Cinco anos após o retorno do Talibã ao poder no Afeganistão, mais de 20 milhões de mulheres e meninas vivem sob um regime de restrições sistemáticas que a própria ONU classifica como apartheid de gênero. O que torna esse momento singular na história não é apenas a brutalidade das mais de 160 normas que apagam as afegãs da vida pública, mas a relativa indiferença com que o mundo tem respondido — contrastando com a pressão internacional que, décadas atrás, contribuiu para derrubar o apartheid racial sul-africano. A humanidade parece estar, lentamente, aprendendo a conviver com o intolerável.
Cinco anos de apartheid contra as afegãs: o mundo aprende a conviver
O mundo está aprendendo a conviver com isso
Como é possível que o mundo tenha reagido tão diferentemente ao apartheid racial sul-africano e ao que está acontecendo com as mulheres afegãs agora?
A diferença está em parte na visibilidade e na pressão econômica. A África do Sul era uma potência econômica global; o Afeganistão é mais periférico nos cálculos geopolíticos. Mas há também uma questão de narrativa — o apartheid racial era visto como uma aberração moderna, enquanto a opressão das mulheres no Afeganistão é frequentemente enquadrada como "cultural" ou "religiosa".
Mas precisamos ser cuidadosos aqui. O texto diz que não há "mobilização política equivalente", mas não quantifica qual seria essa equivalência. Sanções contra a África do Sul foram reais e custosas; o que exatamente faltaria no caso afegão?
Campanhas diplomáticas coordenadas, pressão econômica consistente, isolamento internacional do regime. O que vemos é mais aceitação tácita.
E quanto aos números? Sete em cada dez mulheres com saúde mental ruim — como isso foi medido? É um dado sólido?
É de um relatório da ONU Mulheres de agosto, então tem fonte institucional. Mas o texto não especifica a metodologia, o tamanho da amostra ou quando exatamente foi feito. É um número real, mas com limitações de contexto.
Mesmo assim, o padrão é claro. Mais de 160 decretos, meninas sem acesso à educação além da sexta série, mulheres sem poder trabalhar ou circular livremente. Isso não é interpretação — é política oficial.
O que mudaria se houvesse mobilização internacional?
Talvez nada imediato. O Talibã não responde bem a pressão externa. Mas a normalização que Ahmadi descreve — o mundo aprendendo a conviver — é o que realmente consolida o regime.
E é importante notar que essas mulheres tiveram acesso real a direitos por vinte anos. Não é uma situação abstrata. Elas sabem o que perderam.
Le Pouls
- Vinte anos de conquistas — cadeiras no parlamento, acesso à educação e ao trabalho — foram desmantelados em semanas após a queda de Cabul em agosto de 2021.
- Mais de 160 decretos codificaram a exclusão feminina: meninas proibidas de estudar além da sexta série, mulheres impedidas de trabalhar, circular e até de falar em voz alta em público.
- Sete em cada dez mulheres afegãs relatam saúde mental 'ruim' ou 'muito ruim', revelando o custo humano invisível de uma opressão que opera dia após dia.
- Ao contrário do que ocorreu com o apartheid sul-africano, a comunidade internacional não mobiliza sanções, campanhas ou pressão diplomática de peso equivalente contra o regime Talibã.
- Especialistas alertam que o maior risco não é apenas a opressão em si, mas sua normalização gradual — o momento em que o crime se torna rotina aceita pela ordem internacional.
Cinco anos após o retorno do Talibã ao poder no Afeganistão, mais de 20 milhões de mulheres e meninas vivem sob um regime de restrições sistemáticas que a própria ONU classifica como apartheid de gênero. O que torna esse momento singular na história não é apenas a brutalidade das mais de 160 normas que apagam as afegãs da vida pública, mas a relativa indiferença com que o mundo tem respondido — contrastando com a pressão internacional que, décadas atrás, contribuiu para derrubar o apartheid racial sul-africano. A humanidade parece estar, lentamente, aprendendo a conviver com o intolerável.
Vinte e cinco anos após o 11 de setembro, a data carrega um segundo peso: foi o ponto de inflexão que abriu, e depois fechou, uma janela de liberdade para milhões de mulheres afegãs. A invasão americana que se seguiu ao ataque trouxe consigo duas décadas em que meninas voltaram às salas de aula, mulheres entraram nas universidades e nos tribunais, e 69 das 249 cadeiras do parlamento afegão eram ocupadas por elas. Conquistas reais, construídas dia após dia — mas inteiramente dependentes de uma estrutura que o Estado afegão nunca conseguiu sustentar sozinho.
