Ciro evita ato de Flávio e sinaliza que aliança PSDB-PL fica restrita ao Ceará

A aliança existe, funciona, mas tem fronteiras claras
Ciro e Flávio trabalham juntos no Ceará, mas cada um segue seu próprio caminho nacional.

No Ceará, alianças se constroem com a mesma precisão com que se erguem muros. Ciro Gomes, pré-candidato do PSDB ao governo estadual, recusou comparecer ao evento de Flávio Bolsonaro em Fortaleza — não por acidente, mas como declaração política: a parceria entre PSDB e PL existe para derrotar o PT no estado, e não deve ultrapassar essa fronteira. É a geometria clássica da política brasileira, onde acordos são firmados com uma mão e negados com a outra, cada lado preservando sua identidade para o eleitorado que ainda precisa conquistar.

  • A ausência de Ciro no lançamento das candidaturas do PL cearense foi deliberada — uma recusa calculada para não alimentar a imagem de um bolsonarismo tucano.
  • A aliança PSDB-PL no Ceará já custou caro: gerou uma crise pública entre Flávio e Michelle Bolsonaro, que chegou a criticar o irmão em vídeo antes de deixar a presidência do PL Mulher.
  • O pacto tem lógica clara — bolsonaristas apoiam Ciro ao governo, tucanos respaldam Alcides Fernandes ao Senado — mas a orientação interna é manter agendas separadas e evitar qualquer gesto de alinhamento nacional.
  • Ciro quer ampliar seu eleitorado além da direita; Flávio não quer ser associado a um ex-ministro de Lula — os dois têm razões simétricas para manter distância pública.
  • A estratégia só funciona porque todos os envolvidos compreendem exatamente o que está sendo comunicado: cooperação local, separação nacional.

Ciro Gomes não foi ao evento de Flávio Bolsonaro em Fortaleza na sexta-feira à noite. A assessoria do pré-candidato do PSDB ao governo do Ceará alegou que ele nem estava no estado e que a ocasião era uma atividade do PL. Mas nos bastidores da política cearense, a explicação é outra: a ausência foi deliberada, e o que ela comunica importa mais do que qualquer justificativa oficial.

A aliança entre PSDB e PL no Ceará nasceu de uma necessidade concreta — derrotar o governador Elmano de Freitas, do PT. Os bolsonaristas apoiam Ciro para o governo estadual; os tucanos, em troca, respaldam Alcides Fernandes como pré-candidato ao Senado. É um arranjo de mútuo interesse, mas com fronteiras explícitas: a orientação interna é preservar agendas separadas e evitar qualquer gesto que sugira um alinhamento de alcance nacional.

Essa composição já gerou turbulência. A abertura de espaço para o PSDB desencadeou uma crise entre Flávio e Michelle Bolsonaro, que defendia Priscila Costa, então vereadora do PL, como candidata ao Senado. O impasse terminou com Michelle criticando publicamente o irmão em vídeo e, dias depois, deixando a presidência do PL Mulher. A aliança sobreviveu, mas o custo foi alto.

Os cálculos de cada lado explicam o distanciamento público. Ciro quer ampliar seu eleitorado para além da direita e sabe que uma aproximação visível com Flávio produziria mais danos que benefícios. Já interlocutores do senador afirmam que ele também não pretende explorar eleitoralmente a associação com um ex-ministro de Lula — referência ao período em que Ciro chefiou o Ministério da Integração Nacional no primeiro mandato petista, entre 2003 e 2006. O rompimento entre os dois veio anos depois, aprofundou-se em 2022 e chegou a provocar uma briga com o próprio irmão, o senador Cid Gomes, que migrou do PDT para o PSB.

A cadeira vazia no evento de Fortaleza, portanto, não é apenas uma ausência na agenda. É uma declaração política cuidadosamente calibrada: a aliança existe, funciona, mas tem limites. Cada um segue seu próprio caminho nacional enquanto trabalham juntos no Ceará — e, aparentemente, todos os envolvidos entendem exatamente o que está sendo dito.

Ciro Gomes não estará presente na sexta-feira à noite em Fortaleza. O pré-candidato do PSDB ao governo do Ceará simplesmente não irá ao evento que Flávio Bolsonaro, senador pelo PL e presidenciável, realiza para lançar as candidaturas de seu partido no estado. A ausência é deliberada, e o que ela sinaliza importa mais que a desculpa oficial.

Formalmente, a assessoria de Ciro alega que ele sequer está no Ceará nesta semana e que o evento é uma atividade do PL, não uma ocasião para o PSDB. Mas nos corredores da política cearense, interlocutores contam uma história diferente. A decisão reforça um entendimento compartilhado entre os dois grupos: a aliança entre PSDB e PL fica no Ceará. Não vai além. Nem Ciro nem Flávio têm interesse em transformar um acordo estadual em uma associação política de alcance nacional.

