Em um tempo em que viver mais não significa necessariamente viver melhor, a antropóloga Mirian Goldenberg aceita o convite do Unicef para ser Apoiadora de Alto Perfil e transforma essa honra em pergunta existencial: o que deixamos para aqueles que ainda estão chegando? Ao organizar décadas de pesquisa, ensino e militância contra a velhofobia, ela aposta que o verdadeiro legado não é um arquivo, mas uma forma de encarar o tempo — como brincadeira ainda por inventar.
Como me tornei a velha do legado: uma jornada de propósito e transformação
Estava grávida do meu legado
O que mudou quando ela aceitou esse papel no Unicef? Parece um ponto de virada real.
Sim. Ela diz que a pergunta sobre legado a perseguiu. Mas o convite em julho foi o momento em que deixou de ser uma reflexão abstrata e virou uma responsabilidade concreta. Daí o sonho, a epifania.
Mas o sonho é dela, certo? Não é um fato verificável. É uma metáfora pessoal de como ela processou a decisão.
Exato. É a forma dela de contar como a ideia se enraizou. O legado deixou de ser teórico.
E a Casa da Bela Velhice — isso já existe ou está sendo construído?
Está sendo construído. Ela fala sobre isso como um projeto em andamento, parte do patrimônio que está organizando.
Então não é um lugar físico ainda, é um conceito que ela está desenvolvendo.
Certo. É um espaço que ela imagina, que quer criar.
Por que ela insiste tanto em "bela velhice"? Parece ser a palavra-chave.
Porque ela passou a vida lutando contra a velhofobia. A ideia é que envelhecer não é declínio, é invenção. É brincadeira.
E ela deixa claro que não sabe se vai funcionar. Ela mesma diz que tem mais perguntas que respostas.
Sim. Há uma honestidade nisso. Ela não está prometendo resultados. Está dizendo: estou plantando sementes, e não sei se vão crescer.
The Pulse
- Um convite inesperado em julho de 2026 acendeu em Mirian Goldenberg a urgência de transformar uma vida inteira de reflexão em algo que sobreviva a ela.
- A incerteza a mantém acordada: será que seu legado chegará às crianças de hoje antes que elas se tornem os idosos de amanhã, ainda presos aos mesmos preconceitos que ela combate?
- Para responder, ela começa a catalogar décadas de livros, diários, aulas e conferências, enquanto ergue a Casa da Bela Velhice como espaço concreto de transformação.
- O projeto desafia a ideia de que envelhecer é declínio, propondo que cada fase da vida pode ser reinventada com coragem, autonomia e ternura.
- No Dia Internacional das Pessoas Idosas, Goldenberg se proclama 'a velha do legado' — não como título, mas como compromisso público com as gerações que ainda estão crescendo.
Em um tempo em que viver mais não significa necessariamente viver melhor, a antropóloga Mirian Goldenberg aceita o convite do Unicef para ser Apoiadora de Alto Perfil e transforma essa honra em pergunta existencial: o que deixamos para aqueles que ainda estão chegando? Ao organizar décadas de pesquisa, ensino e militância contra a velhofobia, ela aposta que o verdadeiro legado não é um arquivo, mas uma forma de encarar o tempo — como brincadeira ainda por inventar.
No ano passado, Mirian Goldenberg gravou um vídeo para o Unicef sobre legado e longevidade. A pergunta do roteiro era simples, mas ela reconhece que mudou o rumo de sua vida: por que falar de legado quando vivemos mais tempo? Porque essa longevidade traz a chance de construir algo que importe tanto para nós quanto para a humanidade.
Em 21 de julho de 2026, veio o convite para ser Apoiadora de Alto Perfil do Unicef. Ela aceitou sem hesitar. Naquela noite, sonhou que estava grávida — feliz, segurando com delicadeza uma barriguinha que desabrochava. Ao acordar, compreendeu a metáfora: estava grávida do próprio legado.
