Crimes do século 21 desafiam Estado que não resolveu segurança do século 20

Maiara Oliveira foi baleada na barriga durante operação policial em 2020, perdeu seu bebê, ficou 40 dias em coma e aguarda investigação seis anos depois; Gabriel, filho de Rosaly Machado Ferreira, foi morto aos três anos pelo pai apesar de relatos de maus-tratos.
A polícia que mata é a mesma polícia que investiga
Advogada aponta o conflito de interesses que perpetua violações de direitos no sistema de segurança.
Mark

Por que especialistas insistem que o problema é a falta de integração entre polícias? Não seria mais simples criar uma polícia única?

Mimi

Porque o Brasil é uma federação. Estados têm autonomia constitucional. Uma polícia única exigiria mudança constitucional e seria politicamente impossível. O que é possível é fazer polícias diferentes falarem entre si — compartilhar informações, coordenar operações, investigar juntas. Mas isso exige confiança e recursos que não existem.

Luke

Mas o SUSP foi criado em 2018 justamente para isso. Por que não funcionou?

Mark

Então o crime organizado simplesmente mudou de endereço — saiu das ruas e foi para o banco?

Mimi

Não saiu completamente. Continua nas ruas. Mas agora também está em mercados legais — construção, comércio, transporte — e no sistema financeiro. É como se tivesse aberto filiais.

Luke

O artigo não diz como o Estado sabe disso. Essas infiltrações em mercados legais — como foram descobertas? Quantas? Isso é investigado ou é mais uma coisa que ninguém consegue rastrear?

Mark

O caso de Maiara é investigação ou é negligência?

Mimi

É ambos. Não houve perícia no início. Ela precisou de uma organização não-governamental e universidades internacionais para fazer o trabalho que a polícia deveria ter feito. Isso não é negligência acidental — é estrutural.

Luke

Mas qual é o status da investigação agora? O Ministério Público recebeu o estudo forense. Isso significa que há movimento ou que o caso continua parado?

Mark

Rosaly perdeu o filho. Como isso é possível em um país com Conselho Tutelar e juízes?

Mimi

Porque o sistema não conversa. Ela denunciou maus-tratos ao juiz e ao Conselho Tutelar. Ninguém conectou os pontos. A guarda compartilhada continuou. O menino morreu.

Luke

O artigo não diz se houve investigação sobre a morte de Gabriel ou se o pai foi processado. Sabe-se o que aconteceu com ele?

Mark

Esses números de armas — 240% de aumento em sete anos — isso é porque mais gente está comprando legalmente ou porque o mercado ilegal cresceu?

Mimi

O artigo não distingue. Sabe-se que registros ativos cresceram, mas não se sabe quanto disso é compra legal versus armas que desaparecem do registro.

Luke

Exato. E as 108 mil armas apreendidas em 2025 — é muito ou pouco? Comparado a quê? O artigo diz que não permite estimar o tamanho do mercado ilegal, o que significa que ninguém sabe realmente o tamanho do problema.

Mark

O que o próximo presidente deveria fazer no primeiro dia?

Mimi

Segundo os especialistas, criar um sistema integrado de verdade — não no papel, mas na prática. Modernizar as polícias civis para investigação digital. Começar a tratar reincidência como um problema de saúde pública, não apenas de punição.

Luke

Mas nenhum desses especialistas diz que é possível fazer isso rapidamente ou sem conflito político. Integração de polícias significa perder poder. Estados não vão abrir mão disso facilmente.

  • Crime organizado migrou para mercados legais, sistema financeiro e ambiente digital
  • Maiara Oliveira foi baleada na barriga durante operação policial em 2020, perdeu seu bebê, ficou 40 dias em coma
  • Distrito Federal elucida 96% dos homicídios; Bahia elucida apenas 13%
  • Registros de armas cresceram 240% desde 2018, chegando a 2,17 milhões em 2025
  • Gabriel, filho de Rosaly Machado Ferreira, foi morto aos três anos pelo pai apesar de denúncias de maus-tratos

Crime organizado migrou de territórios e presídios para mercados legais, sistema financeiro e ambiente digital, exigindo novas estratégias que o país ainda não desenvolveu. Persistem gargalos do século 20: baixa capacidade investigativa, polícias pouco integradas, superlotação prisional e territórios onde o Estado não exerce plenamente sua autoridade.

O Brasil chega às eleições de 2026 com segurança pública em crise: crime organizado evoluiu para mercados legais e digitais, mas o Estado ainda não resolveu problemas básicos como investigação deficiente, polícias desintegradas e sistema prisional superlotado.

O próximo presidente do Brasil assumirá um cargo cercado por uma crise de segurança pública que não tem precedente em sua complexidade. Os eleitores a apontam como uma das maiores preocupações, e com razão: o crime evoluiu enquanto o Estado permanece preso a estruturas do século passado.

O crime organizado não opera mais apenas nas ruas e nas prisões. Facções agora infiltram mercados legais, movem dinheiro através do sistema financeiro, exploram fraudes digitais e constroem redes que atravessam estados e países. Ao mesmo tempo, o Brasil ainda não resolveu seus problemas básicos de segurança: investigações lentas e mal equipadas, polícias que não conversam entre si, presídios tão cheios que explodem de dentro para fora, e bairros inteiros onde o Estado simplesmente não governa. É uma encruzilhada. As ferramentas que funcionavam — ou que se acreditava funcionar — contra o crime de rua não tocam nesses novos desafios.

