Covid-19 aumenta risco de ansiedade, depressão e insónia

Milhões de pessoas diagnosticadas com covid-19 enfrentam risco aumentado de problemas de saúde mental debilitantes, afectando qualidade de vida e bem-estar psicológico.
Risco quase o dobro comparado com outras doenças
Doentes covid-19 apresentavam 18,1% de probabilidade de diagnóstico psiquiátrico nos 14-90 dias seguintes.
Mark

Porque é que este estudo é importante agora, em Novembro de 2020? Já não sabíamos que a covid afectava a saúde mental?

Mimi

Havia estudos menores que sugeriam isso, mas este é o primeiro a grande escala — 62 mil doentes covid analisados contra milhões de registos de comparação. Dá-nos números concretos, não apenas intuições.

Luke

Mas atenção: estes são dados norte-americanos. Os investigadores admitem que as experiências noutros países podem ser diferentes. E há factores que não constam nas bases de dados — comportamentos, medicação, hábitos de vida.

Mark

E a relação inversa — doença mental aumenta risco de covid — isso é novo?

Mimi

Completamente inesperado, segundo os autores. Pessoas com diagnósticos psiquiátricos tinham 65% mais hipóteses de serem infectadas. Mantinha-se mesmo controlando factores económicos.

Luke

Mas porquê? O estudo não explica o mecanismo. Pode ser comportamental, pode ser biológico, pode ser que recebam menos cuidados preventivos. Não sabemos.

Mark

Então o que fazemos com esta informação?

Mimi

Os investigadores sugerem que doença mental seja listada como factor de risco para covid-19. Significa que estas pessoas precisam de protecção adicional, de acompanhamento mais próximo.

Luke

Justo. Mas precisamos de mais investigação antes de tirar conclusões definitivas sobre causalidade. O que temos aqui é uma associação forte e bem documentada.

  • Quase um em cada cinco doentes com covid-19 recebeu um diagnóstico psiquiátrico nos três meses seguintes à infecção — uma proporção que alarma investigadores e clínicos.
  • A ansiedade lidera os diagnósticos, seguida de insónia e depressão, afectando mesmo quem nunca precisou de cuidados hospitalares intensivos.
  • A descoberta mais inesperada inverte o olhar: ter uma doença mental prévia aumenta em 65% o risco de contrair SARS-CoV-2, um padrão que se mantém em todas as idades, géneros e etnias.
  • Os investigadores alertam para a complexidade dos mecanismos — comportamentos, medicação, estados pró-inflamatórios — e pedem que a doença mental seja formalmente reconhecida como factor de risco para a covid-19.
  • O estudo abre uma frente urgente: proteger contra o vírus exige agora olhar para a saúde mental como variável crítica, e não como consequência secundária.

Uma investigação de Oxford, publicada na Lancet Psychiatry, revela que a pandemia deixa marcas que vão além do pulmão: quem contrai covid-19 carrega um risco quase duplo de desenvolver ansiedade, depressão ou insónia nos meses seguintes, mesmo sem ter sido hospitalizado. Mais perturbador ainda, a relação é bidirecional — a doença mental prévia aumenta em 65% a probabilidade de infecção, sugerindo que corpo e mente partilham vulnerabilidades que a medicina ainda não soube nomear por inteiro. Este estudo, assente em mais de 62 mil doentes norte-americanos, convida-nos a repensar o que significa recuperar de uma doença e a quem chamamos de grupo de risco.

Um estudo publicado na Lancet Psychiatry por investigadores da Universidade de Oxford analisou os registos clínicos anónimos de mais de 62 mil norte-americanos diagnosticados com covid-19 entre janeiro e agosto de 2020. A conclusão central é inquietante: nos 14 a 90 dias após o diagnóstico, 18,1% dos doentes receberam um diagnóstico psiquiátrico — quase o dobro do observado em pessoas que tiveram outras doenças comparáveis, como gripe ou fracturas ósseas. Cerca de 5,8% desses diagnósticos eram inteiramente novos na vida dos pacientes.

A ansiedade revelou-se o transtorno mais frequente, com uma probabilidade 4,7% superior à esperada, seguida de insónia e depressão. O investigador Paul Harrison sublinhou que este risco se mantinha mesmo entre quem nunca foi internado, sugerindo que a própria infecção — independentemente da sua gravidade — tem consequências psicológicas mensuráveis.

Mas o estudo reservava uma surpresa ainda maior: a relação entre covid-19 e saúde mental é bidirecional. Pessoas com diagnósticos psiquiátricos anteriores apresentavam quase 65% mais probabilidades de contrair o vírus, um achado que os próprios autores não tinham antecipado. Este padrão manteve-se consistente em todas as idades, géneros e etnias, mesmo após controlo de factores socioeconómicos.