Desde então, passou a organizar seu patrimônio material e imaterial — livros, diários, colunas, vídeos, aulas, palestras. Está construindo a Casa da Bela Velhice. Mas as perguntas ainda superam as respostas: qual é, afinal, seu legado? A paixão pela antropologia? A luta contra a velhofobia? O amor pelas crianças de mais idade? Uma frase de Rubem Alves a orienta: só quem contempla a beleza é capaz de endurecer sem perder a ternura.
O que mais lhe rouba o sono é a incerteza: seu legado conseguirá transformar o mundo das crianças de hoje, que serão os velhos de amanhã? No legado que quer deixar está a ideia de que não há um único caminho para viver cada idade — e que é preciso coragem para não obedecer às prisões que nos dizem como devemos ser. A Casa da Bela Velhice será um lugar para ensinar a amar, brincar e escutar, mostrando que envelhecer não é chegar ao fim, mas uma brincadeira ainda por inventar. Neste 1º de outubro, Dia Internacional das Pessoas Idosas, nasceu a velha do legado.
No ano passado, Mirian Goldenberg gravou um vídeo para o Unicef sobre transformação e legado. A pergunta que estruturava o roteiro era simples, mas ela mesma reconhece agora que mudou o rumo de sua vida: por que falar de legado quando estamos vivendo mais tempo? Porque essa longevidade traz consigo a chance de construir algo que importe tanto para nós quanto para a humanidade inteira.
Em julho deste ano, veio o convite que a levaria a transformar essa reflexão em ação. No dia 21, foi convidada a ser Apoiadora de Alto Perfil do Unicef. Aceitou sem hesitar. Naquela noite, dormiu e sonhou que estava grávida — feliz, segurando com delicadeza uma barriguinha que começava a desabrochar. No sonho, perguntou a si mesma se agora, além de ser uma velha sem vergonha, uma antropóloga malcomportada e a primeira representante da Mônica 60+, seria também a velha do legado. Quando acordou, compreendeu: estava grávida do seu próprio legado.
Desde então, começou a organizar seu patrimônio material e imaterial. São muitos livros, diários, colunas, vídeos, entrevistas, aulas, palestras e conferências. Está construindo a Casa da Bela Velhice. Mas as perguntas ainda superam as respostas. Qual é seu legado? A paixão pela antropologia? A arte de pesquisar? Os alunos e alunas? Os livros? Os diários? A luta contra a velhofobia? A obsessão de inventar uma bela velhice? O amor incondicional pelas crianças de mais idade?
Uma frase de Rubem Alves a ajuda a pensar: "Lutam melhor os que têm sonhos belos. Somente aqueles que contemplam a beleza são capazes de endurecer sem nunca perder a ternura." Como uma guerreira que brinca como criança, o que mais a rouba o sono é a incerteza: seu legado conseguirá transformar o mundo das crianças de hoje, que serão os velhos de amanhã?
No legado que quer deixar, está o desejo de criar, escrever, pesquisar, pensar, ensinar, aprender, inventar, escutar, brincar, cuidar das crianças e também dos velhos. Quer deixar a ideia de que não há um único caminho para ser criança, adolescente, jovem, adulto ou velho. Que é preciso coragem e autonomia para não obedecer às prisões que limitam como devemos viver em cada idade. Quer deixar a certeza de que envelhecer não é chegar ao fim, mas uma brincadeira a ser inventada no dia a dia.
A Casa da Bela Velhice será um lugar para ensinar a amar, brincar e escutar bonito, mostrando que é possível envelhecer sem perder a criança que nunca deixamos de ser. Está construindo um legado para manter vivos seus projetos e sonhos de mudar o mundo. Se isso permanecer, terá encontrado a forma mais bonita de não desaparecer. Neste 1º de outubro, Dia Internacional das Pessoas Idosas, nasceu a velha do legado.
Notable Quotes
Estou construindo um legado para manter vivos meus projetos e sonhos de mudar o mundo. Se isso permanecer, terei encontrado a forma mais bonita de não desaparecer.— Mirian Goldenberg