O colapso veio rápido. Em 2020, a administração Trump negociou a retirada das tropas diretamente com o Talibã, deixando o governo afegão à margem das conversas. Em agosto de 2021, o movimento extremista retomou o poder e, com ele, restaurou o apartheid que havia marcado seu primeiro regime. O que se seguiu foi sistemático: mais de 160 decretos proibindo meninas de estudar além da sexta série, restringindo o trabalho e a circulação feminina, regulamentando roupas e até a voz das mulheres em público. Segundo relatório da ONU Mulheres, sete em cada dez afegãs descrevem sua saúde mental como ruim ou muito ruim.
O que mais chama atenção, porém, é a resposta do mundo. Quando a África do Sul mantinha seu apartheid racial, a comunidade internacional respondeu com sanções, campanhas e pressão diplomática constante até a queda do regime, em 1994. O apartheid sexual que apaga as afegãs da vida pública não recebe mobilização equivalente. A advogada Belquis Ahmadi, escrevendo para o Georgetown Institute for Women, Peace and Security, capturou o cerne do problema: o maior perigo não é apenas a opressão de 20 milhões de mulheres e meninas, mas o fato de o mundo estar, aos poucos, aprendendo a conviver com ela. Quando o intolerável se torna rotina, a desumanização deixa de ser um escândalo e passa a ser, simplesmente, a ordem das coisas.
Vinte e cinco anos se passaram desde o ataque ao World Trade Center, e a data de 11 de setembro continua marcando não apenas uma tragédia — 2.977 mortes em poucas horas — mas também o ponto de inflexão que alteraria o destino de milhões de mulheres do outro lado do mundo. A invasão americana do Afeganistão que se seguiu, justificada pela necessidade de desmantelar a Al Qaeda e remover o Talibã do poder, trouxe consigo algo que poucos esperavam: duas décadas de liberdade relativa para as afegãs.
Durante esses vinte anos, meninas voltaram às salas de aula. Mulheres entraram nas universidades, nos consultórios, nas redações de jornais, nos tribunais. Em 2021, quando o Parlamento afegão ainda funcionava sob a ordem internacional, 69 das 249 cadeiras eram ocupadas por mulheres. Elas trabalhavam, circulavam pelas ruas, participavam da vida política e pública de formas que teriam sido impensáveis uma geração antes. Essas conquistas eram reais, tangíveis, construídas dia após dia por mulheres que aproveitaram a janela aberta pela presença militar estrangeira.
Mas aquela janela dependia inteiramente de uma estrutura que o Estado afegão nunca conseguiu sustentar sozinho. O governo local não tinha força para resistir ao Talibã sem proteção externa. Em 2020, a administração Trump negociou diretamente com o movimento extremista a retirada das tropas americanas, deixando o governo afegão fora das conversas e acelerando seu enfraquecimento. O colapso veio rápido. Em agosto de 2021, o Talibã retomou o poder e, com ele, retornou o apartheid que havia marcado seu primeiro regime.
O que se seguiu foi sistemático e implacável. Mais de 160 decretos foram emitidos. Meninas foram proibidas de estudar além da sexta série. Mulheres tiveram seu trabalho restringido, sua circulação controlada, suas roupas regulamentadas. Até mesmo sua voz foi regulada — afegãs não podem falar alto em público. A desumanização foi codificada em lei. Segundo um relatório da ONU Mulheres de agosto, sete em cada dez mulheres afegãs descrevem sua saúde mental como ruim ou muito ruim. Mais de 20 milhões de mulheres e meninas vivem sob esse regime de opressão sistemática.
O que chama atenção, porém, não é apenas a brutalidade do que ocorre no Afeganistão. É a resposta — ou a falta dela — do resto do mundo. Quando a África do Sul mantinha seu apartheid racial, a comunidade internacional mobilizou-se com campanhas políticas, sanções econômicas, pressão diplomática constante. O regime caiu em 1994, derrubado por uma coalizão de forças internas e externas. Mas o apartheid sexual que desumaniza as mulheres afegãs não recebe mobilização política equivalente. Não há campanhas de mesmo alcance, não há sanções de mesmo peso, não há pressão diplomática de mesma intensidade.
Belquis Ahmadi, advogada especialista em direitos humanos, escreveu em junho para o Georgetown Institute for Women, Peace and Security uma análise que capta o cerne do problema: o maior perigo que o Afeganistão enfrenta não é apenas o fato de 20 milhões de mulheres e meninas estarem sendo sistematicamente apagadas da vida pública. É o fato de o mundo estar, aos poucos, aprendendo a conviver com isso. A normalização da opressão é talvez mais perigosa que a opressão em si, porque transforma o intolerável em rotina, o crime em política, a desumanização em ordem internacional aceita.
Citations marquantes
O maior perigo que o Afeganistão enfrenta hoje não é apenas o fato de 20 milhões de mulheres e meninas estarem sendo sistematicamente apagadas da vida pública. É o fato de o mundo estar, aos poucos, aprendendo a conviver com isso.— Belquis Ahmadi, advogada especialista em direitos humanos, Georgetown Institute for Women, Peace and Security