Empresa investe em inovação durante crise agrícola, enviando equipes para China e Índia para buscar soluções aplicáveis à manufatura brasileira de máquinas agrícolas. CNH implementa cobots em linhas de solda e modelos preditivos com IA para reduzir inventários, demonstrando que corte de custos e inovação não são contraditórios.
CNH mantém inovação em crise e é eleita a mais inovadora do Brasil
Justamente agora é o momento perfeito para inovação
Como uma empresa consegue manter investimento em inovação quando o mercado principal está em crise?
A CNH viu a crise não como sinal para parar, mas como o momento exato para começar. Quando há dinheiro abundante, a pressão diminui e a necessidade de inovar perde força. Na crise, você ou morre ou encontra um jeito melhor de fazer as coisas.
Mas enviar pessoas para China e Índia durante uma crise agrícola não parece contraditório?
Parece, mas não é. Eles não estavam buscando tecnologia de ponta. Estavam buscando soluções que funcionassem no mundo real, em contextos diferentes, que pudessem ser adaptadas. Seis meses depois, tinham cobots em produção.
Por que cobots e não robôs completos?
Porque máquinas agrícolas são maiores, mais complexas e têm volumes menores de produção que automóveis. Automação total não faz sentido. Mas um assistente robótico que cuida do repetitivo e deixa o humano fazer o que só humano faz bem? Isso funciona.
O Comitê de Inovação parece burocrático. Como não vira um freio?
Porque as perguntas são simples e as respostas são rápidas. Não é um processo anual. É contínuo. E quando um projeto não cabe no orçamento de uma área, o comitê pergunta se outras áreas podem acomodar. Ideias não morrem por falta de espaço no plano.
Qual foi o resultado mais surpreendente?
A IA para processamento de documentos de crédito. Reduziu custos em 90%. Mas o mais importante foi que o time global viu aquilo e percebeu que algo diferente estava acontecendo na América Latina. A inovação começou a fluir de baixo para cima, não de cima para baixo.
Isso é sustentável? Ou é apenas uma resposta à crise?
Miotto diz que quando o setor voltar a crescer, a CNH vai colher o fruto daquela melhora. Mas a estrutura — o comitê, a cultura, a descentralização — isso fica. Virou parte de como a empresa funciona.
The Pulse
- CNH eleita mais inovadora do Brasil em pesquisa Valor Inovação Brasil 2026
- Equipe de dez pessoas enviada para China, Índia e Leste Europeu durante crise
- Primeira linha de solda com cobots inaugurada seis meses após viagens
- IA para processamento de documentos reduziu custos de crédito em 90%
- Comitê de Inovação funciona desde 2018 com aprovação contínua de projetos
Empresa investe em inovação durante crise agrícola, enviando equipes para China e Índia para buscar soluções aplicáveis à manufatura brasileira de máquinas agrícolas. CNH implementa cobots em linhas de solda e modelos preditivos com IA para reduzir inventários, demonstrando que corte de custos e inovação não são contraditórios.
CNH conquista primeiro lugar em pesquisa de inovação ao transformar crise do agronegócio em oportunidade, desenvolvendo soluções de eficiência permanente através de estrutura descentralizada e comitê de governança.
Rafael Miotto, presidente da CNH na América Latina, observa o setor agrícola enfrentando sua pior crise em duas décadas. A volatilidade é tanta que mudanças significativas ocorrem a cada mês — um padrão que nunca havia se repetido dessa forma. Ainda assim, quando a empresa foi avaliada pela pesquisa Valor Inovação Brasil 2026, conquistou o primeiro lugar. A turbulência não freou a inovação. Transformou-a em desafio.
Em momentos de contração, muitas empresas fazem o óbvio: cortam custos, enxugam operações, reduzem despesas. A CNH escolheu outro caminho. Enquanto o mercado se retraía, a empresa mandou um grupo de dez pessoas da manufatura para a China, Índia e Leste Europeu. O objetivo era simples: buscar em empresas de outros setores e em países menos conhecidos pela inovação industrial ideias que pudessem ser aplicadas à fabricação de máquinas agrícolas no Brasil. Seis meses depois dessas viagens, a CNH inaugurou sua primeira linha de solda com auxílio de cobots — assistentes robóticos que não possuem a sofisticação dos humanoides apresentados em grandes eventos de tecnologia, mas que trazem ganhos reais de qualidade e produtividade a um custo relativamente baixo.
