Em cada eleição, a pergunta mais silenciosa não é quem vence, mas o que cada cidadão consegue enxergar antes de decidir. Nas redes sociais, algoritmos invisíveis constroem realidades políticas personalizadas a partir do comportamento de cada usuário — curtidas, buscas, segundos de atenção —, criando bolhas informativas que moldam percepções sem que o eleitor perceba o mecanismo em ação. Às vésperas das eleições de 2026, a ausência de transparência nesses sistemas levanta uma questão fundamental sobre a qualidade da democracia digital: se cada pessoa vê uma versão diferente da realidade polític
Como algoritmos personalizam conteúdo político nas redes sociais
Você acha que está vendo a realidade, mas está vendo uma versão filtrada
Por que duas pessoas vendo a mesma rede social veem coisas completamente diferentes?
Porque o algoritmo aprende quem você é através de tudo o que você faz. Se você clica mais em um candidato, vê mais dele. É como se cada pessoa tivesse uma internet personalizada.
Mas isso não é só conveniência? Não é bom receber conteúdo que nos interessa?
É e não é. Sim, é conveniente. Mas o problema é que você não sabe que está sendo observado, e não sabe quais vieses estão sendo aplicados. Você acha que está vendo a realidade, mas está vendo uma versão filtrada.
Os algoritmos decidem quem ganha uma eleição?
Não, não decidem. Mas influenciam enormemente quais informações chegam a você. E informação é poder. Se você só vê um lado da história, sua decisão já está meio tomada.
E quanto ao impulsionamento? Isso é diferente?
Completamente. No impulsionamento, alguém paga para que sua mensagem chegue a pessoas que talvez não se interessassem naturalmente. É uma forma de forçar a barra.
Existe alguma proteção para o eleitor?
Existe, mas é fraca. O TSE tem regras sobre transparência e proíbe propaganda negativa patrocinada. Mas a transparência real dos algoritmos ainda é um mistério. Ninguém sabe exatamente como funcionam.
O que mudaria se houvesse mais transparência?
Se soubéssemos como os algoritmos funcionam, poderíamos exigir que mostrassem múltiplas perspectivas. Em vez de uma bolha, você veria pelo menos duas ou três visões diferentes. Seria mais democrático.
El Pulso
- Algoritmos das principais plataformas rastreiam cada gesto digital do usuário — tempo de visualização, curtidas, compartilhamentos — para entregar um fluxo político personalizado que se retroalimenta continuamente.
- A falta de transparência é o ponto mais crítico: eleitores não sabem que estão sendo observados, nem compreendem quais vieses orientam o que aparece em suas telas.
- O impulsionamento pago permite que candidatos contornem o próprio algoritmo orgânico, garantindo que mensagens cheguem a públicos definidos — mas as regras do TSE restringem essa prática ao período oficial de campanha e proíbem propaganda negativa patrocinada.
- O risco concreto para 2026 é que cada eleitor chegue às urnas tendo visto apenas uma versão da disputa política, sem saber que outras perspectivas existiam e foram filtradas antes de chegar a ele.
Em cada eleição, a pergunta mais silenciosa não é quem vence, mas o que cada cidadão consegue enxergar antes de decidir. Nas redes sociais, algoritmos invisíveis constroem realidades políticas personalizadas a partir do comportamento de cada usuário — curtidas, buscas, segundos de atenção —, criando bolhas informativas que moldam percepções sem que o eleitor perceba o mecanismo em ação. Às vésperas das eleições de 2026, a ausência de transparência nesses sistemas levanta uma questão fundamental sobre a qualidade da democracia digital: se cada pessoa vê uma versão diferente da realidade política, em que terreno comum se constrói o voto?
Numa manhã de campanha, você abre o Instagram e encontra um candidato. Horas depois, ele reaparece no Facebook. À noite, está no TikTok. Nada disso é acaso — é o algoritmo funcionando como um vendedor que memorizou seus hábitos e sabe exatamente o que colocar na sua frente.
O mecanismo é simples na lógica, mas sofisticado na execução: cada curtida, cada segundo assistindo a um vídeo, cada busca dentro da plataforma alimenta um perfil. Quando o sistema identifica que você interage mais com determinado candidato, passa a mostrar mais conteúdo dele. Quando uma publicação ganha tração, o algoritmo a amplifica para ainda mais pessoas — um ciclo que se alimenta a si mesmo.
A advogada Patrícia Peck, especialista em direito digital, aponta o problema central: deveria ser muito mais claro qual abordagem o algoritmo está usando e se há viés na entrega da informação. A maioria dos usuários simplesmente não sabe que está sendo observada dessa forma.