Eliana Sousa Silva, que dirige a Redes da Maré no Rio de Janeiro, resume o problema em termos constitucionais: segurança pública é um direito humano listado na Constituição ao lado de educação e saúde, mas ninguém a construiu como um sistema de verdade. Renato Sérgio de Lima, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, identifica o gargalo: o Brasil enfrenta o mesmo problema que federações grandes como Estados Unidos e México — como integrar e coordenar diferentes níveis de governo. O Sistema Único de Segurança Pública foi criado em 2018 e não transformou nada. Melina Risso, do Instituto Igarapé, é mais direta: polícia militar patrulha, polícia civil investiga, algumas colaboram, outras não. O país continua preso numa lógica de disputa por protagonismo quando o que precisaria era cooperação.

A modernização da investigação criminal é urgente. Carolina Ricardo, do Instituto Sou da Paz, aponta que as polícias civis ainda não estão equipadas para lidar com crimes em ascensão — fraudes digitais, lavagem de dinheiro, roubo de dados. Liana Reichstul, uma psicanalista de 77 anos em São Paulo, viveu isso na pele. Pegou um táxi, o motorista disse que não tinha troco e pediu que ela passasse o cartão numa maquininha. Devolveu um cartão que não era o dela. Oito horas depois, dez mil reais tinham desaparecido de sua conta. O banco a ressarciu, mas a investigação? Dois meses antes, ela havia tido o celular arrancado de sua mão por alguém numa bicicleta. Esses crimes deixam rastros digitais, mas as polícias civis ainda não sabem como segui-los.

Os homicídios ilustram outra falha: a elucidação melhorou, mas os números variam absurdamente entre estados. O Distrito Federal resolve 96% dos casos. A Bahia resolve 13%. Essa insuficiência investigativa deixa sem resposta até crimes cometidos pelo próprio Estado. Maiara Oliveira, 25 anos, carioca, estava grávida em outubro de 2020 quando uma operação da Polícia Civil no Complexo da Maré a baleou na barriga. A bala atravessou seu corpo e ela perdeu o bebê. Ficou 40 dias em coma. Quase seis anos depois, ainda espera uma resposta. Não houve perícia. Ela precisou da ajuda de um projeto chamado Maré por Justiça, uma parceria da Redes da Maré com universidades internacionais, para fazer um estudo forense sobre a trajetória da bala. Entregou ao Ministério Público. "Não imaginei que fosse precisar dessa luta toda para chegar ao promotor, para ter voz", diz. Marcela Cardoso, advogada que coordena o projeto, vê o problema estrutural: a polícia que mata é a mesma polícia que investiga. Sem garantias mínimas, as violações se perpetuam.

O arsenal em circulação cresceu dramaticamente. O Sistema Nacional de Armas registrou 2,17 milhões de armas ativas em 2025, um aumento de 240% desde 2018. As polícias apreenderam 108.786 armas em 2025, 5,4% mais que no ano anterior. Mas esses números não dizem nada sobre o tamanho do mercado ilegal — apenas que ele existe e que as apreensões não o controlam.

O sistema prisional carrega uma dívida antiga. Superlotação e domínio de unidades por facções convivem com a incapacidade institucional de reduzir a reincidência. Alberto Kopittke, do Instituto Cidade Segura, vai além da falta de vagas: o Brasil não faz tratamento penal para reduzir reincidência. Para presos de alto risco, ligados a facções, ele defende programas de reabilitação específicos, similares aos de dependentes químicos. A União deveria induzir isso, mas não existe política pública para policiamento adequado, combate ao crime organizado, tratamento de jovens em risco, ou apoio psicológico para mulheres vítimas.

A violência contra a mulher adiciona outra camada. Rosaly Machado Ferreira, 43 anos, recepcionista de uma unidade de saúde em Garanhuns, Pernambuco, sofreu violência doméstica por anos. "Ele bebia e me agredia. Quase me matou quando eu estava grávida", conta. Conseguiu uma medida protetiva, mas o filho deles, Gabriel, permaneceu sob guarda compartilhada apesar de seus relatos de maus-tratos. Um dia Gabriel não voltou: o pai o havia agredido até matá-lo aos três anos. "Hoje eu sou só uma carcaça. Não sobrou nada", desabafa. Quando vê mulheres chegarem ao serviço de saúde com sinais de violência, ela se vê em todas elas — mulheres que chegam e não encontram um olhar humano ou um encaminhamento adequado. O próximo presidente herdará uma segurança pública que não sabe como proteger nem investigar, um crime que evoluiu enquanto o Estado dormia.

Segurança pública é um direito humano que está negligenciado. Na Constituição é um direito como educação e saúde, mas ele não está constituído como um sistema.
— Eliana Sousa Silva, diretora da Redes da Maré
A polícia que mata é a mesma polícia que investiga. Se a gente não estabelece garantias mínimas, as violações se perpetuam.
— Marcela Cardoso, coordenadora do projeto Maré por Justiça
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