Os investigadores pedem prudência: comportamentos associados a certas doenças mentais, como dificuldade em manter distanciamento social, hábitos como o tabagismo, ou até estados pró-inflamatórios provocados por algumas patologias psiquiátricas, podem ajudar a explicar a vulnerabilidade acrescida. Ainda assim, Max Taquet foi claro: a descoberta é suficientemente robusta para justificar acção imediata, e a doença mental deve passar a ser listada como factor de risco oficial para a covid-19.

Um estudo de grande escala publicado na revista científica Lancet Psychiatry revelou uma ligação perturbadora entre a infecção por covid-19 e o desenvolvimento subsequente de problemas de saúde mental. Investigadores da Universidade de Oxford analisaram dados electrónicos anónimos de mais de 69 milhões de norte-americanos, focando-se especificamente nos 62.354 que receberam diagnóstico de covid-19 entre 20 de janeiro e 1 de agosto. O que encontraram foi claro: pessoas que contraíram o vírus apresentavam uma probabilidade significativamente maior de serem diagnosticadas com transtornos de ansiedade, depressão ou insónia nos meses seguintes.

Os números são reveladores. Nos 14 a 90 dias após o diagnóstico de covid-19, 18,1% dos doentes receberam um diagnóstico psiquiátrico, sendo que 5,8% destes eram primeiros diagnósticos. Quando comparados com doentes que tiveram outras condições — gripe, infecções cutâneas, fracturas ósseas — o risco para os pacientes covid-19 era quase o dobro. Paul Harrison, um dos autores do estudo, sublinhou à BBC que este risco elevado mantinha-se mesmo entre aqueles que nunca foram internados por complicações respiratórias, sugerindo que a infecção por si só, independentemente da gravidade, está associada a consequências psicológicas.

Entre os diagnósticos psiquiátricos, a ansiedade emergiu como o mais prevalente, com uma probabilidade 4,7% superior à esperada. Dentro desta categoria, o transtorno de adaptação, a ansiedade generalizada e, em menor escala, o transtorno de stress pós-traumático e o transtorno de pânico foram os mais frequentemente diagnosticados. A insónia também apresentou níveis marcadamente elevados, alinhado com as expectativas teóricas sobre distúrbios do ritmo circadiano que podem seguir-se à infecção viral.

Mas a investigação revelou uma relação bidirecional surpreendente. Não apenas a covid-19 aumenta o risco de doença mental — ter uma doença mental prévia aumenta significativamente o risco de contrair o vírus. As pessoas com diagnósticos psiquiátricos anteriores apresentavam quase 65% mais probabilidades de serem infectadas com SARS-CoV-2, um achado que os próprios investigadores não tinham antecipado. Este padrão mantinha-se consistente em todas as idades, géneros e etnias, e persistia mesmo quando factores socioeconómicos e de habitação eram controlados estatisticamente.

Os autores do estudo, porém, pedem prudência na interpretação destes dados. Max Taquet, um dos investigadores, alertou que múltiplos factores podem estar em jogo e não aparecem nas bases de dados utilizadas. Comportamentos como dificuldade em manter distanciamento social ou usar máscara, hábitos de vida como o tabagismo, e até a medicação psicotrópica podem contribuir para o risco aumentado. Além disso, é possível que doentes com covid-19 tenham recebido mais acompanhamento médico subsequente, aumentando as oportunidades de diagnóstico de outras condições como demência.

Outro factor a considerar é que algumas doenças psiquiátricas criam um "estado pró-inflamatório" no organismo que pode facilitar a infecção viral. Apesar destas ressalvas, Taquet defendeu que a descoberta é suficientemente robusta para justificar acção: "Esta descoberta foi inesperada e precisa de maior investigação. Enquanto isso não acontece, ter uma doença mental deve ser listado como um factor de risco para a covid-19." O estudo, portanto, não apenas documenta uma correlação preocupante, mas também aponta para a necessidade urgente de compreender melhor os mecanismos biológicos e comportamentais que ligam a infecção viral aos problemas de saúde mental, e de considerar a saúde mental como uma variável crítica na estratégia de protecção contra a covid-19.

Pessoas que já tiveram covid-19 têm um risco maior de desenvolver problemas de saúde mental, e esse risco mantém-se mesmo que não tenha sido internado por complicações respiratórias
— Paul Harrison, autor do estudo, à BBC
Esta descoberta foi inesperada e precisa de maior investigação. Enquanto isso não acontece, ter uma doença mental deve ser listado como um factor de risco para a covid-19
— Max Taquet, autor do estudo, ao The Guardian
Quer a matéria completa? Leia o original em PÚBLICO ↗
Fale Conosco FAQ