Além do algoritmo orgânico, existe o impulsionamento pago — quando candidatos e partidos pagam para que conteúdos cheguem a públicos específicos, independentemente do interesse prévio do usuário. O TSE regula essa prática: ela só é permitida no período oficial de campanha, propaganda negativa não pode ser patrocinada e empresas estão proibidas de impulsionar conteúdo eleitoral.
O horizonte para 2026 aponta para uma disputa que ocorre em duas camadas: a visível, das urnas, e a invisível, dos feeds. Garantir que cada eleitor acesse ao menos duas ou três perspectivas diferentes sobre um mesmo tema — em vez de apenas a que o algoritmo escolheu para ele — pode ser tão decisivo quanto qualquer debate público.
Você abre o Instagram numa manhã de campanha eleitoral e encontra um vídeo de um candidato. Meia hora depois, no Facebook, aparece outro conteúdo do mesmo político. À noite, no TikTok, lá está ele novamente. Nada disso é coincidência. Por trás de cada uma dessas aparições está um sistema invisível que trabalha para você — ou melhor, que trabalha com informações sobre você.
Esse sistema é o algoritmo, e ele funciona como um vendedor atento numa loja. Observa onde você para, quais produtos pega, quanto tempo gasta analisando cada coisa, o que devolve às prateleiras. Na próxima visita, esse vendedor já sabe exatamente o que você quer ver. Nas redes sociais, o mecanismo é semelhante, mas muito mais sofisticado. O algoritmo rastreia o tempo que você passa assistindo a um vídeo, quais publicações você curte, o que compartilha, quais perfis segue, até mesmo as buscas que faz dentro da plataforma. Cada interação é um dado. Cada dado alimenta a máquina.
Se você interage mais com publicações de um candidato do que de outro, a plataforma naturalmente começará a mostrar mais conteúdo do primeiro. Mas há mais. Quando o sistema identifica que uma publicação tem potencial para interessar a muitas pessoas, ele a recomenda para um número cada vez maior de usuários, aumentando as chances de o conteúdo viralizar. É um ciclo que se alimenta a si mesmo.
A crítica mais contundente a esses sistemas é a falta de transparência. Patrícia Peck, advogada especializada em direito digital, afirma que deveria ser muito mais claro qual tipo de abordagem o algoritmo está usando e se existe algum viés no momento da entrega da informação. O problema é que a maioria dos usuários não sabe que está sendo observada dessa forma, nem compreende como as escolhas que faz online moldam o que vê depois.
Os algoritmos não elegem governantes — isso é importante deixar claro. Mas têm grande poder de influenciar quais informações chegam ao eleitor. Essa influência ocorre porque o algoritmo consegue encontrar as pessoas no ambiente digital com muito mais facilidade do que humanos conseguem no mundo presencial. É uma vantagem de escala e velocidade que nenhuma campanha tradicional pode igualar.
Existe também o impulsionamento, quando há pagamento direto para que um post seja exibido a mais pessoas. Partidos e candidatos podem pagar para promover conteúdos nas redes sociais, mas apenas durante o período oficial de campanha, e a propaganda patrocinada deve seguir as regras de transparência estabelecidas pelo TSE. É proibido impulsionar propaganda negativa — críticas a adversários não podem ser patrocinadas para alcançar um público maior. Além disso, empresas e pessoas jurídicas não podem impulsionar conteúdo eleitoral.
A diferença entre o algoritmo orgânico e o conteúdo impulsionado é fundamental. O primeiro costuma privilegiar publicações com maior engajamento, como curtidas e comentários. O segundo é entregue ao público definido pelo anunciante, independentemente do interesse prévio ou da interação com a postagem. É uma forma de contornar o próprio algoritmo, de garantir que uma mensagem chegue a quem o anunciante quer, não a quem o algoritmo acha que se interessaria.
O desafio agora é conquistar um padrão mínimo de transparência no ambiente das plataformas. Se essa calibragem melhorasse, seria possível garantir que cada pessoa visse pelo menos duas ou três visões diferentes de um tema, em vez de apenas uma. Nas eleições de 2026, essa questão será central: não apenas quem vota, mas o que cada eleitor vê antes de votar.
Citas Notables
Deveria ser muito mais claro qual o tipo de abordagem o algoritmo está usando e se existe algum tipo de viés no momento da entrega da informação— Patrícia Peck, advogada especializada em direito digital
Se nós melhorássemos essa calibragem, nós podíamos estar garantindo que a pessoa visse pelo menos duas, três visões, em vez de apenas uma— Patrícia Peck