O Brasil chega a um limiar histórico: pela primeira vez, o país consome mais de 100 milhões de toneladas de milho em um único ciclo agrícola, impulsionado pela ascensão silenciosa do etanol de milho. Ao mesmo tempo, a soja — símbolo do agronegócio brasileiro — registra seu menor crescimento em três décadas, revelando que a expansão irrestrita encontrou os limites da rentabilidade. É um momento em que a agricultura brasileira não apenas produz mais, mas começa a reorientar para onde e por que produz.
Consumo de milho bate recorde e ultrapassa 100 milhões de toneladas
Consumo doméstico de milho ultrapassa 100 milhões de toneladas pela primeira vez
Por que o consumo de milho ultrapassou 100 milhões de toneladas justamente agora?
A indústria de etanol de milho cresceu exponencialmente. Tínhamos 29 usinas operando e mais 27 em construção. Desde 2000, o consumo do setor saltou de 6,5 para 28,5 milhões de toneladas. É uma mudança estrutural na economia do milho.
E isso afeta as exportações?
Dramaticamente. Reduzimos as projeções de exportação para 41 milhões de toneladas. O Brasil compete com Estados Unidos e Argentina, e agora parte do milho que antes seria exportado fica aqui, processado em etanol.
A soja cresceu muito pouco — apenas 200 mil toneladas. Isso é preocupante?
É o menor crescimento em 30 anos. Os produtores enfrentam custos altos e preços que não acompanham. Em Sorriso, as margens caíram para 8%. Muitos simplesmente não expandem porque não compensa financeiramente.
Então os produtores estão desistindo?
Não desistindo, mas sendo cautelosos. Acostumados com margens generosas até 2022, agora precisam se adaptar a um cenário muito mais apertado. A área plantada cresceu apenas 400 mil hectares.
E o que muda para a próxima safra?
Tudo depende do El Niño, das negociações Trump-Xi e da colheita americana. Se os Estados Unidos colher bem, os preços caem mais. Se houver tensão comercial, pode haver oportunidade. É muita incerteza.
O açúcar e o etanol estão em melhor situação?
Mais estáveis, mas não otimistas. O açúcar tem vantagem sobre etanol na região centro-sul, então as usinas devem priorizar açúcar. Mas há pressão de juros altos e moedas fracas globalmente.
O Pulso
- O consumo doméstico de milho ultrapassou 100 milhões de toneladas pela primeira vez na história, marcando uma virada estrutural na demanda interna brasileira.
- A indústria de etanol de milho quadruplicou sua participação desde 2000 — de 6,5 para 28,5 milhões de toneladas consumidas — e segue em expansão com 27 novas usinas planejadas.
- A soja avança apenas 200 mil toneladas, o menor salto em 30 anos, enquanto produtores em Mato Grosso operam com margens de apenas 8%, pressionados por custos crescentes e preços insuficientes.
- As exportações de milho foram cortadas para 41 milhões de toneladas diante da concorrência americana e argentina, e mercados como o Irã recuam por instabilidade geopolítica.
- As negociações Trump-Xi e a chegada anunciada do El Niño lançam sombra de incerteza sobre as próximas safras, tornando qualquer projeção provisória.
O Brasil chega a um limiar histórico: pela primeira vez, o país consome mais de 100 milhões de toneladas de milho em um único ciclo agrícola, impulsionado pela ascensão silenciosa do etanol de milho. Ao mesmo tempo, a soja — símbolo do agronegócio brasileiro — registra seu menor crescimento em três décadas, revelando que a expansão irrestrita encontrou os limites da rentabilidade. É um momento em que a agricultura brasileira não apenas produz mais, mas começa a reorientar para onde e por que produz.
O Brasil vive uma inflexão discreta, mas profunda, em seu perfil agrícola. Os dados apresentados pela consultoria Hedgepoint em agosto de 2026 mostram uma safra de soja de 181,7 milhões de toneladas — crescimento de apenas 200 mil toneladas em relação ao ciclo anterior, o mais fraco em três décadas fora de períodos climáticos adversos. A área plantada cresceu somente 400 mil hectares, chegando a 49,2 milhões, reflexo de um ambiente econômico que corrói margens. Em Sorriso, no Mato Grosso, os produtores operam com rentabilidade de 8%, distante do conforto das safras recordes de 2021 e 2022.
O milho conta uma história diferente. Com produção de 140,3 milhões de toneladas na safra 2025/26, o cereal não surpreende pelo volume colhido, mas pelo que é consumido dentro do próprio país. A indústria de etanol de milho — hoje com 29 usinas em operação e 27 em planejamento — absorveu 28,5 milhões de toneladas neste ciclo, ante apenas 6,5 milhões em 2000. Esse crescimento acelerado empurrou o consumo doméstico total acima de 100 milhões de toneladas pela primeira vez na história brasileira.
As exportações de milho, porém, recuam. A Hedgepoint reduziu suas projeções para 41 milhões de toneladas, reconhecendo a pressão competitiva dos Estados Unidos e da Argentina. O Irã, mercado tradicional, compra menos por conta da instabilidade regional. Egito, Vietnã e Argélia ampliaram compras, mas não compensam a retração iraniana. Já as exportações de soja, projetadas em 114 milhões de toneladas, dependem dos resultados da colheita americana e do desfecho das negociações comerciais entre Trump e Xi Jinping.
