O Pinheirão, uma das maiores árvores do Brasil, tombou em fevereiro em floresta experimental em Caçador (SC), descoberto apenas em abril. Cientistas coletaram brotos vivos e já produziram cerca de 50 clones com 100% do DNA da matriz através de técnica de enxertia.
Cientistas clonam araucária gigante de 500 anos que caiu em SC
Séculos de história genética armazenados em madeira
Por que essa árvore em particular merecia uma operação de resgate tão elaborada? Não caem árvores velhas o tempo todo?
Essa não era uma árvore velha qualquer. Tinha entre 400 e 500 anos, mais de 40 metros de altura, e era uma das maiores do país. Mas o ponto real é que existem apenas dezenas delas no Brasil inteiro. Quando uma cai, você perde séculos de história genética e climática.
Espera — quantas dezenas exatamente? O texto diz "poucas dezenas", mas depois lista 49 árvores no total. Isso é realmente raro ou é uma forma de dramatizar?
É raro mesmo. Quando você pensa que a floresta original cobria 200 mil quilômetros quadrados e hoje restam 3%, esses 49 gigantes são o que sobrou. Não é dramatização, é proporção.
E a clonagem vai funcionar? Eles já sabem se os 50 clones vão pegar?
Ainda não. Precisam esperar 100 dias para ver se os enxertos se consolidam. Se funcionarem, terão cópias com 100% do DNA original. Mas é um processo que ainda está em andamento.
Então estamos falando de uma esperança, não de um sucesso confirmado. E mesmo que os clones funcionem, eles vão ter o DNA, mas não vão ter os 500 anos de história que a árvore original tinha.
Verdade. Mas pelo menos preservam o potencial genético. E o disco de madeira que foi retirado vai contar a história climática através dos anéis. Isso é informação que não se perde.
Qual é o próximo passo? Eles vão plantar esses clones em algum lugar?
O texto não especifica, mas o objetivo declarado é conservar o patrimônio genético. Provavelmente vão manter alguns em pesquisa e talvez replantar outros em florestas protegidas.
E quanto às outras 48 árvores gigantes que ainda estão de pé? Elas estão sendo monitoradas ou protegidas de alguma forma?
O texto não diz. Scipioni está mapeando onde elas estão, mas não há informação sobre medidas de proteção específicas.
El Pulso
- Araucária com mais de 40 metros caiu em fevereiro de 2026 em Caçador (SC), descoberta em abril
- Cientistas produziram cerca de 50 clones com 100% do DNA original através de enxertia
- Apenas 49 araucárias gigantes (diâmetro acima de 1,50 m) sobrevivem no Brasil
- Apenas 3% da cobertura florestal original permanece; a floresta original cobria 200 mil km²
O Pinheirão, uma das maiores árvores do Brasil, tombou em fevereiro em floresta experimental em Caçador (SC), descoberto apenas em abril. Cientistas coletaram brotos vivos e já produziram cerca de 50 clones com 100% do DNA da matriz através de técnica de enxertia.
Uma araucária de mais de 40 metros e até 500 anos caiu em Santa Catarina, mobilizando pesquisadores da Embrapa em operação de resgate genético através de clonagem por enxertia.
Uma das maiores árvores do Brasil caiu silenciosamente em uma floresta experimental de Santa Catarina, e ninguém percebeu por dois meses. O Pinheirão, como era conhecido carinhosamente, era uma araucária com mais de 40 metros de altura que ocupava espaço em uma mata compartilhada pela Embrapa Florestas e pela Epagri no município de Caçador. A queda provavelmente ocorreu em fevereiro de 2026, mas só foi descoberta no final de abril, quando equipes faziam manutenção em uma estrada que cortava a floresta. Naquele momento, cientistas compreenderam que tinham uma janela estreita para salvar o que a árvore representava: séculos de história genética e climática armazenados em seu tronco e galhos.
O resgate começou imediatamente. Ivar Wendling, especialista em clonagem e engenheiro florestal da Embrapa, foi ao local e encontrou algo inesperado: quatro meses após a queda, ramos ainda brotavam do tronco caído. Ele coletou material do chão e, em um gesto que revela a determinação da operação, escalou uma araucária vizinha de grande porte para alcançar brotos preservados na copa, a mais de 40 metros do solo. Esse material foi transportado para a sede da Embrapa Florestas na região metropolitana de Curitiba, onde começou o trabalho de preservação genética.
Em estufa, os pesquisadores já produziram cerca de 50 clones usando enxertia, uma técnica que funciona como uma pequena cirurgia vegetal. O ramo coletado do Pinheirão é enxertado em uma muda jovem produzida por semente. Se o enxerto se consolidar após 100 dias, o resultado será uma cópia com 100% do DNA da árvore original. Esse processo garante que as características genéticas de um organismo que viveu entre 400 e 500 anos não desapareçam com sua morte.
Paralelamente, um disco de madeira foi retirado do tronco e enviado ao laboratório no Paraná. Ele passará por secagem lenta e polimento para revelar os anéis de crescimento, que contam a história anual da árvore. Por meio da dendrocronologia — a ciência que lê essas marcas no tronco — os cientistas determinarão a idade exata e reconstruirão o histórico climático da região ao longo dos séculos. Cada anel mais largo representa anos mais quentes e chuvosos; os mais estreitos indicam períodos de seca. É como ler um diário climático escrito em madeira.
O que matou o Pinheirão oferece uma lição sobre a fragilidade dessas árvores gigantes. O encharcamento do solo é o maior inimigo das araucárias centenárias. O excesso de água enfraquece as raízes, e o peso colossal da estrutura faz com que a árvore perca sustentação e caia. Ao longo dos séculos, o centro da madeira apodrece, criando cavidades internas que podem ultrapassar 10 metros de altura — árvores vazias por dentro, mantidas de pé apenas pela casca e pelos anéis externos.
O mapeamento realizado pelo professor Marcelo Scipioni, da Universidade Federal de Santa Catarina, revela a escassez desses gigantes. Uma araucária é considerada gigante quando tem mais de 1,50 metro de diâmetro de tronco. Atualmente, o Brasil possui poucas dezenas de exemplares: 24 em Santa Catarina, 15 no Rio Grande do Sul, 8 no Paraná e 2 em Minas Gerais. A maior araucária do país fica na área rural de São Joaquim, em Santa Catarina, com mais de 3 metros de diâmetro e idade estimada em mais de 600 anos. É praticamente um fóssil vivo.
Essa escassez é resultado direto da devastação histórica. Entre 1900 e 1970, durante o ciclo madeireiro, a araucária foi a árvore mais derrubada do país. Hoje restam apenas 3% da cobertura florestal original, que no passado abrangia 200 mil quilômetros quadrados no Sul do Brasil — uma área equivalente ao dobro do território de Santa Catarina. O Pinheirão, portanto, não era apenas uma árvore. Era um dos últimos tesouros de uma floresta que foi quase completamente apagada. Sua clonagem é um ato de resgate contra o esquecimento.
Citas Notables
Ramos ainda emitiam brotos quatro meses após a queda, surpreendendo os pesquisadores— Ivar Wendling, especialista em clonagem da Embrapa