O pacto entre os dois partidos nasceu de uma necessidade concreta: enfrentar o governador Elmano de Freitas, do PT. Os bolsonaristas apoiam Ciro para o governo estadual. Os tucanos, em troca, respaldam Alcides Fernandes, pai do deputado André Fernandes, como pré-candidato ao Senado. É um arranjo de mútuo interesse, mas com limites claros. A orientação interna é preservar agendas separadas, evitar gestos que sugiram um alinhamento mais amplo. Ciro não quer ser visto como bolsonarista. Flávio não quer ser visto como aliado de um ex-ministro de Lula.

Essa tensão já havia explodido antes. A composição no Ceará foi exatamente o ponto de atrito que desencadeou uma crise entre Flávio e Michelle Bolsonaro. A ex-primeira-dama defendia que Priscila Costa, então vereadora do PL, fosse a candidata ao Senado. Ela se opunha à abertura de espaço para o PSDB. O impasse terminou com Michelle criticando publicamente Flávio em um vídeo e, dias depois, deixando a presidência do PL Mulher. A aliança foi mantida, mas o custo foi alto.

Os cálculos eleitorais de ambos os lados explicam por que nenhum deles quer explorar publicamente essa parceria. Ciro procura ampliar seu eleitorado para além da direita, evitar uma identificação com o bolsonarismo nacional. Seus aliados sabem que uma aproximação pública com Flávio produziria mais danos que benefícios. Do outro lado, interlocutores de Flávio afirmam que o senador também não pretende explorar eleitoralmente a associação com o ex-ministro, justamente por seu passado de aliança com o atual presidente.

Esse distanciamento entre Ciro e o governo Lula é recente, mas profundo. Foram aliados por anos. Ciro foi ministro da Integração Nacional no primeiro mandato de Lula, entre 2003 e 2006. O rompimento começou em 2018, quando o ex-governador teria negado o convite para ser vice de Lula e, posteriormente, viajou para Paris no segundo turno entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro. Quatro anos depois, em 2022, Ciro intensificou suas críticas ao governo. Desde então, faz oposição. Essa postura motivou até uma briga com seu irmão, o senador Cid Gomes, que deixou o PDT e migrou para o PSB.

A ausência de Ciro no evento de Fortaleza, portanto, não é apenas um vazio na agenda. É uma declaração política cuidadosamente calibrada. Diz que a aliança existe, que funciona, mas que tem fronteiras. Diz que cada um segue seu próprio caminho nacional enquanto trabalham juntos no Ceará. É o tipo de estratégia que só funciona se todos os envolvidos entendem exatamente o que está sendo comunicado — e, aparentemente, entendem.

A decisão reforça uma estratégia compartilhada pelos dois grupos políticos: manter a aproximação restrita ao cenário cearense
— Interlocutores ouvidos pelo GLOBO
Uma aproximação pública entre Ciro e Flávio produziria mais custos do que benefícios para ambos
— Integrantes das duas campanhas
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que Ciro não pode simplesmente aparecer no evento de Flávio se os dois já são aliados no Ceará?

Model

Porque a aliança é tática, não ideológica. Ciro está tentando construir uma candidatura que não seja identificada com a direita bolsonarista. Se ele aparecer ao lado de Flávio em um grande evento, a mensagem muda. De repente ele é bolsonarista, não apenas alguém que faz um acordo pragmático.

Inventor

E Flávio? Por que ele também não quer essa associação pública?

Model

Flávio tem seu próprio problema. Ciro foi ministro de Lula. Se Flávio explorar muito essa aliança, parece que ele está se aproximando do governo que ele critica. Ambos ganham mais mantendo distância pública.

Inventor

Isso é sustentável? Podem realmente manter uma aliança em segredo?

Model

Não é segredo. Todos sabem que estão juntos no Ceará. É apenas que ninguém fala sobre isso em público, ninguém tira foto junto, ninguém faz discurso conjunto. É invisível.

Inventor

Michelle Bolsonaro entrou em conflito com Flávio por causa dessa aliança, certo?

Model

Sim. Ela queria que o PL tivesse a candidatura ao Senado sozinho, sem abrir espaço para o PSDB. Flávio decidiu fazer a aliança mesmo assim. Michelle criticou publicamente e saiu da presidência do PL Mulher. O custo político foi real.

Inventor

Qual é o verdadeiro objetivo dessa aliança, então?

Model

Derrotar Elmano de Freitas, o governador do PT. Mas cada um quer fazer isso sem se comprometer nacionalmente. Ciro quer ser visto como uma alternativa à esquerda e à direita. Flávio quer manter sua liberdade de ação presidencial. A aliança é apenas um meio para um fim local.

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