No setor sucroenergético, o equilíbrio é maior. A moagem de cana deve chegar a 635,5 milhões de toneladas, com crescimento previsto para 655 milhões no próximo ciclo. A produção de açúcar subirá de 39,9 para 43 milhões de toneladas, e o etanol de cana avançará para 39,4 bilhões de litros. O etanol de milho também cresce, de 11,2 para 12,8 bilhões de litros. No café, o Brasil deve bater recorde com 75,8 milhões de sacas. A agricultura brasileira, portanto, não cresce de forma uniforme: expande onde há margem, consolida onde há pressão, e aprende, a custo, que crescer nem sempre significa prosperar.
O Brasil atravessa um momento de transformação silenciosa em sua produção agrícola. Enquanto a safra de soja de 2026/27 chega a 181,7 milhões de toneladas — apenas 200 mil toneladas acima do ciclo anterior — o país experimenta pela primeira vez um consumo doméstico de milho que ultrapassa 100 milhões de toneladas. Os números, apresentados pela consultoria Hedgepoint na quarta-feira 19 de agosto, revelam uma agricultura brasileira em inflexão, onde o crescimento desacelera e as prioridades se reorientam.
O avanço da soja é o mais fraco em três décadas, desconsiderando períodos de adversidade climática. A área plantada cresceu apenas 400 mil hectares, chegando a 49,2 milhões, reflexo direto de um cenário econômico hostil aos produtores. Os custos de produção subiram enquanto os preços não acompanharam o ritmo dos gastos. Em regiões como Sorriso, no Mato Grosso, as margens operacionais caíram para 8% — um contraste amargo com as safras generosas de 2021 e 2022, quando os sojicultores desfrutavam de rentabilidades confortáveis. Luiz Roque, analista da Hedgepoint, ressalva que a produção mundial de soja ainda permanece indefinida, pois a colheita americana pode apresentar produtividade inferior às projeções do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.
O milho, por sua vez, conta uma história diferente. A produção brasileira atingiu 140,3 milhões de toneladas na safra 2025/26, volume que se equipara ao ciclo anterior mas fica abaixo das estimativas da Companhia Nacional de Abastecimento. O destaque, porém, reside no consumo doméstico. A indústria de etanol de milho, com 29 usinas em operação e outras 27 em planejamento, transformou o perfil de demanda interna. Em 2000, o setor consumia apenas 6,5 milhões de toneladas; hoje, esse número alcança 28,5 milhões. Essa expansão acelerada explica por que o país, pela primeira vez em sua história, consome mais de 100 milhões de toneladas do cereal anualmente.
As exportações de milho, contudo, enfrentam pressão. A Hedgepoint reduziu suas projeções para 41 milhões de toneladas nesta safra, reconhecendo a concorrência feroz dos Estados Unidos e da Argentina. Além disso, mercados tradicionais como o Irã sofrem com a instabilidade geopolítica do Oriente Médio, reduzindo suas compras. Egito, Vietnã e Argélia aumentaram suas aquisições, mas o volume não compensa as perdas no mercado iraniano. O cenário das exportações de soja também permanece incerto, com projeção de 114 milhões de toneladas para este ano, dependendo crucialmente dos resultados da colheita americana e das negociações comerciais entre Donald Trump e Xi Jinping, marcadas para o próximo mês.
O açúcar e o etanol de cana apresentam dinâmicas mais equilibradas. A moagem de cana deve atingir 635,5 milhões de toneladas em 2026/27, com perspectiva de crescimento para 655 milhões no ciclo seguinte. A produção de açúcar subirá de 39,9 para 43 milhões de toneladas, enquanto o etanol de cana passará de 38,1 para 39,4 bilhões de litros. O etanol de milho, por sua vez, deve crescer de 11,2 para 12,8 bilhões de litros. Segundo Lívea Coda, analista da consultoria, as usinas tendem a priorizar açúcar sobre etanol na região centro-sul, onde o primeiro oferece melhor margem.
O cenário macroeconômico permanece ambíguo. Riscos geopolíticos e custos energéticos elevados pressionam os preços para cima, enquanto taxas de juros globais mais altas, moedas fracas nos países produtores e desaceleração econômica mundial apontam para baixa. A demanda americana por óleo de soja para biodiesel oferece algum suporte aos preços da oleaginosa, obrigando os Estados Unidos a aumentar o esmagamento. No Brasil, as atenções se voltam para o El Niño anunciado, que deverá trazer chuvas adequadas no período de plantio, mas deixa incerteza sobre o desenrolar da próxima safra.
Os dados de cacau e café completam o quadro. A produção mundial de cacau deve cair para 4,8 milhões de toneladas em 2026/27, com um superávit estimado de apenas 111 mil toneladas. O café, por outro lado, segue em trajetória ascendente, com produção mundial projetada em 190 milhões de sacas e consumo em 181 milhões. O Brasil deve atingir um recorde de 75,8 milhões de sacas, sendo 50,2 milhões de arábica. A agricultura brasileira, portanto, não cresce uniformemente: alguns setores expandem enquanto outros consolidam posições, e a rentabilidade se torna cada vez mais seletiva.
Citações Notáveis
A produção mundial de soja ainda não está definida, uma vez que a safra americana poderá registrar uma produtividade inferior àquela que o Usda apresentou em seu último relatório— Luiz Roque, analista da Hedgepoint
Espera-se que as usinas aumentem a produção de açúcar, devido à vantagem do produto em relação ao etanol na região centro-sul do Brasil— Lívea Coda, analista da Hedgepoint