Na Copa do Mundo disputada em solo americano, as grandes emissoras dos Estados Unidos não esperaram que um disruptor externo as forçasse a mudar — elas mesmas incorporaram a linguagem da internet em suas transmissões tradicionais. Fox e Telemundo transformaram comentaristas em personalidades virais e jogos em ecossistemas multiplataforma, revelando que a batalha pela atenção do torcedor moderno já não se trava apenas na tela da televisão, mas no bolso de cada espectador.
Copa nos EUA: Fox adota linguagem digital sem rival como CazéTV no Brasil
O consumo de esporte está deixando de ser amplo para se tornar mais profundo
Por que a Fox decidiu adotar essa linguagem digital se já tinha os direitos exclusivos garantidos?
Porque exclusividade de direitos não garante audiência. Se o torcedor está no celular enquanto o jogo passa na TV, você perdeu metade da atenção dele. A Fox precisava competir não contra outra emissora, mas contra o próprio telefone do espectador.
Então a CazéTV no Brasil criou uma ameaça real que forçou a Globo a mudar?
Exatamente. No Brasil houve uma ruptura — uma emissora nova chegou com linguagem diferente e conquistou audiência. Nos EUA não havia ruptura, mas havia fragmentação. A Fox viu que precisava estar em cinco telas ao mesmo tempo ou perderia relevância.
E as personalidades como Henry e Ibrahimovic? Eles são realmente necessários para transmitir futebol?
Não são necessários para transmitir futebol. São necessários para manter alguém assistindo enquanto aquela pessoa está também no TikTok, no WhatsApp, em três outras coisas. A personalidade gera reações emocionais que fazem o conteúdo viajar.
A Fifa viu isso como ameaça ou como oportunidade?
Como oportunidade. Ao invés de tratar televisão e criadores de conteúdo como universos concorrentes, a Fifa os viu como complementares. Organizou programas oficiais para influenciadores justamente para ampliar a base de público jovem.
Isso significa que o futuro do esporte na televisão é virar mais profundo e menos amplo?
Sim. Você não vai mais ligar a TV e zappear entre vários jogos. Vai entrar no ecossistema da Fox ou da Telemundo e ficar lá — jogo, documentário, podcast, análise, tudo no mesmo lugar. É mais profundo porque você fica mais tempo, mas é menos amplo porque você fica preso.
The Pulse
- A viralização de um duelo de embaixadinhas entre Thierry Henry e Zlatan Ibrahimovic dentro do estúdio da Fox sintetizou a nova lógica das transmissões: o conteúdo é produzido para ser cortado, compartilhado e consumido fora da televisão.
- Diferentemente do Brasil, onde a CazéTV abalou a hegemonia da Globo com linguagem digital, nos EUA não houve ruptura competitiva — a Fox detém direitos exclusivos em inglês desde 2018 e já negocia renovação para 2030.
- A disputa real migrou para a 'segunda tela': emissoras precisam manter o torcedor engajado no celular simultaneamente ao jogo, cercando a transmissão com lives, TikToks, câmeras dedicadas e programas paralelos.
- Especialistas descrevem o novo modelo como um 'ecossistema da atenção', no qual a personalidade dos comentaristas vale tanto quanto a análise técnica — e pouquíssimas pessoas assistem ao jogo apenas pela televisão.
- A Fifa reforçou a tendência ao criar programas e eventos oficiais para influenciadores, usando YouTube e TikTok como parceiros estratégicos para alcançar o público mais jovem.
Na Copa do Mundo disputada em solo americano, as grandes emissoras dos Estados Unidos não esperaram que um disruptor externo as forçasse a mudar — elas mesmas incorporaram a linguagem da internet em suas transmissões tradicionais. Fox e Telemundo transformaram comentaristas em personalidades virais e jogos em ecossistemas multiplataforma, revelando que a batalha pela atenção do torcedor moderno já não se trava apenas na tela da televisão, mas no bolso de cada espectador.
