Em 2024-2025, apenas 0,76% e 0,91% das emendas foram para crianças; em 2026, caiu para 0,40% dos R$ 51,5 bilhões previstos. Sudeste concentrou 73,2% dos recursos em 2026, enquanto Norte e Nordeste receberam menos apesar de maiores índices de trabalho infantil e homicídios.
Congresso destinou menos de 1% das emendas para crianças e adolescentes
Os recursos não chegaram sequer a um real por criança e adolescente
Como um estudo assim consegue medir o que realmente importa? Menos de 1% parece um número isolado.
Não é isolado. O Inesc olhou para as 41 ações orçamentárias que existem especificamente para crianças e adolescentes, e apenas 11 receberam emendas. Isso mostra que nem mesmo as políticas que existem estão sendo financiadas.
Mas educação também atende crianças. Por que não conta?
Porque educação é ampla. O estudo quer saber: quanto os parlamentares estão destinando para políticas que cuidam exclusivamente dessa população? Direitos, proteção, defesa. E a resposta é: quase nada.
Os números caem em 2026. Isso é uma tendência ou um acaso?
É preocupante. 2024 teve 0,76%, 2025 subiu para 0,91%, mas 2026 despencou para 0,40%. Parece que conforme o ano avança, menos recursos chegam.
E a questão regional? Por que o Sudeste recebe tanto mais?
Porque é onde estão concentrados os parlamentares com mais poder de barganha. Norte e Nordeste têm maiores índices de trabalho infantil e homicídios de jovens, mas recebem menos. É uma inversão: onde o problema é maior, o financiamento é menor.
A resposta do Senado parece esquivar a questão.
Esquiva mesmo. Diz que é prerrogativa constitucional de cada parlamentar. Verdade. Mas a questão não é se podem fazer isso — é se deveriam fazer diferente.
The Pulse
- Menos de 1% das emendas parlamentares federais (2024-2026) foram para crianças e adolescentes
- Em 2026: 0,40% dos R$ 51,5 bilhões em emendas, equivalente a R$ 208,8 milhões
- Sudeste concentrou 73,2% dos recursos em 2026; Norte e Nordeste receberam menos apesar de maiores índices de vulnerabilidade
- Das 41 ações orçamentárias exclusivas para crianças, apenas 11 receberam recursos por emendas
Em 2024-2025, apenas 0,76% e 0,91% das emendas foram para crianças; em 2026, caiu para 0,40% dos R$ 51,5 bilhões previstos. Sudeste concentrou 73,2% dos recursos em 2026, enquanto Norte e Nordeste receberam menos apesar de maiores índices de trabalho infantil e homicídios.
Estudo do Inesc revela que menos de 1% das emendas parlamentares federais (2024-2026) foram destinadas a ações exclusivas para crianças e adolescentes, com distribuição desigual entre regiões.
Um estudo do Instituto de Estudos Socioeconômicos revelou uma realidade incômoda sobre as prioridades do Congresso Nacional: entre 2024 e 2026, menos de 1% das emendas parlamentares federais foram destinadas exclusivamente a ações voltadas para crianças e adolescentes. Os números são progressivamente desanimadores. Em 2024, o percentual ficou em 0,76%, correspondendo a R$ 412,7 milhões. No ano seguinte, subiu ligeiramente para 0,91%, totalizando R$ 465,1 milhões. Mas em 2026, o índice despencou para 0,40% dos R$ 51,5 bilhões previstos em emendas — apenas R$ 208,8 milhões.
A pesquisa analisou as Leis Orçamentárias Anuais de 2024, 2025 e 2026 utilizando dados do Siga Brasil e focou nas 41 ações orçamentárias classificadas como exclusivas para o público infantojuvenil. O achado mais perturbador: dessas 41 ações, apenas 11 receberam recursos por meio de emendas parlamentares. Os programas que de fato captaram maiores volumes de recursos estão voltados à educação em geral, não especificamente ao atendimento de crianças e adolescentes.
A ação "Promoção e Defesa dos Direitos de Crianças e Adolescentes", que cuida exclusivamente dessa população, recebeu R$ 34,85 milhões ao longo de três anos — uma quantia inferior ao que um único deputado federal pode destinar em emendas individuais em um ano, que chega a R$ 40 milhões. Thallita de Oliveira, assessora política do Inesc, resumiu a situação com precisão: os recursos não chegaram sequer a um real por criança e adolescente no país.
O estudo também mapeou uma desigualdade regional gritante na distribuição dos recursos. Em 2026, a região Sudeste concentrou 73,2% das verbas destinadas à defesa dos direitos das crianças. Norte e Nordeste, por sua vez, receberam parcelas muito menores — apesar de essas regiões concentrarem as maiores incidências de trabalho infantil e as maiores taxas de homicídios de jovens entre 0 e 19 anos. A disparidade revela não apenas uma questão de orçamento, mas de prioridades políticas geograficamente desiguais.
O cenário se agrava quando considerado o contexto legislativo mais amplo. Enquanto o financiamento para proteção infantil permanece insuficiente e mal distribuído, avançam no Congresso propostas que ameaçariam direitos previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente. Entre elas estão a PEC que reduz a maioridade penal e a revogação da resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente que orientava o atendimento humanizado e o acesso ao aborto legal em casos de violência sexual contra menores.
O Inesc recomenda revisão do modelo de distribuição das emendas, reforço do financiamento das políticas sociais e maior transparência na execução dos recursos. A assessoria do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, respondeu afirmando que a destinação de emendas é uma prerrogativa constitucional de cada parlamentar, seja individualmente ou em acordo com sua bancada ou comissão. A nota também destacou aprovações recentes como o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente e o PL 3.066/2025, apresentados como marcos legislativos que fortalecem a proteção infantil no ambiente digital. Mas para quem acompanha os números, a questão permanece: se o Congresso realmente prioriza crianças e adolescentes, por que menos de 1% das emendas chegam até eles?
Notable Quotes
Os recursos não chegaram sequer a um real por criança e adolescente do país— Thallita de Oliveira, assessora política do Inesc