A escolha pelos cobots reflete uma compreensão clara do desafio. Máquinas agrícolas são maiores, mais complexas e mais diversas que automóveis, com volumes de produção menores. Em vez de buscar automação total em um componente grande, a CNH criou assistentes para seus soldadores. No projeto-piloto, cada funcionário pode programar seu próprio cobot. A máquina cuida das atividades repetitivas ou que exigem precisão extrema. O humano aproveita sua versatilidade. Simultaneamente, a empresa eliminou planilhas preenchidas à mão em seu processo de planejamento de vendas e operações, adotando modelos preditivos com inteligência artificial para reduzir inventários e melhorar o fluxo de caixa — mudanças que precisam ser implementadas enquanto a máquina ainda gira mais devagar, não quando o mercado está aquecido.
Miotto argumenta que a volatilidade do campo não é anomalia, mas regra do jogo. O agronegócio brasileiro navega entre abundância e escassez. Quando o mercado está muito bom, existe dinheiro abundante e pressão diminui. A necessidade — mãe das invenções — perde força. Na crise, o risco é diferente: se a empresa relaxa, perde ritmo e não aproveita a retomada. Justamente agora, diz ele, é o momento perfeito para inovação.
Nas reuniões de liderança da CNH, dois assuntos sempre aparecem: a entrega de hoje e o plano estratégico de amanhã. Foco, prioridade e execução no curto prazo garantem a saúde da empresa e recursos para inovar. Mas o trabalho para o que acontecerá em dois, cinco ou dez anos garante a continuidade do negócio. Essa rotina constante retira a inovação do campo das ideias solitárias e a transforma em processo de curadoria e governança.
Uma das maiores barreiras para inovar durante crise é psicológica. Entrar em modo sobrevivência e focar apenas no indispensável faz parte da natureza humana. Estimular criatividade é obrigação da chefia, diz Miotto. A liderança tem papel forte em preservar inovação e dar tranquilidade mental às pessoas. Desde 2018, a CNH mantém um Comitê de Inovação que analisa propostas através de um grupo de diretores com dedicação parcial e um líder de inovação com dedicação integral e mandato de dois anos. As perguntas são simples: a ideia é boa? Vai trazer retorno direto? Cabe nas prioridades? Cabe no orçamento? Se não cabe, o time financeiro pode acomodar? Outras áreas podem? Qual é o tempo de retorno? Essa metodologia, segundo Miotto, tem funcionado muito bem.
O modelo de aprovação em comitês leva a empresa a avaliar prioridades permanentemente, em vez de esperar o próximo ciclo de planejamento. No passado, a CNH perdeu boas oportunidades porque não cabiam no plano. Existe orçamento formal para inovação, mas é extremamente teórico — ninguém sabe realmente de quanto vai precisar, porque ideias surgem todos os dias, variando de mil reais a um milhão de dólares. Quando o líder de inovação encerra seu mandato e volta à atividade original, é outra pessoa. O mesmo acontece com os pontos focais de inovação em cada área. Você vai colocando isso na corrente sanguínea da companhia.
Essa autonomia descentralizada transformou a unidade brasileira em referência para a corporação global. A CNH América Latina não apenas adapta tecnologias desenvolvidas no hemisfério Norte, mas também exporta metodologias e soluções. Um exemplo veio da área de serviços financeiros: a equipe desenvolveu inteligência artificial para ler e interpretar documentos de clientes, apoiando decisões de crédito. O resultado foi redução de 90% nos custos de processamento. O time global viu aquilo e reconheceu que algo diferente estava acontecendo. Da solda assistida por robôs à IA no crédito, passando por modelos preditivos de demanda, a CNH Brasil mostra que cortar custos com inovação não é paradoxo. Também mostra que é possível envolver a empresa inteira na busca por respostas. Por que o processo funciona? Porque é simples.
Notable Quotes
Em vez de fazer simplesmente um enxugamento de gelo, um corte de custo, a gente está desenvolvendo soluções que vão trazer ganho permanente de eficiência— Rafael Miotto, presidente da CNH na América Latina
Quando o mercado está muito bom, existe dinheiro abundante, mas a pressão diminui. A necessidade, que é a mãe das invenções, perde força— Rafael Miotto