Thierry Henry e Zlatan Ibrahimovic, de terno e sapatos sociais, protagonizaram um duelo de embaixadinhas no estúdio da Fox durante a Copa do Mundo nos Estados Unidos. O vídeo viralizou, e Ibrahimovic registrou nas redes: "O estúdio nunca esquecerá". O momento não foi acidente — era exatamente o tipo de conteúdo que a emissora planejava produzir: pensado para render cortes na internet e distribuído simultaneamente pela TV, YouTube, TikTok e outras plataformas.
Para quem acompanhou a Copa no Brasil, o formato soava familiar: humor, personalidades que sobrepujam a análise técnica, conversas construídas para viralizar. A impressão era de uma versão americana da CazéTV. Mas a realidade era mais nuançada. Enquanto no Brasil a emissora de Casimiro Miguel abalou a hegemonia da Globo apostando em linguagem digital, nos EUA a transformação ocorreu por dentro das estruturas tradicionais — sem concorrente ameaçando os direitos. Fox e Telemundo simplesmente incorporaram a cultura digital sem precisar ser pressionadas.
Zac Kenworthy, vice-presidente da Fox Sports responsável pela cobertura, explicou que a emissora buscou equilibrar futebol com gastronomia, moda e as cidades-sede para conectar um público que muitas vezes só acompanha o esporte no Mundial. Ibrahimovic manteve sua postura de jogador até nos estúdios: ao ser perguntado sobre quem seria o "rei da selva" entre Mbappé e Yamal, respondeu simplesmente "Eu sou o rei da selva", arrancando risos da bancada.
A Fox organizou uma grade paralela nas redes sociais com transmissões simultâneas, câmeras dedicadas a jogadores, lives e vídeos estrelados por Henry, Ibrahimovic e pela apresentadora britânica Rebecca Lowe. Tudo isso sem qualquer ameaça de divisão dos direitos — a emissora mantém o acordo desde 2018 e já conversa para renovar até 2030.
Kevin Hull, especialista em mídia esportiva da Universidade da Carolina do Sul, resume: sem concorrência real, a disputa migrou para a "segunda tela". Maxwell Foxman, da Universidade de Oregon, chama o modelo de "ecossistema da atenção" — não basta transmitir o jogo, é preciso continuar relevante enquanto o torcedor está no celular. Ethan Tussey, da Georgia State University, observa que o consumo do esporte está deixando de ser amplo para se tornar mais profundo: "Pouquíssimas pessoas assistem hoje ao jogo apenas pela televisão."
Thierry Henry e Zlatan Ibrahimovic, ambos em terno e sapatos sociais, protagonizaram um duelo de habilidades no estúdio da Fox durante a cobertura da Copa do Mundo nos Estados Unidos. O vídeo viralizou nas redes sociais, com Ibrahimovic escrevendo depois: "O estúdio nunca esquecerá". Aquele momento capturava exatamente o que a emissora norte-americana buscava com sua estratégia de transmissão — conteúdo pensado para render cortes na internet, distribuído simultaneamente pela televisão, YouTube, TikTok e outras plataformas.
Para quem acompanhou a Copa do Mundo no Brasil, o formato parecia familiar. Havia humor, personalidades que sobrepujavam a análise técnica, conversas estrategicamente construídas para viralizar mais do que para informar sobre futebol. A impressão era de que a televisão americana tinha sua própria versão da CazéTV. Mas a realidade era mais nuançada. Enquanto no Brasil a CazéTV, fundada por Casimiro Miguel e atualmente controlada pela Livemode, abalou a hegemonia da TV Globo nas transmissões esportivas apostando em linguagem descontraída e conectada ao mundo digital, nos Estados Unidos a transformação ocorreu de forma completamente diferente. Sem um concorrente equivalente ameaçando seus direitos, a Fox e a Telemundo — responsáveis respectivamente pela exibição das partidas em inglês e espanhol — incorporaram elementos típicos da cultura digital dentro de suas próprias estruturas tradicionais.
