No coração do Himalaia, uma montanha guardou por décadas o peso silencioso de um terremoto antigo, de geleiras que encolhiam e de um clima que aquecia imperceptivelmente — até que, em agosto, o peso se tornou insuportável. O colapso do Langtang Lirung matou pelo menos 1.300 pessoas e apagou comunidades inteiras na fronteira Nepal-China, revelando não um acidente isolado, mas a convergência de forças humanas e naturais acumuladas ao longo de gerações. Mais de vinte cientistas reuniram-se para nomear o que a montanha já havia respondido: que o aquecimento global não é uma ameaça futura, mas uma
Cientistas revelam cascata de fatores que causou inundações mortais no Nepal e China
Absolutamente fora dos limites da nossa capacidade de adaptação
Como cientistas conseguem determinar que as mudanças climáticas tiveram um papel em um evento específico como esse? Parece difícil separar uma coisa da outra.
Eles usam dados históricos e modelos climáticos para comparar. Basicamente, perguntam: quão quentes teriam sido julho e agosto sem a poluição por combustíveis fósseis? E a resposta é cerca de 1,5 graus Celsius mais fria. Esse calor extra enfraqueceu o permafrost e gerou mais água de degelo.
Mas o relatório ainda não passou por revisão por pares formal, certo? E eles admitem que a ligação entre aquecimento global e aumento de precipitação é menos clara. Então há incerteza aqui.
Verdade. Mas mesmo com essas ressalvas, o consenso entre os 20 especialistas é que o aquecimento desempenhou um papel importante. Não é especulação — é baseado em dados.
E o terremoto de 2015? Isso não teria causado o colapso de qualquer forma, independentemente do clima?
Provavelmente enfraqueceu a montanha, sim. Mas o que os cientistas descobriram é que múltiplos processos atuaram juntos. O terremoto foi o primeiro golpe. O aquecimento global foi o que continuou enfraquecendo a montanha nos anos seguintes.
Então é uma cascata. Cada fator isolado talvez não fosse suficiente, mas juntos criaram as condições perfeitas para o colapso.
Exatamente. E a parte assustadora é que sem reduzir as emissões, as montanhas do Himalaia continuarão aquecendo, o permafrost continuará enfraquecendo, e eventos como esse se repetirão.
Havia alguma forma de prever isso? Algum sistema de alerta que pudesse ter salvado vidas?
Não. Os cientistas foram explícitos: nenhum sistema de alerta precoce existente teria fornecido tempo suficiente. O evento foi tão rápido e tão sem precedentes que simplesmente não havia como se preparar.
Isso é importante notar. Não é uma falha de monitoramento. É um evento que estava fora dos limites do que a tecnologia pode detectar com antecedência.
The Pulse
- Um bloco de gelo e rocha de 600 metros desprendeu-se do Langtang Lirung em 26 de agosto, liberando energia equivalente a um terremoto de magnitude 5,2 e varrendo cidades inteiras em questão de horas.
- Pelo menos 1.300 pessoas morreram e mais de 5.000 continuam desaparecidas, enquanto estradas, pontes e comunidades inteiras foram apagadas do mapa.
- Nenhum sistema de alerta precoce existente teria sido capaz de salvar as pessoas a tempo — a velocidade e a escala do colapso ultrapassaram qualquer capacidade de resposta conhecida.
- Mais de 20 cientistas identificaram uma cascata de fatores interligados: o terremoto de 2015, o enfraquecimento do permafrost, o degelo acelerado e temperaturas regionais 1,5°C acima do normal por causa das mudanças climáticas.
- Pesquisadores alertam que, sem redução urgente das emissões de combustíveis fósseis, desastres dessa magnitude se repetirão inevitavelmente em outras montanhas do Himalaia.
No coração do Himalaia, uma montanha guardou por décadas o peso silencioso de um terremoto antigo, de geleiras que encolhiam e de um clima que aquecia imperceptivelmente — até que, em agosto, o peso se tornou insuportável. O colapso do Langtang Lirung matou pelo menos 1.300 pessoas e apagou comunidades inteiras na fronteira Nepal-China, revelando não um acidente isolado, mas a convergência de forças humanas e naturais acumuladas ao longo de gerações. Mais de vinte cientistas reuniram-se para nomear o que a montanha já havia respondido: que o aquecimento global não é uma ameaça futura, mas uma força que já remodela a paisagem e o destino das pessoas que vivem sob os picos.
No final de agosto, um bloco de gelo e rocha com cerca de 600 metros de largura desprendeu-se do pico Langtang Lirung, no Himalaia, caindo mais de 2.100 metros até o rio abaixo. O impacto equivaleu a um terremoto de magnitude 5,2. A torrente percorreu mais de 30 quilômetros, matando pelo menos 1.300 pessoas, deixando mais de 5.000 desaparecidas e apagando cidades, estradas e pontes. O Nepal e a China enfrentarão anos de reconstrução.
Para entender por que a montanha cedeu, mais de 20 cientistas internacionais conduziram uma análise abrangente. A conclusão foi que nenhum fator isolado causou o desastre — uma série de processos atuou em conjunto, enfraquecendo progressivamente a estrutura do pico até que o colapso se tornou inevitável.
