Claudia Ohana diz que neto sofre bullying por fotos nua e rejeita remake de 'Vamp'

Neto de 14 anos de Claudia Ohana sofre bullying escolar devido às fotos de nudez que a atriz posou na revista Playboy.
Natasha é muito presente ainda, ela é vampira
Ohana explica por que não quer ver a personagem refilmada e por que a mantém viva na memória.
Mark

Por que ela rejeita tão categoricamente a ideia de um remake? Parece uma posição forte.

Mimi

Natasha virou parte da identidade dela. Não é só um papel que fez — é algo que as pessoas não deixam morrer. Quando você cria um personagem que marca tanto, é difícil imaginar outra pessoa naquele lugar.

Luke

Mas a rejeição é dela ou é proteção do legado? Porque ela diz que sentiria ciúmes, o que é uma coisa pessoal, mas também há uma questão de como a indústria funciona — remakes de Pantanal e Vale Tudo já aconteceram.

Mark

E quanto ao bullying do neto? Isso parece ser o ponto mais pesado da conversa.

Mimi

É. Ela posou em 1984 e 2008, e aceitava aquilo como normal na época. Mas agora, 40 anos depois, as fotos ainda circulam e afetam alguém que não escolheu estar nessa situação — o neto dela.

Luke

O que é importante notar é que ela diz que o neto de 20 anos não sofre bullying, mas o de 14 sofre. Então não é só a existência das fotos — é algo sobre o momento em que vivemos, a forma como circulam, talvez as redes sociais. Ela mesma admite não saber bem o que está acontecendo.

Mark

Ela fala sobre mudanças na televisão. O que mudou mesmo?

Mimi

A qualidade técnica melhorou, mas também há menos tolerância para cenas de violência contra mulheres. Em 1995, uma cena de agressão era aplaudida. Hoje seria impensável.

Luke

Mas ela também diz que estamos em regressão ao mesmo tempo. Então não é uma linha reta de progresso — é mais complicado que isso.

Mark

E o teatro? Por que ela se sente mais artista lá?

Mimi

Porque é ao vivo, sem cortes, sem edição. Você não pode fingir que nada aconteceu. É exposição total, mas também é liberdade total.

Luke

E também oferece papéis para mulheres de 63 anos que não sejam avós. Isso é prático, não é só filosofia.

  • A possibilidade de um remake de Vamp desperta em Ohana um ciúme declarado — ela recusa que outra atriz encarne Natasha, personagem que considera única e intransferível.
  • Fotos de nudez posadas décadas atrás voltam a causar dano agora: o neto de 14 anos da atriz enfrenta bullying escolar, uma ferida nova em uma história que ela julgava encerrada.
  • O audiovisual brasileiro ainda relega mulheres acima dos 60 anos a papéis de avó, enquanto Ohana insiste que uma mulher de 63 anos 'anseia por projetos, por um amor, por milhares de conflitos'.
  • No teatro — com três peças em cartaz neste ano e uma turnê pelo Nordeste — ela encontra o palco como espaço de exposição total e de crescimento real como atriz.
  • O Brasil que ela descreve é um país em cura e regressão simultâneas, onde conquistas de grupos marginalizados coexistem com uma 'avalanche querendo voltar'.

Trinta e cinco anos depois de Vamp, Claudia Ohana permanece inseparável da vampira Natasha — não por nostalgia, mas por uma lealdade quase possessiva a uma personagem que a transformou em fenômeno e ainda hoje reverbera nas gerações seguintes, inclusive na vida de um neto de 14 anos que sofre bullying por fotos antigas. A atriz observa o Brasil em movimento contraditório: mulheres, negros e gays avançando enquanto uma corrente regressiva resiste. No teatro, longe do etarismo do audiovisual, ela encontra o espaço onde se sente, enfim, artista de verdade.

Claudia Ohana não quer ver Natasha nas mãos de outra atriz. Trinta e cinco anos após Vamp bater 72 pontos no Ibope e transformá-la em fenômeno nacional, a ideia de um remake a deixa ciumenta. Quando o diretor Jorginho Fernando quis que ela fizesse um papel secundário no musical da novela, em 1991, ela se recusou: era impossível entrar em cena sem ser a protagonista. Levou dois anos de negociação até que, em 2017, ela voltou ao papel ao lado de Ney Latorraca.

Antes de Vamp, Ohana era 'totalmente bicho grilo de cinema'. Depois, as pessoas batiam no vidro do seu apartamento. Ela não se considera nostálgica, mas reconhece que os streamings quebraram o ritual familiar da novela — embora avalie que a qualidade da linguagem televisiva melhorou muito.

As fotos que posou nua para a Playboy — em 1984, ao lado de Sônia Braga, e novamente em 2008 — nunca lhe trouxeram prejuízo profissional, mas hoje chegam como dano colateral inesperado: seu neto de 14 anos sofre bullying na escola por causa delas. O neto mais velho e a filha nunca foram alvo de provocações. 'Não sei se é a personalidade dele ou a época em que estamos vivendo. É muito triste', diz ela.

A atriz lembra que em A Próxima Vítima, em 1995, sua personagem era esfaqueada pelo noivo em cenas que o público aplaudia. Gravar algo assim hoje seria impensável. Ela vê o Brasil num movimento contraditório: mulheres, negros e gays ganhando espaço ao mesmo tempo em que uma corrente regressiva resiste. O etarismo no audiovisual a preocupa — mulheres mais velhas ficam restritas a papéis de avó, quando 'uma mulher de 63 anos também anseia por projetos, por um amor, por milhares de conflitos'.