Zac Kenworthy, vice-presidente da Fox Sports responsável pela cobertura, explicou que a emissora buscou equilibrar histórias do futebol com aspectos culturais como gastronomia, moda e as cidades-sede para ampliar a conexão com um público que muitas vezes acompanha futebol apenas no Mundial. A escolha dos comentaristas refletia essa lógica: precisavam se conectar instantaneamente com os fãs, oferecendo entretenimento tanto quanto análise. Ibrahimovic manteve sua postura de jogador, respondendo a uma pergunta sobre quem seria o "rei da selva" entre Mbappé e Yamal com um simples "Eu sou o rei da selva", arrancando risos da bancada no programa de pré-jogo da semifinal entre França e Espanha.
A estratégia se manifestava também na organização da programação nas redes sociais. Em vez de divulgar apenas os jogos, a Fox apresentava uma grade composta por transmissões paralelas, programas de estúdio, câmeras dedicadas a jogadores específicos, lives para TikTok e YouTube e vídeos estrelados por Henry, Ibrahimovic e Rebecca Lowe, apresentadora britânica que oferecia um tom mais jornalístico aos programas. Essa multiplicação de conteúdos e plataformas ocorreu mesmo sem qualquer ameaça de divisão dos direitos de transmissão. A Fox assumiu as transmissões em inglês a partir de 2018, quando o Mundial foi realizado na Rússia, e já mantém conversas alinhadas para renovar o acordo para 2030. O mesmo ocorria com a Telemundo para transmissões em espanhol.
Kevin Hull, chefe da especialização em mídia esportiva da Universidade da Carolina do Sul, explicou que com contratos de transmissão exclusiva não há realmente concorrência para os grandes eventos. Se alguém quer assistir à Copa do Mundo nos Estados Unidos na versão em inglês, precisa assistir pela Fox. Sem uma ruptura pela concorrência tradicional, a disputa pela audiência migrou para a chamada "segunda tela" — sobretudo o celular, onde os torcedores interagem com conteúdos antes, durante e depois dos jogos. As emissoras precisam encontrar maneiras de manter o público suficientemente engajado para que continuem acompanhando a transmissão mesmo com todas essas informações adicionais à sua disposição.
Maxwell Foxman, professor associado de estudos de mídia e games da Universidade de Oregon, define o modelo das emissoras americanas como um "ecossistema da atenção", em que não basta transmitir os jogos — é preciso continuar relevante enquanto o torcedor está no celular. Os comentaristas deixaram de ser apenas analistas dos jogos; suas personalidades passaram a ser tão importantes quanto o que estavam debatendo. A Fifa, por sua vez, organizou eventos e programas oficiais para influenciadores e criadores de conteúdo com objetivo de ampliar sua base junto ao público mais jovem, focando na distribuição desses conteúdos no YouTube e TikTok, parceiros oficiais da entidade.
Ethan Tussey, professor de Cinema e Mídia na Georgia State University, observa que a transformação alterou fundamentalmente como o esporte é consumido. Antes, o torcedor podia alternar entre diferentes canais e partidas na televisão. Agora, canais e plataformas digitais procuram manter as torcidas dentro de seus próprios ecossistemas, cercando a transmissão com documentários, podcasts e programas alternativos. Pouquíssimas pessoas assistem hoje ao jogo apenas pela televisão. O desafio das emissoras passou a ser manter a atenção do público enquanto ele acompanha redes sociais, aplicativos de mensagens e outras telas simultaneamente. "O consumo de esporte está deixando de ser amplo para se tornar mais profundo", resume Tussey.
Notable Quotes
O estúdio nunca esquecerá— Zlatan Ibrahimovic, em post nas redes sociais após duelo com Thierry Henry
Pouquíssimas pessoas assistem hoje ao jogo apenas pela televisão— Kevin Hull, chefe de especialização em mídia esportiva da Universidade da Carolina do Sul