esse padrão.
Por que essa crise é diferente das anteriores? Não houve tensões antes?
Houve, mas sempre foram tratadas como problemas específicos que não afetavam o todo. Espionagem, direitos humanos, programa nuclear — em cada caso, os governos encontraram maneiras de seguir adiante. Agora a sucessão de atritos rompe esse padrão de encapsulamento.
O que mudou na postura americana?
Trump vê o Brasil como estratégico para consolidar influência na América Latina. Não é interesse oculto — foi declarado publicamente. Marco Rubio, o secretário de Estado, lidera esse enfrentamento direto de forma que não tínhamos visto antes.
Lula está apenas respondendo, ou há cálculo político nisso?
Há cálculo. O confronto com Washington fortaleceu o governo internamente em um momento de desgaste doméstico. Lula historicamente buscava conciliação, mas diante da falta de abertura americana, o Planalto passou a usar a crise também como ferramenta eleitoral.
Isso pode durar?
Provavelmente não. Trump chega às midterms com aprovação baixa. Se os republicanos perderem força no Congresso, a estratégia de enfrentamento ostensivo ao Brasil perde sustentação política. Depois das eleições dos dois países, ambos terão incentivos para reconstruir uma relação mais pragmática.
Mas o dano já foi feito?
Essa é a questão aberta. Historicamente, o Brasil e os EUA sempre encontraram maneiras de reconstruir. Mas essa crise é mais profunda que as anteriores. Quando o momento de reaproximação chegar, não sabemos se será possível voltar ao padrão antigo.
Le Pouls
- A revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington é um gesto sem precedente em mais de 200 anos de relações bilaterais, sinalizando uma ruptura estrutural, não um mero incidente.
- Washington enxerga o Brasil como peça central de sua estratégia para a América Latina, e Marco Rubio lidera um confronto direto com Brasília que não deixa espaço para o tradicional 'encapsulamento' de conflitos.
- O governo Lula, diante da falta de abertura americana, passou a tratar a crise também como trunfo eleitoral doméstico — um desvio do pragmatismo que historicamente marcou sua liderança.
- A aprovação historicamente baixa de Trump às vésperas das midterms pode enfraquecer a sustentação política de uma estratégia de enfrentamento ostensivo ao Brasil.
- A grande incógnita é se, quando os calendários eleitorais dos dois países se encerrarem e os incentivos ao confronto diminuírem, os danos já serão profundos demais para uma simples restauração do padrão histórico.
Em mais de dois séculos de convivência diplomática, Brasil e Estados Unidos sempre encontraram maneiras de encapsular suas tensões sem deixar que elas corroessem o tecido da relação bilateral. Hoje, com a revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Viotti e o confronto aberto conduzido por Marco Rubio, esse padrão histórico parece ter se rompido — não por acidente, mas como reflexo de escolhas políticas deliberadas em Washington e Brasília. O que está em jogo não é apenas uma crise diplomática, mas a pergunta sobre se dois países podem, depois de tanto atrito, encontrar o caminho de volta ao pragmatismo que sempre os uniu.
Lucas de Souza Martins, historiador da Temple University, afirma que Brasil e Estados Unidos vivem seu momento mais tenso em mais de dois séculos. A revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Viotti em Washington não é um episódio isolado — é o sinal de que a dinâmica entre os dois países mudou de forma estrutural.
Historicamente, a diplomacia brasileira tratava crises como incidentes circunscritos, impedindo que contaminassem a relação mais ampla entre os Estados. Martins chama esse mecanismo de 'encapsulamento'. Tensões anteriores — a espionagem americana contra Dilma Rousseff, os atritos entre Carter e a ditadura de Geisel — foram superadas porque os governos encontraram caminhos para reconstruir o diálogo. Desta vez, a sucessão de atritos não segue esse padrão histórico de contenção.
Parte da explicação está na estratégia de Trump para a América Latina. A Casa Branca vê o Brasil como peça central para ampliar sua influência regional, e esse interesse foi declarado publicamente — em posts do presidente, em documentos de política externa. Marco Rubio emerge como figura-chave no confronto direto com Brasília, aparecendo sempre que surgem críticas ao presidente Lula.
