Citi prevê inflação surpreendentemente baixa nos emergentes

O que podemos começar a ver é uma inflação surpreendentemente baixa
Economista do Citi desafia consenso e prevê queda mais rápida da inflação nos emergentes nos próximos trimestres.
Mark

Por que você acha que a inflação vai surpreender para baixo, quando tantos analistas ainda veem riscos de persistência?

Mimi

Porque estamos vendo sinais em múltiplas frentes ao mesmo tempo. Commodities caindo, China em deflação, núcleos cedendo em quase todo lugar exceto na América do Sul. Não é uma aposta em um fator só.

Mark

Mas o Brasil e outros emergentes têm juros reais muito altos. Isso não deveria estar controlando a inflação já?

Mimi

Deveria, e está começando a fazer isso. Mas há um desfasamento. Os juros reais altos estão funcionando, só que os núcleos ainda mostram inércia. Acho que isso vai mudar nos próximos trimestres.

Mark

E se a China não sair da deflação? Se continuar pressionando preços para baixo globalmente?

Mimi

Bem, isso seria ainda melhor para a desinflação. Menos pressão de custos vindos da China significa menos inflação importada. O risco seria se a deflação chinesa se tornasse tão severa que prejudicasse o crescimento global.

Mark

Os bancos centrais vão realmente cortar juros se a inflação cair como você prevê?

Mimi

Sim, porque os juros reais estarão historicamente altos. Não faz sentido manter política tão restritiva se a inflação está caindo. Uruguai, Costa Rica e Vietnã já começaram. Brasil, México, Chile devem seguir.

Mark

Qual é o maior risco para seu cenário?

Mimi

Que eu esteja errado sobre a velocidade com que os núcleos vão ceder. Se a inércia inflacionária for maior do que espero, os bancos centrais vão ter que manter juros altos por mais tempo.

  • Juros reais nos emergentes estão em 1,5% — o triplo da média histórica —, criando uma pressão monetária raramente vista nessas economias.
  • Commodities em queda, deflação chinesa e núcleos de inflação cedendo formam uma confluência de forças que pode surpreender os mercados nos próximos trimestres.
  • Lubin desafia diretamente a visão pessimista do presidente do Banco Central brasileiro, Roberto Campos Neto, de que o segundo estágio da desinflação será o mais árduo.
  • Uruguai, Costa Rica e Vietnã já iniciaram flexibilização monetária, sinalizando que Brasil, México e Chile podem estar próximos de seguir o mesmo caminho.
  • O dólar fraco em 2023 — apesar do aperto do Fed — cria um ambiente favorável para fluxos de capital em direção aos emergentes, atraídos pelos juros reais elevados.

Em Londres, às vésperas de uma conferência global sobre mercados emergentes, o economista David Lubin do Citi propôs uma leitura contra o consenso: a inflação nos países em desenvolvimento está prestes a recuar mais do que o esperado, abrindo espaço para que bancos centrais iniciem ciclos de corte de juros. Com juros reais três vezes acima da média histórica e ventos desinflacionários vindos das commodities e da China, Lubin sugere que o segundo estágio da desinflação — temido como o mais difícil — pode ser mais suave do que a sabedoria convencional admite. É um momento em que os números começam a contar uma história diferente da que os mercados antecipavam.

David Lubin, economista-chefe do Citi para mercados emergentes, chegou a Londres com uma tese que contraria o consenso: a inflação nos países em desenvolvimento está prestes a surpreender para baixo, abrindo caminho para ciclos de redução de juros. A conversa acontecia às vésperas da Citi Brasil Equity Conference de junho de 2023, quando o debate sobre desinflação ainda dominava a política monetária global.

O argumento de Lubin parte de um dado revelador: a mediana de juros reais ex-ante nos emergentes está em torno de 1,5%, contra uma média histórica de apenas 0,5% na última década. Brasil, México, Chile e Colômbia operam com taxas excepcionalmente altas pelos padrões históricos — e Uruguai, Costa Rica e Vietnã já haviam iniciado flexibilização, sinalizando que outros poderiam seguir.

Três forças sustentam o otimismo do economista. A queda nos preços de commodities — petróleo, trigo, soja, minério de ferro — pressiona a inflação ao produtor com efeitos que se propagam ao consumidor. A China enfrenta deflação com poder de contágio global. E os núcleos de inflação começam a ceder em diversas regiões, com exceção paradoxal da América do Sul, onde a persistência inflacionária coexiste com juros reais altíssimos.

Lubin discorda da avaliação de Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central brasileiro, de que o segundo estágio da desinflação — levar a inflação de volta à meta — seria o mais difícil. Diante da deflação em commodities, da fraqueza chinesa e dos juros reais historicamente elevados, ele acredita que esse estágio pode ser mais suave do que se imagina. Nas semanas anteriores à entrevista, dados de inflação em economias tão distintas quanto Brasil, Chile, Índia e Hungria vinham surpreendendo para baixo de forma consistente.

