Evangélicos ignoravam aborto até 1976, quando documentário 'Como Devemos Viver Então' o incluiu como tema central, mudando permanentemente a política americana. Protestos feministas contra o filme atraíram apoio evangélico massivo, polarizando o debate e levando a violência em clínicas de aborto nas décadas seguintes.
Como um documentário evangélico dos anos 1970 inflamou a guerra cultural sobre aborto nos EUA
Meu pai e eu temos sangue nas nossas mãos
Como um documentário sobre arte e cristianismo acabou se tornando a peça central de uma guerra cultural sobre aborto?
Frank Schaeffer queria fazer cinema. Seu pai tinha ideias sobre religião e cultura. Um produtor tinha dinheiro. Ninguém planejou mudar a história política americana — mas quando o filme foi lançado e as feministas começaram a protestar, algo se acendeu. Os evangélicos viram uma batalha acontecendo e entraram nela.
Mas por que evangélicos não se importavam com aborto antes de 1976?
Porque era visto como um assunto católico. Os evangélicos naquela época não queriam nem estar perto de católicos, muito menos compartilhar suas causas. O aborto simplesmente não estava no radar deles. Frank foi quem colocou lá, e não por razões filosóficas — era pessoal para ele.
A violência que veio depois — os assassinatos, os ataques às clínicas — Frank Schaeffer poderia ter previsto isso?
Ele diz que não. Mas também diz que tem sangue nas mãos. Há uma diferença entre não prever algo e não ser responsável por ele. James Kopp viu o filme, visitou a comunidade onde foi feito, escreveu uma carta elogiando-o, e depois matou um médico. A linha é direta.
Frank se arrepende genuinamente ou está tentando se redimir?
Ele passou 30 anos tentando desfazer o dano. Escreveu livros, fez campanhas públicas, se identificou como pró-escolha. Mas o documentário continua sendo exibido em igrejas, continua inspirando ativistas. Seu arrependimento é real, mas chegou tarde demais para mudar o que ele colocou em movimento.
O que isso diz sobre como ideias se propagam e ganham poder?
Que às vezes uma ideia precisa de um inimigo para crescer. As feministas protestando contra o filme não estavam ajudando a causa delas — estavam dando ao movimento evangélico exatamente o que ele precisava: uma batalha visível, uma razão para se mobilizar. A polarização alimenta a polarização.
E hoje, o documentário ainda tem influência?
Sim. Líderes evangélicos modernos ainda o citam. Ainda é exibido em igrejas. Ainda inspira ativistas. A obra de Frank Schaeffer se tornou maior do que ele jamais imaginou — e agora ele está preso a ela, tentando consertar algo que talvez não possa ser consertado.
The Pulse
- Documentário 'Como Devemos Viver Então' lançado em 1976 por Frank e Francis Schaeffer
- Evangélicos ignoravam aborto como tema político antes do filme
- Ginecologista Barnett Slepian assassinado em 1998 por ativista inspirado no documentário
- Frank Schaeffer agora se identifica como pró-escolha e tenta desfazer o dano causado
Evangélicos ignoravam aborto até 1976, quando documentário 'Como Devemos Viver Então' o incluiu como tema central, mudando permanentemente a política americana. Protestos feministas contra o filme atraíram apoio evangélico massivo, polarizando o debate e levando a violência em clínicas de aborto nas décadas seguintes.
Um documentário de 1976 dirigido por Frank Schaeffer transformou o aborto em questão central para evangélicos americanos, inspirando décadas de ativismo que culminou em violência e assassinatos.
Nos anos 1970, o aborto era um assunto que evangélicos americanos simplesmente ignoravam. Não era parte de sua agenda política, não era pregado dos púlpitos, não era tema de mobilização. Tudo mudou com um documentário de dez episódios chamado "Como Devemos Viver Então", lançado em 1976, que transformaria o debate sobre direitos reprodutivos nos Estados Unidos e deixaria marcas de sangue que perduram até hoje.
A história começa com Frank Schaeffer, um jovem cineasta ambicioso criado nos Alpes Suíços, na comunidade evangélica L'Abri fundada por seu pai, Francis Schaeffer, um teólogo e filósofo cristão de pensamento excêntrico. Francis era diferente de outros líderes evangélicos de sua geração — dava palestras sobre as letras de Bob Dylan, sobre arte moderna, sobre Woodstock. Quando visitantes começaram a sugerir que ele transformasse essas palestras em filme, Frank viu a oportunidade que procurava: uma chance de iniciar sua carreira em cinema. Billy Zeoli, produtor de filmes evangélicos que depois se tornaria conselheiro espiritual do presidente Gerald Ford, levantou 3,5 milhões de dólares para financiar o projeto — uma quantia extraordinária para um documentário naquela época.
