Consumo deve crescer apenas 1% em 2026, contra média de 3,3% entre 2021-2025, impulsionado por endividamento recorde e desaceleração do mercado de trabalho. Endividamento das famílias atinge 49,9% e comprometimento de renda chega a 28,7%, níveis recordes que limitam gastos e forçam redução de impulso fiscal do governo.
Consumo perde força e deve crescer menos desde pandemia, abrindo espaço para investimento
A conta chegou. Não temos superávit, o governo está endividado e as famílias estão endividadas.
Como assim o consumo perde força? Não era o motor da economia?
Era, e ainda é a maior parte do PIB. Mas cresceu demais, muito rápido, alimentado por crédito fácil e estímulos do governo. Agora as famílias estão endividadas demais e a renda não cresce mais.
Mas quanto exatamente? Os números mostram 1% de crescimento projetado para 2026. Isso é uma queda real ou só uma desaceleração?
É uma desaceleração dramática. Entre 2021 e 2025 cresceu em média 3,3% ao ano. Cair para 1% é uma queda de dois terços.
E por que as famílias estão tão endividadas?
Porque nos últimos anos o crédito saltou mais de 60%, os benefícios sociais subiram muito, o desemprego caiu. Tudo isso permitiu as pessoas gastarem mais do que podiam.
Mas o desemprego ainda está baixo, certo? Então por que o consumo cai se as pessoas têm emprego?
Porque o desemprego caiu dez pontos percentuais em anos anteriores. Não dá para repetir esse ritmo. E agora as pessoas ganham menos porque precisam pagar dívidas antigas.
Qual é o comprometimento de renda? Quanto da renda vai para pagar dívidas?
28,7% em julho. E o endividamento total das famílias chegou a 49,9%. Isso significa que quase metade da renda vai para pagar o que já foi gasto.
Esses números vêm de uma única fonte? Do Banco Central?
Sim, do Banco Central. São dados oficiais de julho.
E o governo? Não pode estimular o consumo de novo?
Não. A dívida pública atingiu 82,9% do PIB em agosto, o maior nível em cinco anos. O governo precisa apertar, não expandir.
Então qual é a saída? Investimento?
Sim, economistas esperam que investimento e exportações sustentem o crescimento. Mas isso depende dos juros caírem mais.
E quando os juros caem, o consumo não volta?
Talvez um pouco, mas o modelo de crescimento baseado no consumo se esgotou. Precisa de uma mudança estrutural.
Der Puls
- Consumo deve crescer apenas 1% em 2026, contra média de 3,3% entre 2021-2025
- Endividamento das famílias atinge 49,9% e comprometimento de renda chega a 28,7% em julho
- Dívida pública atingiu 82,9% do PIB em agosto, maior nível em cinco anos
- Consumo per capita cresceu apenas 0,07% entre segundo trimestre de 2026 e mesmo período de 2025
Consumo deve crescer apenas 1% em 2026, contra média de 3,3% entre 2021-2025, impulsionado por endividamento recorde e desaceleração do mercado de trabalho. Endividamento das famílias atinge 49,9% e comprometimento de renda chega a 28,7%, níveis recordes que limitam gastos e forçam redução de impulso fiscal do governo.
O consumo das famílias, principal motor da economia brasileira, desacelera para o menor crescimento desde a pandemia, com economistas projetando alta de apenas 1% em 2026 e risco de estagnação em 2027.
Durante anos, a economia brasileira funcionou como um motor alimentado pelo consumo das famílias. Pessoas compravam, gastavam, pediam empréstimos, e essa engrenagem mantinha o país em movimento. Mas esse modelo está chegando ao fim. Economistas que acompanham a atividade econômica agora concordam em um ponto: o consumo, que respondeu por 63% do PIB e cresceu em média 3,3% entre 2021 e 2025, está perdendo força de forma dramática. Este ano e o próximo devem registrar o menor avanço desde a pandemia, com projeções apontando crescimento de apenas 1% em 2026 e risco real de estagnação em 2027.
Os números revelam a dimensão da desaceleração. Entre 2021 e 2024, o consumo avançou consistentemente: 3% no primeiro ano, 4,1% no segundo, 3,2% no terceiro e 5,1% no quarto. Em 2025, com uma base de comparação mais forte, a alta caiu para 1,3%. No segundo trimestre deste ano, o consumo das famílias medido pelo IBGE recuou 0,4% em relação aos primeiros três meses, e economistas veem risco significativo de nova queda no terceiro trimestre. Quando se observa o consumo por pessoa, a situação fica ainda mais preocupante: cresceu apenas 0,67% entre o quarto trimestre de 2025 e o mesmo período de 2024, e entre o segundo trimestre deste ano e o mesmo período do ano anterior, avançou apenas 0,07%, sinalizando quase uma estagnação completa.
