Na Hannover Messe de 2022, Portugal e Alemanha encontraram-se num momento de dupla urgência — climática e geopolítica — para discutir como o hidrogénio verde produzido em Sines pode substituir a dependência alemã dos combustíveis fósseis russos. António Costa e Olaf Scholz não trocaram apenas promessas diplomáticas: esboçaram uma reconfiguração das cadeias energéticas europeias, com Portugal a assumir o papel de fornecedor estratégico numa Europa que procura reinventar-se.
Costa e Scholz discutem exportação de hidrogénio verde de Sines para Alemanha
Portugal será um grande exportador de hidrogénio a curto prazo
Porque é que a Alemanha está tão interessada em hidrogénio verde português especificamente? Não podia produzir o seu próprio?
A Alemanha tem espaço limitado e precisa de descarbonizar rapidamente. Portugal tem sol abundante, costa para energia eólica, e Sines é um porto já desenvolvido. É uma questão de geografia e urgência — a Rússia cortou o gás, e a Alemanha precisa de alternativas já.
Mas o texto não diz quanto hidrogénio Portugal pode realmente produzir, nem quando. Costa diz "a curto prazo", mas isso é vago. Quantos megawatts? Quando fica operacional?
Tens razão. O que vemos aqui é o anúncio da intenção, não o plano detalhado. É uma conversa de líderes numa feira, não um contrato assinado.
E quanto aos moldes? Por que é que Costa está a tentar convencer a Alemanha a mudar de fornecedores asiáticos?
Porque encurta as cadeias de abastecimento. Em vez de esperar semanas por peças da Ásia, as fábricas alemãs podem receber de Portugal em dias. É mais resiliente, mais sustentável, mais rápido.
Mas 35% das importações alemãs de moldes vêm da Ásia. Mudar isso é uma operação massiva. O texto não diz se há qualquer compromisso real ou se é apenas um apelo.
É um apelo. Costa está a apresentar a oportunidade. Se funciona, depende de preço, qualidade e capacidade portuguesa — coisas que não estão quantificadas aqui.
Então o que é que realmente saímos desta conversa?
Que Portugal e Alemanha reconhecem uma oportunidade mútua: Portugal pode fornecer energia limpa e bens industriais; a Alemanha precisa deles urgentemente. O resto é execução.
E a execução é tudo. Este é um momento de intenção. Voltaremos a isto em dois anos para ver se algo mudou realmente.
Il Polso
- A guerra na Ucrânia criou uma urgência existencial para a Alemanha, que precisa de cortar rapidamente a dependência do gás russo e encontrou em Portugal um parceiro energético credível.
- Sines emerge como epicentro da ambição portuguesa: um porto industrial que pode tornar-se a porta de saída do hidrogénio verde para o coração industrial da Europa.
- Costa desafiou diretamente os empresários alemães a trocarem fornecedores asiáticos de moldes por empresas portuguesas, propondo um encurtamento concreto das cadeias de valor globais.
- Scholz reconheceu publicamente o contributo valioso de Portugal e comprometeu-se com uma Alemanha neutra em carbono, investindo em terminais de GNL e acelerando renováveis.
- O encontro em Hannover sinalizou que a transição energética europeia está a redesenhar alianças comerciais com a mesma força com que a crise geopolítica está a redesenhar fronteiras.
Na Hannover Messe de 2022, Portugal e Alemanha encontraram-se num momento de dupla urgência — climática e geopolítica — para discutir como o hidrogénio verde produzido em Sines pode substituir a dependência alemã dos combustíveis fósseis russos. António Costa e Olaf Scholz não trocaram apenas promessas diplomáticas: esboçaram uma reconfiguração das cadeias energéticas europeias, com Portugal a assumir o papel de fornecedor estratégico numa Europa que procura reinventar-se.
Na maior feira industrial do mundo, em Hannover, no final de maio de 2022, António Costa e Olaf Scholz encontraram-se com um tema central na agenda: o hidrogénio verde e o papel de Portugal na descarbonização da indústria alemã. Portugal chegava como país convidado de honra, com 109 empresas em destaque, e Costa não hesitou em afirmar que "a curto prazo, Portugal será um grande exportador de hidrogénio", com Sines como centro desta ambição. Scholz reconheceu que Portugal podia oferecer um contributo valioso — uma aposta que a Alemanha perseguia com urgência, pressionada a resolver a sua dependência dos combustíveis fósseis russos.
