Como Luciano Hang transformou a Havan em gigante do varejo apesar da hostilidade estatal

O imposto é o maior gasto. É maior do que o lucro.
Hang descreve a proporção de tributos em relação aos resultados da Havan em 2026.
Mark

Como um empresário consegue manter uma rede varejista crescendo quando concorrentes como Casas Bahia e Marisa estão fechando lojas?

Mimi

A Havan mantém margens acima da média do setor, segundo analistas do Banco Safra. Hang atribui isso ao mix de produtos e ao modelo de megaloja, mas também há algo sobre a estrutura da empresa — é de capital fechado, familiar, sem pressão de acionistas externos.

Luke

Mas isso não explica tudo. A Havan também paga R$ 6 bilhões em tributos, como as outras. A diferença real pode estar em eficiência operacional ou em decisões de localização que outras redes não fizeram.

Mark

Hang diz que a burocracia impediu a Havan de entrar em São Paulo, a maior capital do país. Isso é realmente um obstáculo ou uma desculpa?

Mimi

Há casos documentados — um terreno em Matinhos parado há quatro anos, projetos em Joinville que não saíram do papel, uma inauguração embargada em Natal. Esses não são boatos.

Luke

Verdade, mas precisamos separar o que é burocracia legítima de proteção ambiental ou segurança de proteção política. Hang atribui o embargo em Natal a perseguição do PT, mas não há confirmação independente disso. E a ausência em São Paulo pode ter outras razões — custo do terreno, modelo de negócio que não se adapta à capital.

Mark

Ele diz que paga 30% do faturamento em tributos. Isso é realmente mais do que o lucro?

Mimi

Hang projeta R$ 6 bilhões em tributos para 2026 e diz que essa cifra supera o lucro líquido esperado. Com faturamento de R$ 22 bilhões, 30% daria R$ 6,6 bilhões, o que bate com o número que ele cita.

Luke

Mas precisamos ser cuidadosos aqui. Hang está comparando tributos totais com lucro líquido — são métricas diferentes. Tributos incluem impostos que a empresa recolhe em nome de terceiros, não apenas o que ela deve. E a margem líquida do varejo de departamentos é mesmo entre 9% e 10%, então a proporção faz sentido, mas não é tão dramática quanto parece à primeira leitura.

Mark

Por que a Havan recusa propostas para se internacionalizar?

Mimi

Hang diz que quer continuar focado no Brasil, expandindo para cidades médias e regiões Norte e Nordeste. Talvez seja convicção, talvez seja que o modelo funciona aqui e ele não quer arriscar.

Luke

Ou talvez seja que a internacionalização exigiria capital que ele prefere investir na expansão doméstica, onde já tem vantagem competitiva. Não sabemos qual é a razão real.

  • Havan completou 40 anos em junho de 2026 com 196 unidades, 22 mil colaboradores e projeção de R$ 22 bilhões em faturamento
  • Tributos previstos para 2026 chegam a R$ 6 bilhões, cifra que supera o lucro líquido esperado
  • Burocracia impediu abertura em São Paulo e atrasou projetos por até 22 anos
  • Empresa planeja 15 novas unidades em 2026 e meta de 300 lojas, com foco em Norte e Nordeste

A Havan completou 40 anos com quase 200 unidades, 22 mil colaboradores e projeção de R$ 22 bilhões em faturamento, expandindo enquanto concorrentes como Casas Bahia e Marisa fecham lojas. Hang relata que tributos consumem 30% do faturamento, chegando a R$ 6 bilhões em 2026, cifra superior ao lucro esperado, e que burocracia impediu abertura em São Paulo e atrasou projetos por até 22 anos.

Luciano Hang transformou a Havan em gigante do varejo com 196 lojas e R$ 22 bilhões em faturamento, expandindo contra obstáculos como burocracia municipal e carga tributária que supera o lucro líquido.

Quarenta anos atrás, Luciano Hang e um sócio abriram uma loja de tecidos importados em uma sala de 45 metros quadrados em Brusque, Santa Catarina. O nome Havan veio da junção dos dois sobrenomes. Hoje, em 2026, a rede que começou naquele espaço minúsculo opera 196 megalojas espalhadas por 23 estados, emprega 22 mil pessoas e projeta um faturamento de R$ 22 bilhões. A transformação de uma pequena operação catarinense em uma das maiores varejistas do país aconteceu não apesar dos obstáculos que cercam o empreendedorismo brasileiro, mas contra eles — e essa trajetória revela tanto sobre a resiliência de um empresário quanto sobre as fraturas estruturais do ambiente de negócios do país.

