Pesquisas com dolutegravir mostram redução da carga proviral e melhora neurológica em pessoas vivendo com HTLV-1, oferecendo esperança real de tratamento. Salvador concentra aproximadamente 50 mil pessoas vivendo com HTLV-1, com prevalência de 1,48%, tornando a cidade central para compreensão do vírus no Brasil.
Conexão HTLV reúne ciência, ativismo e gestão pública em Salvador para articular respostas
O que era demanda do movimento passa a ser dado da ciência
Por que reunir cientistas, ativistas e gestores públicos no mesmo espaço é tão importante para uma resposta ao HTLV?
Porque cada um desses atores fala uma linguagem diferente. O cientista produz evidência, o ativista traduz a demanda real das pessoas, o gestor precisa viabilizar a política. Quando eles não se falam, a pesquisa fica isolada, a demanda não vira dado, e a política não sai do papel.
E qual é a defasagem que vocês enfrentam em relação ao HIV?
Vivemos uma defasagem de até 40 anos. O HIV tem décadas de resposta estruturada, financiamento, políticas públicas consolidadas. O HTLV ainda é pouco reconhecido, ainda é invisível em muitos serviços. A gente quer aproveitar tudo que a resposta ao HIV aprendeu, mas respeitando que o HTLV é outra infecção, com outras características.
Por que a transmissão vertical é tão central na agenda da HTLVida?
Porque muitas famílias que atendemos convivem com diagnósticos que atravessam gerações. Uma mãe com HTLV pode passar para o filho durante a amamentação. Se a gente conseguir prevenir isso, a gente quebra uma corrente. E agora temos pesquisa mostrando que é possível.
Esses resultados com dolutegravir significam que em breve haverá um tratamento aprovado?
Os resultados são promissores, mas ainda não. O que temos são estudos mostrando que o medicamento reduz a carga proviral e melhora sintomas neurológicos. Mas isso precisa virar política pública, precisa ser incorporado ao SUS, precisa estar acessível. É por isso que trazer esses dados para a mesa com gestores é tão importante.
Como é diferente ter pessoas vivendo com HTLV conduzindo o encontro, em vez de apenas participando?
Muda tudo. Quando as pessoas que vivem com o vírus definem as prioridades, escolhem os estudos, convidam os parceiros, o encontro deixa de ser sobre elas e passa a ser delas. As demandas vêm delas, a ciência busca respostas para elas, as políticas precisam chegar nelas. Essa é a diferença entre informar e pactuar.
E qual é a próxima etapa depois de Salvador?
A gente quer manter essa mobilização até o fim do ano. Em novembro, temos um encontro da Rede Nacional com lideranças de diferentes estados. E estamos articulando uma audiência pública na Assembleia Legislativa da Bahia. O objetivo é que tudo isso contribua para definir prioridades nacionais para 2027 e 2028.
Le Pouls
- Aproximadamente 50 mil pessoas vivem com HTLV-1 em Salvador, com prevalência de 1,48%
- Cerca de 800 mil pessoas infectadas pelo HTLV-1 no Brasil; 5-10% desenvolvem manifestações clínicas
- Estudos com dolutegravir mostram redução da carga proviral e melhora neurológica em pessoas vivendo com HTLV-1
- Em 2024, HTLV passou a integrar notificação compulsória e teste pré-natal foi incorporado ao SUS
- Encontro ocorre em 25 de agosto na Fiocruz Bahia, com agenda nacional até 2028
Pesquisas com dolutegravir mostram redução da carga proviral e melhora neurológica em pessoas vivendo com HTLV-1, oferecendo esperança real de tratamento. Salvador concentra aproximadamente 50 mil pessoas vivendo com HTLV-1, com prevalência de 1,48%, tornando a cidade central para compreensão do vírus no Brasil.
Encontro em Salvador articula respostas ao HTLV com participação de pesquisadores, ativistas e gestores públicos, apresentando pesquisas com dolutegravir e prevenção da transmissão vertical.
Salvador recebe nesta terça-feira um encontro que traz para a mesma sala pessoas que raramente ocupam o mesmo espaço: quem vive com o HTLV, quem pesquisa a infecção, quem oferece os serviços de saúde e quem decide sobre políticas públicas. O Conexão HTLV SSA acontece das 8h às 12h no auditório da Fiocruz Bahia e marca o retorno da Associação HTLVida da AIDS 2026, realizada no Rio de Janeiro há poucas semanas, com uma proposta ambiciosa: transformar os debates internacionais em ações concretas na Bahia.