Sobre o impacto do aperto monetário nos países desenvolvidos, Lubin oferece uma leitura matizada: em 2023, o Fed seguia subindo juros, mas o dólar estava fraco — um contraste com 2022. Esse ambiente tornava os gestores mais dispostos a alocar capital nos emergentes, atraídos pelas altas taxas reais. Quanto à resiliência do crescimento apesar dos juros elevados, ele aponta fatores como o desempenho excepcional da agropecuária brasileira e a poupança acumulada na pandemia — mas sugere que esse quebra-cabeça tenderia a se resolver nos trimestres seguintes, à medida que a pressão sobre a atividade econômica aumentasse.

David Lubin, economista-chefe do Citi para mercados emergentes, chegou a Londres com uma tese que desafia o consenso: a inflação nos países em desenvolvimento está prestes a surpreender para baixo, abrindo caminho para que os bancos centrais iniciem ciclos de redução de juros nos próximos trimestres. A conversa acontecia antes de sua participação na 15ª edição da Citi Brasil Equity Conference, em junho de 2023, quando o debate sobre desinflação ainda dominava as discussões de política monetária global.

O argumento de Lubin repousa em números que revelam o quão apertada está a política monetária nos emergentes. A mediana de juros reais ex-ante nesses mercados situa-se em torno de 1,5% atualmente, mas a média histórica dos últimos dez anos é de apenas 0,5%. Países como Brasil, México, Chile e Colômbia enfrentam taxas de juros reais excepcionalmente elevadas pelos padrões históricos. Esse cenário já começava a mudar: Uruguai, Costa Rica e Vietnã já haviam iniciado ciclos de flexibilização monetária, sinalizando que outros países poderiam seguir o mesmo caminho.

O economista do Citi identifica três fatores principais que sustentam sua visão otimista. Primeiro, os preços das commodities estão em queda e devem continuar caindo por vários trimestres. Petróleo, gás, trigo, soja, níquel, minério de ferro e milho pressionam para baixo a inflação ao produtor, com efeitos que eventualmente se propagam para os preços ao consumidor. Segundo, a China enfrenta um sério problema deflacionário que tende a influenciar outros países, dado o poder de preço que a economia chinesa exerce globalmente. Terceiro, os núcleos de inflação começam a ceder em muitas regiões, com exceção paradoxal da América do Sul, onde países com juros reais muito altos ainda enfrentam persistência inflacionária nos núcleos.

Lubin responde ao argumento do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, de que a desinflação ocorre em dois estágios—o primeiro mais fácil, o segundo mais desafiador, quando se trata de levar a inflação de volta à meta. O economista discorda dessa avaliação pessimista. Dada a deflação nos preços de commodities, a fraqueza econômica chinesa e as taxas de juros reais historicamente altas, ele acredita que o segundo estágio não será tão difícil quanto se imagina. "O que podemos começar a ver é uma inflação surpreendentemente baixa", afirma.

Essas previsões não surgem apenas de teoria. Nas semanas anteriores à entrevista, números de inflação em diferentes regiões geográficas e tipos de economia—desde exportadores de commodities como Brasil e Chile até exportadores de manufaturados como Índia e Hungria—vinham surpreendendo para baixo. O padrão era consistente: a inflação estava abaixo das expectativas do mercado, independentemente do contexto econômico local.

Quanto aos efeitos das discussões sobre aperto monetário adicional nos países desenvolvidos, Lubin oferece uma perspectiva matizada. Embora teoricamente isso pudesse prejudicar os emergentes, na prática o impacto é menor. Em 2022, quando os Estados Unidos intensificaram o aperto, houve fortalecimento do dólar e instabilidade financeira nos emergentes, mas com intensidade menor do que esperado. Em 2023, a situação era diferente: o Fed continuava aumentando juros, mas o dólar estava fraco. Isso criava um ambiente em que gestores estavam mais dispostos a alocar capital em mercados emergentes, atraídos pelas altas taxas de juros reais que funcionam como um ímã para fluxos de capital.

A resiliência da atividade econômica nos emergentes apesar dos juros altos também merecia explicação. Lubin aponta que em alguns países o clima ajudou—o Brasil teve sorte com um desempenho fantástico da agropecuária no primeiro trimestre. Em outros, a poupança acumulada durante a pandemia sustentou o consumo. Mas ele sugere que o quebra-cabeça de crescimento forte combinado com inflação baixa provavelmente se resolveria sozinho nos trimestres seguintes, à medida que a pressão sobre o crescimento econômico aumentasse.

Vale a pena ser otimista diante da perspectiva de que a persistência inflacionária de medidas mais ligadas à política monetária irá ceder
— David Lubin, economista-chefe do Citi para mercados emergentes
O apetite por risco em emergentes é relativamente frágil, mas não está nem um pouco destruído
— David Lubin
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