É no teatro que ela encontra generosidade. Em cartaz em Festa no Arraial — adaptação de Sonho de uma Noite de Verão para a realidade nordestina —, a peça encerra no Rio neste domingo e segue para Fortaleza, Brasília, Teresina e João Pessoa. É a terceira montagem que faz no ano. Após décadas entre o cinema e a televisão, é no palco que se sente artista de verdade: 'Tudo acontece ao vivo, naquele momento. Se um refletor cai, você não pode fingir que não aconteceu.'

Claudia Ohana não quer ver Natasha revivida. Trinta e cinco anos depois que a vampira roqueira conquistou 72 pontos no Ibope e transformou a atriz em fenômeno nacional, a possibilidade de um remake da novela a deixa ciumenta. "Não ia gostar, acho que eu ia ficar com ciúmes da Natasha", diz ela, em entrevista à Folha. A personagem é tão viva na memória coletiva que Ohana recusa a ideia de que alguém mais a interprete. Quando o diretor Jorginho Fernando quis que ela fizesse um papel secundário no musical de Vamp, em 1991, ela se recusou: impossível entrar em cena sem ser a Natasha. Levou dois anos de negociação até que, em 2017, ela voltou ao papel ao lado de Ney Latorraca.

O sucesso de Vamp foi o primeiro momento em que Ohana sentiu a carreira se tornar tangível. Antes, ela era "totalmente bicho grilo de cinema, uma vibe meio MPB". Depois veio a popstar de rock and roll, e as pessoas batiam no vidro de seu apartamento no térreo. Não podia ir para lugar algum. Ela não se considera nostálgica — raramente assiste ao que fez — mas reconhece que os folhetins perderam alcance com os streamings, que quebraram a rotina de reunir a família diante da televisão. Ainda assim, avalia que a qualidade melhorou. "A linguagem da novela está muito melhor. Câmera, luz, interpretação, é outra coisa."

Outra coisa que faria novamente é posar nua para a Playboy. Seria a terceira vez. Posou em 1984, aos 21 anos, quando lançava o filme Erêndira. Lhe ofereceram aparecer em uma edição que seria distribuída apenas nos Estados Unidos, ao lado de Sônia Braga, sua ídola. Não leu o contrato. As fotos acabaram divulgadas aqui também. "Não teria feito se soubesse", conta. Ganhou quase nada — nem a passagem de avião foi paga. Posou novamente em 2008, na capa, com o título "Ela voltou!". "Fiz para ver se as pessoas esqueciam um pouco da outra. E foram fotos lindas, porque as da primeira nem bonitas são."

Ohana não considera que sofreu prejuízo profissional pelas imagens. "Posar na Playboy naquela época era uma coisa muito comum. Sempre fui muito tranquila com a nudez", diz. Mas a exposição impactou a família. Seu neto mais velho, de 20 anos, nunca foi alvo de provocações. Sua filha também não. Agora, porém, seu neto de 14 anos sofre bullying na escola por causa das fotos. "Ninguém mexeu com a minha filha porque posei nua. Nem com meu neto de 20 anos. Agora provocam meu neto de 14 anos. Não sei se é a personalidade dele ou a época em que estamos vivendo. E, como não passei por isso antes, não sei bem mesmo. É muito triste."

Ela observa mudanças profundas na televisão desde seus primeiros trabalhos. Em A Próxima Vítima, em 1995, sua personagem era agredida e esfaqueada pelo noivo após traí-lo, em cenas explícitas. As pessoas aplaudiam. Chamavam-na de cachorra. Foi a primeira vez que brigou com o diretor Jorge Fernando por não querer fazer uma cena. "A gravação me deu muita dor de cabeça, me cansou muito. E sou uma atriz super tranquila, que obedece a tudo o que o diretor manda." Gravar algo parecido hoje seria impensável, mas "era o que o povo brasileiro queria".

Ohana vê o Brasil em um momento contraditório. "A gente está num processo de cura e, ao mesmo tempo, de regressão. As mulheres estão ganhando espaço, os gays estão ganhando espaço, os negros estão ganhando espaço, ao mesmo tempo em que tem uma avalanche querendo voltar." Ela não compreende a violência contra a mulher que persiste. Outro problema que a preocupa é o etarismo. Mulheres mais velhas são pouco contempladas pelas histórias do audiovisual, restritas aos papéis de avós. "Uma mulher de 63 anos também anseia por projetos, por um amor, anseia por milhares de coisas, milhares de conflitos."

O teatro é onde ela encontra generosidade. Está em cartaz em Festa no Arraial, que adapta Sonho de uma Noite de Verão à realidade nordestina. Interpreta uma vilã que persegue o uirapuru até ser transformada pelo sentimento que tentava aprisionar. A peça encerra no Rio neste domingo, mas ganhará datas em Fortaleza, Brasília, Teresina e João Pessoa até 1º de novembro. É a terceira peça que faz este ano. Após começar no cinema aos 15 anos e gravar 40 cenas por dia no auge da televisão, é no tablado que se sente "artista de verdade". "Foi com o teatro que melhorei muito como atriz. Ele te expõe de uma maneira absurda. Tudo acontece ao vivo, naquele momento. Se há um barulho, há um barulho. Se um refletor cai, você não pode fingir que não aconteceu. Ao mesmo tempo, é preciso imaginar."

Não ia gostar, acho que eu ia ficar com ciúmes da Natasha
— Claudia Ohana, sobre a possibilidade de um remake de Vamp
Agora provocam meu neto de 14 anos. Não sei se é a personalidade dele ou a época em que estamos vivendo. É muito triste
— Claudia Ohana, sobre o bullying que o neto sofre na escola
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