No cruzamento entre protecionismo seletivo e competitividade global, a Colep Packaging confronta uma questão que transcende a sua própria sobrevivência: quando as regras do jogo favorecem sistematicamente quem está fora, a lealdade geográfica torna-se um luxo que a racionalidade económica não pode sustentar. Paulo Sousa, o seu CEO, não anuncia uma fuga — anuncia um estudo, uma vigilância, a consciência de que Turquia, Egito e China existem no mapa e que Bruxelas ainda tem tempo, mas pouco, para demonstrar que protege toda a cadeia industrial e não apenas as suas aciarias.
Colep admite estudar deslocalização de produção perante guerra tarifária
Não podemos ser infantis ao ponto de não olharmos para isso
Quando diz que estão a estudar a deslocalização, está a falar de uma mudança completa da fábrica ou de partes da produção?
Seria uma análise de onde faria sentido instalar novas operações ou expandir as existentes. Não é necessariamente abandonar a Europa, mas sim ter capacidade produtiva noutros mercados que permitisse contornar as tarifas.
E a fábrica no México que vocês têm — é um exemplo disso?
Não, essa foi criada por necessidade de mercado. Noventa por cento da produção vai para a América Central. Mas sim, existem outras oportunidades que poderiam fazer sentido, particularmente ao nível europeu.
Particularmente ao nível europeu? Isso significa que estão a pensar em deslocar-se para fora da Europa mas continuar a servir o mercado europeu?
Exatamente. Se as tarifas se mantiverem e se a Europa continuar a permitir que produtos semi-acabados entrem sem tarifas, faria sentido produzir onde a matéria-prima é mais barata e depois exportar para cá.
Mas isso não é apenas uma questão de custos. É uma questão de que a Europa está a punir a sua própria indústria transformadora.
Precisamente. A Europa protege o aço bruto mas deixa entrar embalagens vazias, máquinas, peças — tudo com aço incorporado — sem tarifas. Enquanto isso, um produtor europeu paga tarifas pela matéria-prima. É uma contradição.
Então a solução seria a Europa proteger toda a cadeia, não apenas a matéria-prima?
Sim. Ou isso, ou investir massivamente em tornar a indústria europeia tão competitiva que não precise de proteção. Mas isso levaria tempo e dinheiro que neste momento não está a ser disponibilizado.
E enquanto isso, empresas como a Colep têm de decidir se ficam ou se vão.
Exatamente. Não é uma decisão que se toma de ânimo leve, mas também não é uma que se pode ignorar. Temos de ser realistas sobre o ambiente em que operamos.
O Pulso
- A guerra tarifária global está a apertar a Colep num paradoxo cruel: a Europa protege o aço bruto, mas deixa entrar embalagens acabadas de fora sem as mesmas barreiras, penalizando quem transforma dentro do continente.
- Os preços das embalagens podem subir entre 7% e 30% em 2026, tornando a produção europeia progressivamente inviável face a concorrentes turcos, egípcios ou chineses que acedem a matéria-prima mais barata.
- A Colep estuda ativamente mercados alternativos para deslocalização — não como provocação, mas como resposta racional a um sistema que o seu CEO considera fundamentalmente quebrado e injusto para a indústria transformadora.
- A 27 de janeiro votam-se as regulamentações finais nas comissões europeias — uma janela estreita em que Bruxelas pode ainda corrigir o erro que os EUA cometeram há uma década e que entretanto reconheceram e reverteram.
- O peso burocrático do mecanismo de ajuste de carbono transfronteiriço recai sobre as empresas europeias importadoras, custando-lhes milhões em reporte enquanto os concorrentes externos operam sem esse fardo.
No cruzamento entre protecionismo seletivo e competitividade global, a Colep Packaging confronta uma questão que transcende a sua própria sobrevivência: quando as regras do jogo favorecem sistematicamente quem está fora, a lealdade geográfica torna-se um luxo que a racionalidade económica não pode sustentar. Paulo Sousa, o seu CEO, não anuncia uma fuga — anuncia um estudo, uma vigilância, a consciência de que Turquia, Egito e China existem no mapa e que Bruxelas ainda tem tempo, mas pouco, para demonstrar que protege toda a cadeia industrial e não apenas as suas aciarias.
Paulo Sousa, presidente executivo da Colep Packaging, não hesita quando confrontado com a questão: a empresa está a estudar a possibilidade de deslocar produção para fora da Europa. Não é um plano imediato, mas é um plano real. "Não podemos ser infantis ao ponto de não olharmos para isso", afirmou numa entrevista ao podcast ECO dos Fundos.
O pano de fundo é a guerra tarifária que está a redesenhar o comércio global. Os EUA impuseram tarifas de 50% sobre metalomecânica e ameaçam acrescentar mais 10% por razões geopolíticas. A Europa responde com protecionismo próprio — mas de forma que Sousa considera contraproducente. As estimativas apontam para aumentos de preço entre 7% e 30% nas embalagens em 2026, consoante o material.
A distorção é concreta e perversa: uma embalagem vazia pode entrar na Europa sem tarifas, mas a matéria-prima que a compõe está protegida. Um produtor turco ou chinês compra aço barato no mercado internacional, fabrica a embalagem e vende-a na Europa sem pagar o que um produtor europeu paga pela mesma matéria-prima. Turquia, Egito, China e outras regiões asiáticas surgem assim como destinos naturais para uma eventual deslocalização.