O contexto era de transformação acelerada. A Hannover Messe reabria após dois anos de pandemia e funcionava, nas palavras do presidente da Câmara local, como uma "feira em tempo de guerra". Scholz sublinhou que a indústria podia ser "uma atividade económica amiga do clima" e que a Alemanha estava a investir em terminais de gás natural liquefeito, a acelerar projetos solares e eólicos e a reduzir prazos de construção para metade.
Costa aproveitou a ocasião para apresentar o tecido empresarial português como alternativa real aos parceiros asiáticos. Desafiou especificamente os industriais alemães do setor dos moldes — onde a Ásia representava 35% das importações — a virarem-se para as mais de 750 empresas portuguesas do setor presentes na feira. Enquadrou tudo numa visão mais ampla: "Portugal está presente na dupla transição energética e digital e é o país mais bem preparado para cumprir as metas da União Europeia."
Scholz encerrou com uma declaração de intenção conjunta: "Juntos, vamos conseguir descarbonizar a indústria." O que estava em jogo era mais do que um acordo comercial — era a reconfiguração das cadeias de abastecimento energético europeu, com duas economias industriais a reinventarem-se num momento de crise geopolítica e urgência climática.
Na maior feira industrial do mundo, realizada em Hannover no final de maio de 2022, dois líderes europeus conversaram sobre um futuro energético que Portugal estava prestes a ajudar a construir. O chanceler alemão Olaf Scholz e o primeiro-ministro português António Costa encontraram-se durante a cerimónia de abertura do evento, com um tema central na agenda: a produção acelerada de hidrogénio verde e o papel que Portugal poderia desempenhar na descarbonização da indústria alemã.
Portugal chegava à feira com 109 empresas em destaque, na qualidade de país convidado de honra. Costa não hesitou em apresentar o posicionamento português. "A curto prazo, Portugal será um grande exportador de hidrogénio", afirmou, destacando que o país estava a desenvolver novas soluções em Sines, a região escolhida como centro desta ambição energética. Scholz respondeu reconhecendo que Portugal podia oferecer um "contributo valioso" no domínio do hidrogénio e das energias renováveis — uma aposta que a Alemanha perseguia com urgência, forçada a resolver rapidamente a sua dependência dos combustíveis fósseis russos.
O contexto era de transformação acelerada. A Hannover Messe reabria após dois anos de interrupção causada pela pandemia de Covid-19, e desta vez funcionava como palco de uma "feira em tempo de guerra", nas palavras do presidente da Câmara de Hannover. A abertura da feira em 1947, logo após a Segunda Guerra Mundial, tinha tido como objetivo industrializar uma economia destruída. Agora, explicou Scholz, o desafio era descarbonizar essa mesma economia industrial. O chanceler sublinhou que a indústria podia ser "uma atividade económica amiga do clima", e que a Alemanha estava a investir em terminais de gás natural liquefeito, a acelerar projectos de energia solar e eólica, e a reduzir os prazos de construção para metade.
Costa aproveitou a oportunidade para "vender" o potencial do tecido empresarial português. Referiu que Portugal exportava 30% em metalomecânica, um sector onde a indústria e a inovação caminham lado a lado. Desafiou especificamente os empresários alemães da indústria dos moldes a substituírem os seus parceiros asiáticos — que representavam 35% das importações — por empresas portuguesas, encurtando assim as cadeias de valor. Mais de 750 empresas de moldes estavam presentes na feira, oferecendo uma oportunidade concreta de reconfiguração de parcerias comerciais.
O primeiro-ministro português enquadrou a proposta numa visão mais ampla. "Portugal está presente na dupla transição energética e digital e é o país mais bem preparado para cumprir as metas da União Europeia", argumentou, sublinhando o compromisso com cadeias de valor mais curtas e sustentáveis. A presença de mais de 600 empresas alemãs em Portugal — não apenas grandes corporações, mas também pequenas e médias empresas — era prova de que a confiança bilateral já existia.
Scholz encerrou o encontro com uma declaração de intenção conjunta. "A nossa independência energética é um imperativo nacional", disse, dirigindo-se a Costa. "Juntos, vamos conseguir descarbonizar a indústria." A Alemanha, acrescentou, podia tornar-se "o primeiro país industrializado neutro em carbono". O que estava em jogo era mais do que um acordo comercial: era a reconfiguração das cadeias de abastecimento energético europeu e a capacidade de duas economias industriais se reinventarem num contexto de crise geopolítica e urgência climática.
Citazioni salienti
A indústria pode ser uma atividade económica amiga do clima— Olaf Scholz, chanceler alemão
Portugal está presente na dupla transição energética e digital e é o país mais bem preparado para cumprir as metas da União Europeia— António Costa, primeiro-ministro português