Iniciativa inédita coloca público e compositores diante das mesmas letras para leitura coletiva, análise de recursos literários e discussão sobre contexto e significados. Expansão para funk reflete momento de criminalização do gênero semelhante ao vivido pelo rap, buscando reafirmar legitimidade de manifestações culturais periféricas.
Clube de Leitura do Rap amplia proposta e inclui funk em São Paulo
Quando você tira a música, é forçado a prestar atenção de outro jeito
Por que você achou importante tirar a música da letra? Não é perder algo essencial?
Não, é ganhar clareza. Quando a música sai, o texto fica nu. Você vê cada palavra, cada escolha. Recursos que passam despercebidos na escuta — uma aliteração, uma metáfora — de repente ficam óbvios.
E o artista, quando vê sua própria letra sendo analisada assim, descobre coisas que não sabia que tinha escrito?
Sim. Nerie diz que isso acontece o tempo todo. Uma música que o artista conhece há anos, quando é lida em grupo, revela camadas que ninguém esperava. É como se a letra ganhasse vida de novo.
Por que funk agora? Por que não só rap?
Porque o funk está vivendo o que o rap viveu durante décadas: criminalização, censura, tentativas de apagamento. Trazer MC Hariel para esse espaço é dizer que essas letras também produzem conhecimento, que elas importam.
Mas isso não é tentar conseguir legitimidade de quem já tem poder?
Não. A ideia não é pedir permissão. É colocar a letra em circulação, deixar as pessoas lerem e interpretarem. A legitimidade vem de baixo para cima, não do contrário.
El Pulso
- Três encontros: Parteum (22 de agosto), MC Hariel (16 de setembro), Rico Dalasam (17 de outubro)
- Primeira edição do clube a incluir funk, além de rap
- Mercado editorial brasileiro cresceu 13% entre 2023 e 2025, com mais de 54 mil empresas ativas na cadeia do livro
Iniciativa inédita coloca público e compositores diante das mesmas letras para leitura coletiva, análise de recursos literários e discussão sobre contexto e significados. Expansão para funk reflete momento de criminalização do gênero semelhante ao vivido pelo rap, buscando reafirmar legitimidade de manifestações culturais periféricas.
Clube de Leitura do Rap estreia nova temporada gratuita no Sesc Vila Mariana com participação de artistas como Parteum, MC Hariel e Rico Dalasam, propondo análise de letras de rap e funk como textos literários.
Num clube de leitura convencional, você abre um romance, um livro de contos, talvez uma coletânea de poemas. No Clube de Leitura do Rap, o texto que ocupa a mesa é outro: a letra de uma música. A proposta estreia uma temporada gratuita a partir deste sábado no Sesc Vila Mariana, na Zona Sul de São Paulo, e funciona de um jeito que desafia a forma como normalmente pensamos sobre o que é literatura. O público é convidado a ler, marcar trechos, interpretar composições de rap e, nesta edição inédita, também de funk — tudo ao lado dos próprios artistas que escreveram aquelas palavras.
Os três encontros trazem Parteum em 22 de agosto, MC Hariel em 16 de setembro e Rico Dalasam em 17 de outubro. A iniciativa nasceu de uma ideia simples: quando você tira a música e fica apenas com a letra impressa, você é forçado a prestar atenção de outro jeito. Os recursos literários que passam despercebidos numa escuta casual ganham visibilidade. Nerie Bento, que idealizou o projeto junto com o pesquisador Marco Aurélio e o antropólogo Viny Rodrigues, explica que a experiência de colocar público e compositor diante da mesma letra costuma revelar camadas de significado que ninguém esperava encontrar. Uma música conhecida há anos, quando lida e debatida em grupo, mostra-se diferente.
A ideia germinou numa lembrança da infância de Nerie. Seu tio Ari colocava vinis para tocar e pedia que ela escrevesse sobre as letras. Depois discutiam suas interpretações. Décadas depois, ela decidiu repetir aquela experiência, desta vez com os próprios artistas, transformando-a numa atividade coletiva. O projeto não pretende obter um certificado de legitimidade para o rap junto a setores mais elitizados. A proposta é simples: colocar essas letras em circulação como textos que podem ser lidos, analisados e reinterpretados.
A expansão para o funk marca um ponto de inflexão. MC Hariel, com cerca de 16 milhões de seguidores, é um dos principais nomes da nova geração do funk paulista. Suas letras abordam a vida nas periferias, relações pessoais, ambição, dificuldades e conquistas. A escolha de incluir funk não é casual. Nerie observa que o gênero enfrenta hoje um processo de criminalização muito semelhante ao que o rap vivenciou durante décadas. A disputa passa pela linguagem: a letra do funk tem sido um dos primeiros alvos desse processo. Debates recentes em torno da Lei Anti-Oruam e tentativas de censura à exposição "Funk: Um Grito de Ousadia e Liberdade" exemplificam uma luta que ultrapassa a música e envolve a legitimidade de manifestações culturais periféricas.
Trazer MC Hariel para um projeto como esse é reafirmar que essas letras também produzem conhecimento, abrem discussões, apresentam realidades. Toda manifestação artística tem obras mais ou menos relevantes — isso vale para rap, sertanejo, MPB ou qualquer outro gênero. O problema, segundo Nerie, é que o funk costuma ser julgado como um todo, como se fosse possível aniquilar um ecossistema cultural inteiro com um gesto. O clube chega num momento em que o interesse pela leitura no Brasil está em renovação. Nos últimos anos, comunidades literárias nas redes sociais transformaram o hábito de ler numa experiência compartilhada. O mercado editorial cresceu: segundo a Câmara Brasileira do Livro, o Brasil tinha mais de 54 mil empresas e estabelecimentos ativos ligados à cadeia do livro em 2025, contra 51 mil no ano anterior. Entre 2023 e 2025, o crescimento foi de 13%.
Os encontros funcionam de forma estruturada. Cada edição parte de duas letras escolhidas pela curadoria. Os textos são distribuídos ao público, alguns trechos são destacados, e a leitura coletiva serve como ponto de partida para uma conversa sobre o contexto em que os versos foram escritos, as referências do artista, as escolhas de linguagem e os significados que podem emergir de uma mesma composição. Tanto quem está na plateia quanto os próprios criadores costumam ser surpreendidos pelas interpretações que surgem. É comum descobrir que uma música que você conhece há anos tem outras dimensões quando é lida, debatida e contextualizada. As atividades são gratuitas e não exigem retirada de ingressos, abrindo a experiência para quem quiser participar.
Citas Notables
Quando retiramos a música e ficamos apenas com a letra, somos obrigados a prestar mais atenção à construção do texto. É aí que aparecem os recursos literários que, muitas vezes, passam despercebidos na escuta.— Nerie Bento, idealizadora do projeto
Escolhemos começar pelo funk porque entendemos que ele vive hoje um processo de criminalização muito semelhante ao que o rap enfrentou durante décadas.— Nerie Bento