O documentário foi um sucesso retumbante. A turnê de lançamento percorreu 16 cidades americanas com arenas lotadas de cerca de 20 mil pessoas. Em Nova York, o evento aconteceu no Madison Square Garden. Francis Schaeffer, que havia permanecido ignorado pela grande mídia apesar de seus livros venderem cinco vezes mais que os best-sellers da época, de repente se tornou uma figura evangélica proeminente nos Estados Unidos. Mas havia um problema: o público evangélico não gostou dos episódios sobre aborto. O tema não sensibilizava as multidões.
Foi então que Frank convenceu seu pai a fazer uma segunda série de documentários, desta vez com ênfase exclusiva no aborto, intitulada "O que Aconteceu com a Raça Humana?". Frank usou todos os argumentos que conhecia, dizendo a seu pai que não fazer a série seria como ser pró-aborto. O documentário apresentava imagens extravagantes e de vanguarda — crianças fantasmagóricas vagando pelo mundo, um médico antiaborto em pé diante de mil bonecas no Mar Morto em Israel. Mas a turnê de promoção foi um fracasso completo. Quando os Schaeffer tentaram ganhar apoio de líderes evangélicos importantes, como W.A. Criswell, da Convenção Batista do Sul, foram rejeitados. Os pastores não queriam se envolver com o assunto. A revista Christianity Today respondeu que considerava a questão ambivalente, na melhor das hipóteses.
O que mudou tudo foi uma resenha publicada no New York Post. Quando outros jornais replicaram a coluna, feministas começaram a protestar em frente aos cinemas que exibiam o filme. E aqui ocorreu uma transformação crucial: os protestos feministas atraíram a atenção da grande mídia, o que por sua vez atraiu multidões de evangélicos para as ruas em apoio aos Schaeffer. Frank reconhece que as feministas fizeram um favor involuntário ao movimento antiaborto. Quanto mais mulheres protestavam, mais cobertura de imprensa recebiam, mais evangélicos se mobilizavam. O que começou como manifestações pacíficas, porém, gradualmente ganhou contornos violentos. Mulheres passaram a ser alvo de agressões nas proximidades de clínicas de aborto.
Em 1998, um ginecologista chamado Barnett Slepian foi assassinado em Amherst, Nova York, por James Charles Kopp, um ativista antiaborto. A sobrinha de Slepian, Amanda Robb, se tornou jornalista investigativa dedicada a entrevistar ativistas antiaborto que cometeram assassinatos. Em suas investigações, ela encontrou um padrão consistente: todos citavam o documentário de Schaeffer como o catalisador de seu ativismo. Kopp havia viajado à Suíça para visitar a comunidade L'Abri e havia escrito uma carta aos Schaeffer elogiando seus filmes.
Frank Schaeffer, décadas depois, se tornou um homem diferente. Estabeleceu uma carreira bem-sucedida em Hollywood, mas passou os últimos 30 anos tentando desfazer o dano causado pelo documentário. Rejeitou as doutrinas de seu pai, especialmente após Francis se juntar a Jerry Falwell e ao movimento Moral Majority. Frank escreveu um livro de memórias e passou a fazer campanha contra a direita religiosa nas redes sociais. Em suas declarações públicas, ele é direto sobre sua culpa: "Meu pai e eu temos sangue nas nossas mãos por causa da morte de Barnett Slepian e muitos outros provedores de aborto. Existe uma linha direta entre o que nós Schaeffers fizemos até Jim Kopp matar um médico." Ele implora por perdão e se identifica como ardentemente pró-escolha.
Mas o arrependimento de Frank não apagou a influência de sua obra. O documentário continua sendo exibido em igrejas evangélicas, continua inspirando novos ativistas. Rusty Thomas, líder da Operação Salve a América, a maior iniciativa contra o aborto nos Estados Unidos, resume a importância histórica dos Schaeffer de forma simples: "A maioria das pessoas consideram Schaeffer o pai do combate ao aborto." Um documentário feito para lançar uma carreira de cinema transformou permanentemente a política americana e deixou um rastro de violência que persiste até hoje.
Notable Quotes
A maioria das pessoas consideram Schaeffer o pai do combate ao aborto— Rusty Thomas, líder da Operação Salve a América
Eu passei os últimos 30 anos da minha vida tentando desfazer o dano que causei com aquele documentário— Frank Schaeffer