Contas públicas pioram em ano eleitoral apesar de promessas de responsabilidade

O rombo duplicou, portanto
O déficit estrutural saltou de 0,7% para 1,4% do PIB em um ano sob o governo Lula.
Mark

Por que o governo insiste em dizer que o problema é dos juros e não dos gastos?

Mimi

Porque reconhecer o déficit primário seria admitir que a política fiscal é expansionista em ano eleitoral — e isso é politicamente custoso. É mais fácil culpar a taxa de juros, que parece externa.

Mark

Mas os números mostram que os gastos crescem mais rápido que as receitas. Como isso não é óbvio?

Mimi

É óbvio, mas o governo usa exclusões contábeis para cumprir a meta formal. Exclui R$ 62,8 bilhões em gastos das contas. Formalmente, atinge a meta. Economicamente, o déficit é real.

Mark

E o déficit estrutural que dobrou — o que isso significa na prática?

Mimi

Significa que não é apenas um ciclo econômico passageiro. O governo está gastando mais do que arrecada de forma estrutural, permanente. Quando o ciclo melhorar, o problema não desaparece.

Mark

Como isso afeta a vida das pessoas?

Mimi

Juros altos afetam tudo — crédito mais caro, investimento menor, inflação mais alta. E a incerteza sobre se o governo vai ajustar as contas no futuro mantém os juros elevados.

Mark

O que deveria acontecer agora?

Mimi

O governo precisaria reconhecer o problema e apresentar um plano credível de ajuste. Sem isso, a incerteza persiste e os juros não caem.

  • O déficit estrutural dobrou em um ano, saltando de 0,7% para 1,4% do PIB, revelando que a deterioração das contas públicas vai muito além do que os números oficiais admitem.
  • Para cumprir a meta formal, o governo precisa excluir R$ 62,8 bilhões em gastos e ainda recorrer ao intervalo de tolerância — um malabarismo contábil que mascara o desequilíbrio real.
  • As despesas crescem 6,3% acima da inflação enquanto o governo entra em modo eleitoral, com maior execução discricionária e novos programas de crédito subsidiado ampliando o estímulo fiscal.
  • A pressão dos gastos alimenta a inflação, que força o Banco Central a manter juros elevados, que por sua vez encarecem a dívida — uma espiral que o próprio governo reluta em reconhecer.
  • A recusa do Executivo em admitir a gravidade dos dados aprofunda a incerteza dos mercados e torna cada vez mais difícil construir um plano de ajuste crível para o período pós-eleitoral.

Em ano eleitoral, o governo Lula enfrenta o peso silencioso de uma expansão fiscal que os números oficiais tentam encobrir, mas que os dados estruturais revelam com clareza: o déficit real dobrou em doze meses, passando de 0,7% para 1,4% do PIB. O Ministério da Fazenda recorre a exclusões contábeis e intervalos de tolerância para preservar a aparência de responsabilidade orçamentária, enquanto despesas crescem acima da inflação e pressionam tanto os preços quanto os juros. Há, nesse impasse, uma tensão antiga entre o tempo da política e o tempo da economia — e o custo do adiamento raramente é dividido de forma justa.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, ocupa uma posição desconfortável: defender a política orçamentária do governo enquanto promete responsabilidade fiscal em caso de reeleição de Lula. O problema é que os números contam uma história diferente da narrativa oficial.

A aparente melhora no saldo primário dos últimos anos é, em grande medida, ilusória. O governo arrecadou mais impostos, mas também excluiu crescentemente gastos das metas fiscais — um artifício contábil que disfarça o desequilíbrio real. Segundo a Instituição Fiscal Independente, ligada ao Senado, as receitas primárias avançaram 5,6% acima da inflação neste ano, enquanto as despesas cresceram 6,3%, ampliando o déficit efetivo para R$ 81,2 bilhões — quase R$ 11 bilhões a mais que no mesmo período de 2025.

Para cumprir a meta formal de superávit fixada pela LDO, o governo precisará de exclusões de R$ 62,8 bilhões em gastos, além de usar o intervalo de tolerância. A IFI projeta déficit efetivo de 0,4% do PIB para o ano. Mas é o saldo primário estrutural — que desconta ciclos econômicos, eventos não recorrentes e flutuações do petróleo — que revela a dimensão real do problema: o déficit estrutural dobrou, passando de 0,7% para 1,4% do PIB em doze meses.

