Condenação à morte de canadiano reaviva debate sobre diplomacia de reféns chinesa

Três cidadãos canadianos enfrentam penas de morte ou prisão por espionagem; Robert Schellenberg aguarda execução após condenação agravada.
Quem ofender a nação chinesa será punido, não importa o quão longe está
Frase do filme Wolf Warrior II que inspirou a estratégia diplomática chinesa contemporânea de pressão contra países ocidentais.
Mark

Porque é que a China agravou a pena de Schellenberg em vez de a reduzir, como era o esperado num recurso?

Mimi

Porque o timing era perfeito. Meng Wanzhou tinha sido detida semanas antes, e Pequim precisava de mostrar que havia consequências. Um tribunal chinês não funciona como um tribunal ocidental — é uma extensão do poder do Estado.

Luke

Mas temos de ser claros: a fonte diz que os juízes alegaram que a sentença inicial tinha sido "demasiado branda". Isso é o que eles disseram. Não sabemos o que realmente pensavam.

Mark

E os outros dois canadianos? Spavor e Kovrig?

Mimi

Ambos foram detidos em dezembro de 2018, logo após Meng. Spavor organiza intercâmbios com a Coreia do Norte, Kovrig é ex-diplomata. Ambos acusados de espionagem, ambos à espera de veredictos.

Luke

Espionagem é uma acusação muito comum na China contra estrangeiros. Não temos provas públicas do que fizeram ou não fizeram.

Mark

Então o Canadá está certo em chamar isto "diplomacia de reféns"?

Mimi

Não é só o Canadá. A Austrália viu o mesmo padrão — deteve cidadãos, depois sofreu boicotes comerciais. A Noruega levou seis anos a recuperar as relações após o Prémio Nobel a Liu Xiaobo.

Luke

Mas há uma diferença entre coincidência e conspiração. Podemos dizer que o timing é suspeito — e é — mas não podemos provar que Pequim deliberadamente agravou a pena de Schellenberg como retaliação.

Mark

O embaixador canadiano disse que não achava ser coincidência.

Mimi

Disse exatamente isso. Mas é uma opinião, não uma prova. O que sabemos é que a pena foi agravada, que Meng foi detida semanas antes, e que dois outros canadianos foram presos logo depois.

Luke

E que a China tem um histórico de usar detenções e pressão económica contra países que a desafiam. Isso é documentado. O padrão existe. Mas cada caso individual é mais complexo do que parece.

  • Robert Schellenberg condenado à morte após pena inicial de 15 anos ser agravada em recurso, em agosto de 2021
  • Três canadianos detidos na China: Schellenberg (tráfico), Spavor e Kovrig (ambos acusados de espionagem)
  • Meng Wanzhou, filha do fundador da Huawei, detida no Canadá a 1 de dezembro de 2018 a pedido dos EUA
  • Exportações australianas de carne vermelha para a China caíram 30% entre 2019 e 2020 após conflito diplomático

Schellenberg, preso desde 2014, teve pena aumentada de 15 anos para morte após recurso, numa inversão rara da justiça chinesa. China detém três canadianos em casos que Otava considera retaliação pela prisão de Meng Wanzhou, filha do fundador da Huawei.

Tribunal chinês confirmou condenação à morte de Robert Schellenberg por tráfico de droga, agravando pena inicial de 15 anos. Canadá vê caso como retaliação pela detenção de executiva da Huawei a pedido dos EUA.

Um tribunal chinês confirmou a condenação à morte de Robert Schellenberg numa terça-feira de agosto, fechando um capítulo particularmente brutal de um conflito diplomático que começou três anos antes, quando agentes canadianos detiveram Meng Wanzhou no aeroporto de Toronto a pedido dos Estados Unidos. O caso de Schellenberg não é isolado — é o ponto mais visível de uma estratégia que Ottawa chama de "diplomacia de reféns", em que Pequim usa o seu sistema judicial como arma de pressão contra países que desafiam os seus interesses.