O primeiro fio dessa trama remonta a 2015, quando um terremoto de magnitude 7,8 desencadeou uma avalanche na encosta sul do Langtang Lirung, comprometendo de forma fundamental a estabilidade da montanha. Nas décadas seguintes, as mudanças climáticas aprofundaram o problema: a linha do grau zero subiu mais de 97 metros por década no Himalaia, enfraquecendo o permafrost que funcionava como cola natural nas encostas. A geleira local encolhia consistentemente desde 2010, e a água de degelo infiltrava-se nas fraturas da rocha, minando ainda mais a estabilidade. As temperaturas de julho e agosto na região estavam cerca de 1,5°C acima do que seriam sem a influência humana no clima.
No outono anterior ao desastre, nevadas excepcionais acumularam uma quantidade extraordinária de água que, nos meses mais quentes já registrados na área, derreteu rapidamente e penetrou no permafrost já fragilizado, adicionando peso e pressão decisivos à encosta.
Os cientistas foram diretos: nenhum sistema de alerta precoce existente teria dado tempo suficiente para evacuar as pessoas. A professora Friederike Otto, do Imperial College London, descreveu o evento como "absolutamente fora dos limites da nossa capacidade de adaptação" e advertiu que, sem redução rápida da poluição por combustíveis fósseis, outros desastres dessa magnitude serão inevitáveis. A montanha cedeu uma vez. Sem mudanças significativas, outras cederão também.
No final de agosto, uma montanha no Himalaia fez algo que ninguém havia visto antes. Um bloco de gelo e rocha com aproximadamente 600 metros de largura se desprendeu do pico Langtang Lirung, caindo cerca de 2.100 metros até o rio abaixo. O impacto liberou uma quantidade de energia equivalente a um terremoto de magnitude 5,2. A torrente de gelo, rocha e sedimento percorreu mais de 30 quilômetros rio abaixo em velocidade devastadora, deixando um rastro de destruição que matou pelo menos 1.300 pessoas e deixou mais de 5.000 desaparecidas. Cidades inteiras foram varridas. Estradas e pontes desapareceram. O que restou foi um cenário de reconstrução que o Nepal e a China enfrentarão por anos.
Mas por que a montanha cedeu? Essa pergunta levou mais de 20 cientistas internacionais a trabalhar juntos em uma análise abrangente divulgada esta semana. O que descobriram foi que nenhum fator isolado causou o desastre. Em vez disso, uma série de processos atuou em conjunto, cada um enfraquecendo a montanha um pouco mais, até que o colapso se tornou inevitável.
O primeiro desses processos remonta a 2015. Um terremoto de magnitude 7,8 atingiu a região em abril daquele ano, desencadeando uma avalanche de rochas e gelo na encosta sul do Langtang Lirung. Esse evento inicial pode ter enfraquecido a estrutura da montanha de forma fundamental. Desde então, a região registrou taxas crescentes de deslizamentos de terra, sinalizando que a estabilidade do pico havia sido comprometida.
Mas o terremoto de 2015 foi apenas o começo. Nas décadas seguintes, as mudanças climáticas provocadas pela queima de combustíveis fósseis começaram a trabalhar contra a montanha de múltiplas formas. A linha do "grau zero" — o ponto na atmosfera onde as temperaturas atingem 0 graus Celsius — subiu mais de 97 metros por década no Himalaia. Esse aquecimento enfraqueceu o permafrost nas altas montanhas, aquela mistura de gelo, rocha, areia e solo que funciona como uma cola natural mantendo as encostas coesas. Com o permafrost enfraquecido, mais água conseguiu penetrar nas fraturas da rocha, minando ainda mais a estabilidade.
A geleira Langtang-Lirung sofreu transformações dramáticas. Nas últimas décadas, particularmente após 2010, ela se afinava e encolhia consistentemente. Esse degelo produzia água que se infiltrava nas fraturas da rocha, continuando o processo de enfraquecimento. Ao mesmo tempo, as temperaturas de julho e agosto na região estavam agora cerca de 1,5 graus Celsius mais quentes do que seriam sem as mudanças climáticas induzidas pelo homem. As temperaturas anuais da região subiram 2 graus Celsius, significativamente acima da média global.
No outono anterior ao desastre, a região recebeu quantidades excepcionais de neve em outubro e início de novembro. Quando julho e agosto chegaram — os meses mais quentes já registrados naquela área — a quantidade de água de degelo foi extraordinária. Toda essa água adicional infiltrou-se nas fraturas e no permafrost enfraquecido, adicionando peso e pressão à encosta já comprometida.
Os cientistas foram claros: esse colapso foi fundamentalmente diferente de tudo o que a região havia experimentado. Não apenas em tamanho, mas em velocidade e complexidade. Nenhum sistema de alerta precoce existente teria fornecido tempo suficiente para evacuar as pessoas. Friederike Otto, professora de ciências climáticas do Imperial College London, descreveu o evento como "absolutamente fora dos limites da nossa capacidade de adaptação".
O relatório, ainda não submetido à revisão por pares formal mas baseado em métodos revisados por especialistas, deixa uma conclusão inescapável: as mudanças climáticas induzidas pelo homem desempenharam um papel importante no contexto do desastre. A menos que o mundo reduza rapidamente a poluição por combustíveis fósseis, Otto advertiu, "inevitavelmente veremos mais desastres dessa magnitude". A montanha cedeu uma vez. Sem mudanças significativas, outras montanhas cederão também.
Notable Quotes
Um desastre sem precedentes no Himalaia— Walter Immerzeel, hidrólogo de montanha da Universidade de Utrecht
Não há absolutamente nenhuma dúvida de que as mudanças climáticas induzidas pelo homem desempenharam um papel importante no contexto do desastre— Friederike Otto, professora de ciências climáticas do Imperial College London