A iniciativa nasceu de uma trajetória construída há anos pela HTLVida, organização formada por pessoas que vivem com o vírus. Adijeane Oliveira, coordenadora executiva e ela própria vivendo com HTLV, descreve o encontro não como uma informação dirigida às pessoas afetadas, mas como um espaço de pactuação entre atores. A distinção importa: as pessoas vivendo com HTLV não são o público do evento, são suas protagonistas. Foram elas que definiram as prioridades, escolheram os estudos a apresentar e convidaram os setores que estarão presentes.
O coração científico do encontro repousa em duas linhas de pesquisa com dolutegravir, um antirretroviral usado no tratamento do HIV que está sendo investigado para o HTLV-1. Carlos Brites, infectologista da Universidade Federal da Bahia, apresentará resultados que apontam para redução da carga proviral e melhora em avaliações neurológicas entre pessoas que receberam o medicamento. Um estudo de fase 2 publicado em 2026 documentou esses ganhos; outro ensaio randomizado com 96 semanas de acompanhamento identificou melhora em componentes físicos relacionados à qualidade de vida. Os resultados são promissores, embora o medicamento ainda não esteja aprovado como tratamento específico para o HTLV. Igualmente importante é o PrevINIr HTLV-TV, ensaio clínico da Fiocruz Bahia que avaliará o uso do dolutegravir na prevenção da transmissão vertical. O estudo acompanhará 548 gestantes vivendo com o vírus e seus bebês até os 18 meses de idade, testando segurança, tolerabilidade, adesão e custo-efetividade para o SUS. Envolve unidades em Salvador, Cachoeira, Cruz das Almas e Santo Antônio de Jesus, com a HTLVida como parceira.
A prevenção da transmissão entre mãe e criança ocupa lugar central na agenda da associação porque muitas famílias atendidas convivem com diagnósticos que atravessam gerações. Embora a transmissão possa ocorrer durante a gestação e o parto, a principal via é a amamentação. O diagnóstico no pré-natal permite orientar a gestante e adotar medidas capazes de reduzir significativamente o risco para o bebê.
Salvador é o cenário certo para este encontro. Um estudo populacional de 2017 encontrou prevalência de 1,48% de HTLV-1 entre moradores da capital baiana, estimando que aproximadamente 50 mil pessoas vivessem com o vírus naquele período. No país, o Ministério da Saúde estima cerca de 800 mil infectados pelo HTLV-1. A maior parte não apresenta sintomas, mas entre 5% e 10% desenvolve manifestações clínicas, incluindo doenças neurológicas, inflamatórias e hematológicas que comprometem a qualidade de vida. A Organização Mundial da Saúde informa que ainda não existe tratamento capaz de eliminar a infecção.
Nos últimos anos, o Brasil adotou medidas importantes para ampliar a vigilância. Em 2024, a infecção pelo HTLV passou a integrar a lista nacional de notificação compulsória, assim como os casos em gestantes e crianças expostas ao risco de transmissão vertical. No mesmo ano, o exame para detecção do HTLV-1 e HTLV-2 no pré-natal foi incorporado ao SUS com indicação de rastreamento universal das gestantes. A Bahia foi o primeiro estado a instituir uma Linha de Cuidado Integral voltada às pessoas vivendo com HTLV, em 2020, organizando orientações para diagnóstico, acompanhamento e assistência na rede estadual, embora a associação defenda que a implementação das políticas, a descentralização dos testes e a capacitação das equipes precisem avançar.
O encontro também terá a cerimônia do Prêmio HTLVida – Ceuci Nunes 2026, criado para reconhecer pessoas, instituições e organizações que contribuíram para fortalecer a resposta ao vírus. A homenagem leva o nome da médica infectologista Ceuci Nunes, cuja trajetória está ligada à saúde pública baiana e à defesa do SUS. Além disso, o evento abre uma agenda que a associação pretende manter até o fim do ano. A HTLVida articula para novembro um encontro da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HTLV com lideranças de diferentes estados, e busca integrar à mobilização uma audiência pública na Assembleia Legislativa da Bahia. A expectativa é que essas atividades contribuam para definir prioridades nacionais para 2027 e 2028. Para Adijeane, o resultado não poderá ser medido apenas pelo número de participantes. O encontro cumprirá seu objetivo se conseguir alinhar os atores, sensibilizar sobre a ciência, reconhecer os parceiros, mobilizar para o calendário e pactuar um caminho. O que viveram no Rio foi o ponto de partida; o que constroem a partir daqui é o caminho.
Citations marquantes
O Conexão HTLV SSA não foi pensado para as pessoas que vivem com HTLV, mas por elas. Essa distinção é o que dá sentido a todo o encontro.— Adijeane Oliveira, coordenadora executiva da HTLVida
Queremos que todos compreendam que existe ciência brasileira produzindo respostas para o HTLV, que existe esperança real e que essa esperança precisa se transformar em política pública.— Adijeane Oliveira