Hang cresceu filho de operários da indústria têxtil catarinense, disléxico diagnosticado tarde, começando a trabalhar aos 16 anos na expedição de uma fábrica em Brusque. Antes de fundar a Havan em 1986, passou por tecelagem familiar e fábrica de toalhas. Seu sócio original, Vanderlei de Limas, saiu da sociedade cinco anos depois, deixando Hang com a operação inteira. Em 1989, a loja se mudou para um espaço de 2,5 mil metros quadrados na rodovia Antônio Heil, ainda em Brusque. Seis anos depois, em 1995, a primeira filial abriu em Curitiba com a fachada branca que se tornaria marca registrada — uma ideia que Hang trouxe dos Estados Unidos. Dali em diante, a rede se expandiu de forma sistemática, levando consigo, segundo o próprio empresário, um DNA catarinense que persiste em cada loja espalhada pelo Brasil.

Mas essa expansão não foi linear nem fácil. A burocracia municipal e estadual funcionou como um freio permanente. Hang relata que uma unidade da Havan levou 22 anos para reunir todos os alvarás e licenças necessários para funcionar. Em Matinhos, no litoral do Paraná, um terreno de 30 mil metros quadrados destinado a uma megaloja com cinema e praça de alimentação está parado há quatro anos — Hang atribui o impasse ao Instituto Água e Terra e a promotores públicos que, em suas palavras, não deixam o Brasil crescer. Em Joinville, três projetos não saíram do papel. Em setembro de 2022, a inauguração de uma unidade em Natal foi embargada pelo Corpo de Bombeiros na véspera da abertura, decisão que Hang atribuiu a perseguição política do governo estadual. A capital paulista, maior mercado consumidor do país com quase 12 milhões de habitantes, segue sem uma única loja Havan — Hang aponta a burocracia municipal como culpada. No estado de São Paulo, há 36 unidades, todas fora da capital.

Se a burocracia é um obstáculo crônico, a carga tributária é o peso que esmaga as margens. Em 2024, a Havan pagou R$ 4 bilhões em tributos. Em 2025, cerca de R$ 5 bilhões. Para 2026, Hang projeta um total próximo de R$ 6 bilhões em impostos e benefícios — uma cifra que supera o lucro líquido esperado da empresa. Hang afirma que a rede recolhe hoje cerca de 30% do faturamento em tributos, e que o imposto é seu maior gasto, superior tanto ao lucro quanto aos gastos com fornecedores. O Brasil está em processo de reforma tributária, com a implementação de um novo sistema de IVA começando em agosto de 2026. Estudos setoriais estimam que o IVA brasileiro ficará entre 26,5% e 28%, uma das alíquotas mais altas do mundo — acima da média da OCDE, de 19%, e da União Europeia, de 21%. Para o varejo de departamentos, que opera com margem líquida entre 9% e 10%, cada ponto percentual é decisivo.

Em maio de 2026, o governo Lula editou uma medida provisória zerando o Imposto de Importação sobre compras internacionais de até US$ 50 feitas por pessoas físicas em plataformas estrangeiras. Hang reagiu publicamente, argumentando que a carga tributária sobre sua operação nacional pode chegar a 120%, enquanto produtos chineses entram com tarifa zero. A disputa é desigual, disse ele: se o imposto é zero para o estrangeiro, por que não é zero para o brasileiro também?

O ano de 2026 encontrou o varejo brasileiro em crise. A Casas Bahia negocia uma dívida de R$ 17,3 bilhões e encerrou 298 lojas. A Marisa fechou unidades. Renner e Riachuelo reduziram suas projeções de crescimento. Segundo Hang, o varejo brasileiro já está na UTI e o destino é a morte se não houver correção na assimetria tributária com produtos importados. A Havan, porém, segue no caminho oposto. Planeja 15 novas unidades para o ano e investimento de R$ 1,2 bilhão em expansão. Um relatório do Banco Safra aponta que a rede mantém margens acima da média do setor, desempenho atribuído pelos analistas ao mix de produtos e ao modelo de megaloja.

Aos 63 anos, Hang ainda acredita que é possível ter sucesso ao empreender no Brasil, apesar da alta carga tributária, da burocracia e dos demais impasses. Sua próxima meta, após bater 200 unidades, é chegar a 300, com foco em cidades médias e regionais. Ele afirma que a empresa já tem cerca de 20 terrenos comprados para novas unidades e que a intenção é continuar a expansão sem parar. O Nordeste e o Norte, historicamente sub-representados no mapa da rede, entram como zonas prioritárias. A companhia recusa propostas para levar o modelo ao exterior, mantendo seu foco no Brasil. A sucessão da empresa — familiar, de capital fechado, com dois dos três filhos já na operação — é um dos temas que o fundador menos discute publicamente. Enquanto isso, na sala de 45 metros quadrados da avenida Primeiro de Maio em Brusque, onde tudo começou, funciona uma nova loja Havan.

Nosso problema maior não é comprar o terreno, não é fazer loja, é o licenciamento em algumas cidades. A burocracia é uma coisa que nos cansa.
— Luciano Hang, em entrevista à Rádio Menina
Se o imposto é zero para o estrangeiro, queremos imposto zero para o brasileiro também.
— Luciano Hang, reagindo à isenção de importação para compras internacionais de até US$ 50
Contattaci Domande frequenti