Sousa vê nisto um erro histórico que a Europa está a repetir. Quando os EUA protegeram apenas as aciarias, estas deixaram de investir e perderam competitividade — o aço continuou a ser importado. Os EUA entretanto corrigiram o tiro, passando a proteger toda a cadeia de valor. A Europa ainda não aprendeu a lição.
A isto soma-se o peso regulatório da agenda de sustentabilidade europeia. O mecanismo de ajuste de carbono transfronteiriço, concebido para igualar condições, acabou por transferir milhões em burocracia de verificação e reporte para as empresas europeias, enquanto os concorrentes externos operam sem esse encargo.
As regulamentações finais serão votadas a 27 de janeiro. Sousa espera bom senso de Bruxelas — que a Europa defenda não apenas as aciarias, mas toda a cadeia de transformação. Se isso não acontecer, a deslocalização deixa de ser hipótese e torna-se inevitabilidade. Não é uma ameaça retórica. É um plano B estudado com seriedade crescente.
Paulo Sousa, presidente executivo da Colep Packaging, não foge à pergunta direta: sim, a empresa está a estudar a possibilidade de deslocar a produção para fora da Europa. Mas ele é claro sobre o timing. "Não podemos ser infantis ao ponto de não olharmos para isso", disse numa entrevista ao podcast ECO dos Fundos. "Não está nos nossos planos imediatos, mas sim, estudamos as possibilidades."
O contexto é a guerra tarifária que está a reconfigurar o comércio global. Os Estados Unidos impuseram tarifas de 50% sobre importações de metalomecânica e agora ameaçam adicionar mais 10% por razões geopolíticas. A Europa, por sua vez, está a tentar proteger as suas indústrias, mas de forma que Sousa considera contraproducente. A Colep, que fabrica embalagens e é altamente exportadora, sente o aperto. As estimativas apontam para aumentos de preço entre 7% e 30% nas embalagens em 2026, dependendo do material.
Se a Colep decidisse deslocar produção, os mercados mais óbvios seriam qualquer lugar fora da Europa. Turquia e Egito estão próximos e já têm indústrias de embalagem robustas. China e outras regiões asiáticas são igualmente possíveis. A lógica é simples: produzir onde a matéria-prima é mais barata e depois exportar para a Europa sem pagar as tarifas que agora penalizam as importações de aço e alumínio brutos. É uma resposta racional a um sistema que Sousa vê como fundamentalmente quebrado.
O problema, na sua visão, é que a Europa está a repetir um erro que os Estados Unidos cometeram há uma década. Protegem as aciarias, mas esquecem-se de proteger toda a cadeia de valor — as empresas que transformam o aço em produtos acabados. Quando os EUA fizeram isto, as aciarias americanas deixaram de investir, perderam competitividade, e o resultado foi que continuaram a importar aço de fora. Agora, diz Sousa, os EUA corrigiram o tiro e protegem toda a cadeia. A Europa ainda não aprendeu a lição.
O impacto é concreto. Uma lata de tomate é cerca de 50% a 60% matéria-prima e o resto é transformação. Uma embalagem vazia pode entrar na Europa sem tarifas, mas a matéria-prima que a compõe está protegida. Isto significa que um produtor turco ou chinês pode comprar aço barato no mercado internacional, incorporá-lo numa embalagem, e vender essa embalagem na Europa sem pagar as mesmas tarifas que um produtor europeu paga pela matéria-prima. É uma distorção que favorece quem está fora.
Sousa critica também o peso regulatório que a Europa impôs a si mesma. O continente decidiu ser a "Califórnia do mundo" em matéria de sustentabilidade, comprometendo-se a reduzir a pegada de carbono até 2030 enquanto outros apenas fazem o melhor que podem. Isto criou urgência, normativas, burocracia. Em dezembro de 2025, novas regras entraram em vigor para o setor de embalagens. O mecanismo de ajuste de carbono transfronteiriço, supostamente para igualar as condições, acabou por transferir o ónus de verificação e reporte para as empresas europeias importadoras — milhões de euros gastos em burocracia enquanto os concorrentes externos não têm o mesmo peso.
O que Sousa espera é bom senso em Bruxelas. As regulamentações finais serão votadas a 27 de janeiro nas comissões e depois no Parlamento. Ele acredita que ainda há tempo para a Europa defender melhor a sua indústria — não apenas a matéria-prima, mas toda a cadeia de transformação. Se isso não acontecer, empresas como a Colep vão fazer o que qualquer negócio racional faria: procurar outros mercados onde possam ser competitivas. A deslocalização não é uma ameaça retórica. É um plano B que está a ser estudado com seriedade.
Citações Notáveis
Não está nos nossos planos imediatos, mas sim, estudamos as possibilidades, até porque toda esta situação a nível de trade na Europa ainda não está completamente definida.— Paulo Sousa, CEO da Colep Packaging
A Europa tentou fazer isso via sustentabilidade, queria ser a Califórnia do mundo. O grande problema é que os compromissos que existem dos diferentes grupos económicos internacionais não são os mesmos.— Paulo Sousa, CEO da Colep Packaging