O que mudou? Os fundamentos que sustentaram o consumo nos últimos anos desapareceram. A taxa de desemprego, que caiu dez pontos percentuais em anos recentes, atingindo mínimas históricas, não consegue repetir esse ritmo. O mercado de trabalho não tem como gerar vagas na velocidade anterior. Os benefícios sociais, que tiveram forte alta, não crescem mais no mesmo patamar. E o crédito, que saltou mais de 60% em anos anteriores, está desacelerando. Simultaneamente, as famílias brasileiras enfrentam um endividamento recorde: 49,9% em julho, segundo dados do Banco Central. O comprometimento de renda também atingiu patamares máximos, em 28,7%, o que significa que uma parcela crescente da renda das pessoas vai direto para pagar dívidas anteriores, deixando menos dinheiro para novas compras.
Esse cenário força o governo a apertar o cinto. O impulso fiscal, que ajudou a sustentar o consumo nos anos anteriores, tende a se reduzir no próximo ano para conter a relação entre dívida e PIB, que atingiu 82,9% em agosto, o maior patamar em cinco anos. Economistas ouvidos semanalmente pelo Boletim Focus, do Banco Central, já revisaram suas projeções para baixo: a atividade econômica deve expandir apenas 1,41% em 2027, contra 1,80% projetado no início do ano. Felipe Camargo, economista da Oxford Economics, resume o problema: os dados de vendas no varejo, especialmente o varejo ampliado que inclui veículos e material de construção, estão surpreendendo para baixo. Manoel Pires, coordenador do Centro de Política Fiscal e Orçamento Público do FGV Ibre, é ainda mais direto: houve uma ruptura do comportamento histórico que ajuda a explicar por que o governo tem bons resultados para entregar, como o desemprego baixo, mas isso não se traduz em boa popularidade.
O endividamento acumulado representa o fim de uma ilusão, segundo Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do FGV Ibre. O consumo cresceu anabolizado pelo governo, sobrecarregando tanto o orçamento público quanto o privado. A conta chegou. O governo está endividado, as famílias estão endividadas, e não há superávit. Essa dinâmica cria um cabo de guerra entre política fiscal e monetária: o Banco Central mantém a taxa básica em patamares elevados por mais tempo para conter a inflação, o que desestimula ainda mais o consumo e o investimento privado. Natália Cotarelli, economista do Itaú Unibanco, projeta consumo crescendo 1,1% este ano e no próximo, mas reconhece que o mercado de trabalho ainda garantirá uma sustentação mínima, com a taxa de desemprego aumentando para 6,2%, ainda um patamar baixo. Luís Fernando Cezario, economista-chefe da Asset 1, é mais pessimista: projeta para o PIB uma oscilação entre recuo de 0,1% e alta tímida de 0,3% em 2027, com o consumo variando entre estagnação e avanço de 0,5%.
Com o consumo enfraquecido, economistas esperam que investimento e exportações ganhem espaço como impulsionadores da atividade. Uma desaceleração do consumo permite que os juros caiam, e quem mais se beneficia são as firmas. Há espaço para investimentos em infraestrutura portuária como consequência da exploração da Margem Equatorial, além de aportes em data centers. Mas há uma condição fundamental: os juros precisam cair de verdade. Para Silvia Matos, o modelo centrado nas famílias se esgotou e exige uma virada estrutural. Um PIB liderado pelo consumo não é sustentável. Para aumentar o potencial da economia, precisa ser liderado por investimento e ganhos de produtividade. Essa mudança é necessária, mas depende de fatores que ainda estão fora do controle dos formuladores de política econômica: uma redução mais acentuada dos juros reais e uma recuperação da confiança dos investidores em um cenário fiscal menos vulnerável.
Bemerkenswerte Zitate
Houve uma ruptura do comportamento histórico que ajuda a explicar por que o governo tem bons resultados para entregar, como o desemprego baixo, mas isso não se traduz em boa popularidade.— Manoel Pires, coordenador do Centro de Política Fiscal e Orçamento Público do FGV Ibre
PIB liderado pelo consumo não é sustentável. Para aumentar o potencial da economia, tem que ser liderado por investimento e ganhos de produtividade.— Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do FGV Ibre