Martins, porém, enxerga fissuras nesse cenário. Trump chega às midterms com aprovação historicamente baixa, e uma eventual perda de força republicana no Congresso pode forçar ajustes na política externa. Do lado brasileiro, o confronto com Washington fortaleceu o governo Lula junto ao eleitorado num momento de desgaste doméstico — uma lógica eleitoral que não reflete a tradição de conciliação do presidente.
Depois que os processos eleitorais terminarem nos dois países, ambos os lados terão incentivos para reconstruir uma relação mais pragmática. O que permanece incerto é se, quando esse momento chegar, os danos já serão profundos demais para uma simples volta ao padrão histórico.
Lucas de Souza Martins, historiador e professor na Temple University, observa que o Brasil e os Estados Unidos atravessam seu momento mais tenso em mais de dois séculos de relação bilateral. A revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Viotti em Washington marca um ponto de ruptura sem precedentes — não apenas um episódio isolado, mas um sinal de que a dinâmica entre os dois países mudou de forma estrutural.
A diplomacia brasileira, historicamente, tratava crises como incidentes circunscritos: problemas específicos que não contaminavam o relacionamento mais amplo entre os Estados. Martins chama isso de "encapsulamento" de conflitos. Tensões anteriores — a espionagem americana contra Dilma Rousseff nos anos 2010, os atritos entre Jimmy Carter e a ditadura de Ernesto Geisel sobre direitos humanos e programa nuclear — foram todas superadas porque os governos encontraram caminhos para reduzir divergências e reconstruir o diálogo. Desta vez, algo é diferente. A sucessão de atritos não segue esse padrão histórico de contenção.
Parte da explicação está na estratégia política do governo Donald Trump para a América Latina. A Casa Branca vê o Brasil como peça central para ampliar sua influência regional — a maior economia do continente, o país mais populoso, uma das democracias mais significativas. Martins aponta que esse interesse não é velado: foi declarado publicamente por integrantes da administração Trump, em posts do presidente nas redes sociais, em documentos de política externa. O secretário de Estado Marco Rubio emerge como figura-chave nesse confronto direto com Brasília, aparecendo sempre que surgem acusações de falta de boa vontade ou críticas ao presidente Lula.
Mas Martins enxerga fissuras nesse cenário que podem abrir espaço para mudança. Trump chega às eleições legislativas de meio de mandato — as midterms — com aprovação historicamente baixa, mais frágil que a maioria dos presidentes no mesmo ponto de seus mandatos. Se os republicanos perderem força no Congresso, a política externa da Casa Branca pode sofrer ajustes. Uma estratégia de enfrentamento ostensivo ao Brasil perderia sustentação política. Além disso, a preocupação central do eleitor americano continua sendo a economia: se a política tarifária de Trump não reduz inflação nem melhora a vida das pessoas, ela enfraquece também as figuras que a representam.
O pesquisador também nota que a resposta do governo Lula possui uma dimensão política interna. O confronto com Washington fortaleceu o governo junto ao eleitorado brasileiro em um momento de desgaste doméstico — uma lógica eleitoral que não reflete a tradição de conciliação e pragmatismo que marca o histórico do presidente. Houve sinais claros de tentativa de aproximação com Trump, mas diante da falta de abertura americana, o Planalto passou a tratar a crise também sob uma ótica de campanha.
Essa hostilidade, na avaliação de Martins, está amarrada ao momento político dos dois países. Depois que os processos eleitorais terminarem — tanto nos EUA quanto no Brasil — ambos os lados terão incentivos para reconstruir uma relação mais pragmática. A dinâmica de confronto tende a perder força. O que permanece incerto é se, quando esse momento chegar, os danos já terão sido demasiado profundos para uma simples volta ao padrão histórico de relacionamento bilateral.
Citations marquantes
Este é o momento mais delicado em mais de 200 anos de relações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos— Lucas de Souza Martins, pesquisador da Temple University
O Brasil é percebido pela Casa Branca como a joia da coroa— Lucas de Souza Martins