A política fiscal também mudou de sinal. Depois de levemente contracionista em 2025, tornou-se expansionista em 0,6 a 0,9 ponto do PIB neste ano eleitoral, impulsionada por maior execução discricionária e novos programas de crédito subsidiado. A tese do governo de que o aumento da dívida se deve aos juros, e não ao déficit primário, é incompleta: são justamente os gastos crescendo perto de 6% ao ano em termos reais que pressionam a inflação e impedem o afrouxamento monetário.

Ao não reconhecer os desequilíbrios, o governo alimenta a incerteza sobre um ajuste futuro — o que também pesa nos juros. Gastos crescentes pressionam a inflação, a inflação força o Banco Central a manter a taxa elevada, e juros altos encarecem ainda mais a dívida. Sem um diagnóstico honesto e um plano crível de correção, essa dinâmica tende a se aprofundar.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, enfrenta uma tarefa ingrata: defender a política orçamentária do governo enquanto promete responsabilidade fiscal em caso de reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. O problema é que os números não cooperam. A trajetória de endividamento público é alarmante o suficiente para qualquer observador, e o Executivo começa mal o debate ao se recusar a reconhecer a gravidade dos dados.

A aparência de melhora no saldo primário dos últimos anos é ilusória. O resultado oficial melhorou principalmente porque o governo arrecadou mais impostos e porque excluiu crescentemente gastos das metas fiscais — um artifício contábil que mascara o desequilíbrio real. Os dados da Instituição Fiscal Independente, ligada ao Senado, contam uma história diferente. Neste ano, as receitas primárias do governo federal avançaram 5,6% acima da inflação, enquanto as despesas cresceram 6,3%, ampliando o déficit efetivo para R$ 81,2 bilhões — R$ 10,9 bilhões a mais que no mesmo período de 2025.

Para cumprir a meta formal de superávit de 0,25% do PIB fixada pela Lei de Diretrizes Orçamentárias, o governo precisará de exclusões de R$ 62,8 bilhões em gastos, além do uso do intervalo de tolerância. A IFI projeta um déficit efetivo de 0,4% do PIB para o ano, cerca de R$ 52 bilhões. Mas esses números convencionais não revelam se a política fiscal é expansionista ou contracionista. Para isso, a instituição calcula o saldo primário estrutural — o resultado descontado dos efeitos do ciclo econômico, eventos não recorrentes e flutuações do preço do petróleo sobre royalties.

Os números estruturais são ainda mais preocupantes. O déficit estrutural, que havia recuado para 0,7% do PIB nos quatro trimestres encerrados em junho de 2025, saltou para 1,4% do PIB no período correspondente de 2026. O rombo duplicou. Na mesma base de comparação, o resultado convencional passou de superávit de 0,1% para déficit de 1,1% do PIB, com o componente estrutural respondendo pela maior parte da piora.

O impulso fiscal também revela a mudança de rumo. Em relação à demanda total, a política passou de levemente contracionista em 2025 para expansionista em 0,6 a 0,9 ponto do PIB neste ano eleitoral, impulsionada pela maior execução discricionária no período. Novos programas de crédito subsidiado também contribuem para o estímulo. A tese de Durigan de que o recente aumento da dívida se deve aos juros, não ao déficit primário, é incompleta. A dinâmica dos juros é influenciada pelos gastos que avançam a ritmo próximo de 6% ao ano em termos reais, pressionam a inflação e impedem o afrouxamento da política monetária.

Ao não reconhecer os problemas, o governo alimenta a incerteza quanto a um ajuste futuro, o que também pesa nos juros. A política fiscal expansionista em ano eleitoral cria uma dinâmica perversa: gastos crescentes pressionam a inflação, a inflação força o Banco Central a manter juros altos, e juros altos aumentam o custo da dívida. Sem um reconhecimento claro dos desequilíbrios e sem um plano credível de ajuste, a incerteza dos mercados tende a se aprofundar.

A tese de que o recente aumento da dívida se deve aos juros, não ao déficit primário, é incompleta
— Análise da situação fiscal
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