Schellenberg, nascido em 1982, já tinha um histórico de condenações por tráfico de droga no Canadá quando foi detido pela China em novembro de 2014. As autoridades chinesas o acusavam de planear transportar 222 quilos de metanfetaminas para a Austrália. Ele negou as acusações, mas em novembro de 2018 — antes ainda da detenção de Meng Wanzhou — um tribunal o condenou a 15 anos de prisão. A defesa apresentou recurso esperando reduzir a pena. Em vez disso, após um julgamento de apenas um dia, os juízes decidiram que a sentença inicial tinha sido demasiado branda e o condenaram à morte. O embaixador canadiano na China, Dominic Barton, chamou a decisão de "uso arbitrário" da pena capital e questionou abertamente a coincidência temporal: "Não acho que seja uma coincidência que estejam a acontecer agora, enquanto o julgamento está a decorrer em Vancouver."

O julgamento em Vancouver é sobre Meng Wanzhou, diretora financeira da Huawei e filha do fundador Ren Zhengfei. Os Estados Unidos a acusam de fraude bancária e conspiração para contornar sanções contra o Irão. Quando foi detida em dezembro de 2018, Pequim alertou o Canadá para as "graves consequências" do gesto. Semanas depois, dois outros canadianos foram presos: Michael Spavor, empresário de Calgary que organiza intercâmbios culturais com a Coreia do Norte e conhece pessoalmente Kim Jong-un, acusado de espionagem; e Michael Kovrig, ex-diplomata nascido em Toronto que trabalhava para o International Crisis Group, também acusado de espionagem. Ambos aguardavam veredictos no mesmo período em que Schellenberg via a sua pena agravada.

Este padrão não é novo nem exclusivo do Canadá. A Austrália enfrentou uma campanha similar após exigir uma investigação sobre as origens da covid-19 — um gesto que Pequim viu como provocação. Cidadãos australianos como o escritor Yang Hengjun foram detidos sob acusações de espionagem que Camberra considera arbitrárias. A pressão económica acompanhou: boicotes a importações de carvão, cevada, vinho, carne e marisco. As exportações de carne vermelha australiana para a China caíram 30% entre 2019 e 2020, quando tinham atingido três mil milhões de dólares australianos no ano anterior.

A Noruega oferece um precedente ainda mais claro. Em 2010, depois que o Comité Nobel atribuiu o Prémio da Paz ao ativista de direitos humanos Liu Xiaobo, Pequim praticamente cortou as relações diplomáticas e comerciais com Oslo — um dos primeiros países ocidentais a reconhecer a República Popular da China em 1950. As negociações comerciais foram suspensas, as importações congeladas. Levou seis anos até que as relações fossem retomadas, e apenas depois de a Noruega fazer um gesto conciliatório ao recusar receber o Dalai Lama, líder espiritual tibetano que Pequim vê como separatista.

Esta estratégia ganhou um nome e uma estética própria durante a pandemia de covid-19: a "diplomacia do Lobo Guerreiro". O presidente Xi Jinping ordenou aos seus diplomatas que mostrassem maior "espírito combativo" nas redes sociais, em resposta aos ataques externos. O nome vem de um filme de 2017, Wolf Warrior II, a sequela mais vista de sempre na China, que conta a história de um soldado chinês que salva centenas de pessoas de uma chacina conduzida por mercenários ocidentais. Uma das frases mais emblemáticas do filme é: "Quem ofender a nação chinesa será punido, não importa o quão longe está." A frase tornou-se um manifesto diplomático.

Para o Canadá, o impasse permanece sem solução clara. Meng Wanzhou continua em prisão domiciliária enquanto os argumentos finais do seu processo de extradição decorrem. Schellenberg aguarda a execução. Spavor e Kovrig aguardam veredictos. E Pequim mantém a pressão, demonstrando que para um governo que vê a sua ascensão como inevitável, a paciência é uma arma tão eficaz quanto qualquer outra.

Não acho que seja uma coincidência que estejam a acontecer agora, enquanto o julgamento está a decorrer em Vancouver
— Dominic Barton, embaixador canadiano na China
Continuamos profundamente preocupados com o uso arbitrário pela China da pena de morte contra Robert Schellenberg
— Dominic Barton, embaixador canadiano na China
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