Debaixo das montanhas do mundo, esconde-se uma herança congelada que a humanidade ainda estava a aprender a ler. Investigadores desenvolveram um modelo de inteligência artificial capaz de mapear, com precisão inédita, os 150 mil quilómetros cúbicos de gelo armazenados nos glaciares globais — excluindo a Gronelândia e a Antártida — revelando que o potencial de subida do nível do mar é de 32,3 centímetros, e que alguns glaciares guardam quase o dobro do gelo que se supunha. A descoberta não é apenas um número: é o ponto de partida para compreender o que está em jogo para os 1,9 mil milhões de pe
Cientistas calculam que degelo de glaciares elevaria oceanos em 32,3 cm
Quando o gelo acaba, a água desaparece
Porque é que saber a espessura exata do gelo importa tanto? Não é suficiente saber que está lá?
Porque a espessura determina quanto tempo o gelo vai durar. Se um glaciar tem 500 metros de profundidade, comporta-se de forma muito diferente de um com dois quilómetros. Um desaparece em décadas; o outro pode durar séculos.
E as pessoas que vivem perto destes glaciares — sabem que estão em risco?
Sabem. Mas o risco é duplo. Primeiro veem mais água nos rios, o que parece bom. Depois, quando o gelo acaba, a água desaparece. É como viver sobre uma conta bancária que está a ser esvaziada.
1,9 mil milhões de pessoas — é um número difícil de compreender.
É. Significa que há mais gente dependente de glaciares do que há europeus no planeta. Quando o gelo desaparece, não desaparece apenas uma paisagem. Desaparece água para beber, para regar campos, para viver.
O modelo de IA consegue prever quando os glaciares desaparecerão?
Não. Consegue dizer-nos quanto gelo existe agora e onde está. Isso alimenta outros modelos que tentam prever o futuro. É como ter um mapa preciso do terreno antes de planear uma viagem.
E se nada mudar? Se as temperaturas continuarem a subir?
Então os glaciares dos Alpes, dos Andes, dos Himalaias desaparecem nas próximas décadas. Não é uma possibilidade distante. É o cenário que os dados sugerem.
The Pulse
- A incerteza sobre o volume real de gelo nos glaciares mundiais comprometia décadas de modelos climáticos — e a margem de erro era maior do que se admitia.
- O novo modelo IceBoost v2.0, treinado com mais de sete milhões de medições, superou em 40% a precisão dos métodos anteriores, revelando glaciares com até dois quilómetros de espessura em regiões como a Gronelândia e o Ártico russo.
- O paradoxo do degelo agrava a urgência: no curto prazo, mais gelo a derreter significa mais água nos rios, mas quando a reserva acumulada se esgota, o fluxo colapsa — ameaçando comunidades inteiras que dependem dessa água.
- Nos Alpes, Andes e Himalaias, o gelo está a desaparecer mais depressa do que a neve consegue repô-lo, e investigadores alertam que muitos glaciares de latitudes médias poderão desaparecer nas próximas décadas.
- Os dados recolhidos serão agora integrados em modelos climáticos para simular a evolução dos glaciares até 2100 e estimar o seu impacto no nível do mar e no abastecimento de água a quase dois mil milhões de pessoas.
Debaixo das montanhas do mundo, esconde-se uma herança congelada que a humanidade ainda estava a aprender a ler. Investigadores desenvolveram um modelo de inteligência artificial capaz de mapear, com precisão inédita, os 150 mil quilómetros cúbicos de gelo armazenados nos glaciares globais — excluindo a Gronelândia e a Antártida — revelando que o potencial de subida do nível do mar é de 32,3 centímetros, e que alguns glaciares guardam quase o dobro do gelo que se supunha. A descoberta não é apenas um número: é o ponto de partida para compreender o que está em jogo para os 1,9 mil milhões de pessoas que dependem desse gelo para sobreviver.
Há gelo escondido em lugares que nunca vimos com clareza suficiente. Nas encostas do Alasca, nas profundezas dos Himalaias, debaixo das montanhas do Ártico — quantidades colossais de água congelada que resistiam a uma medição precisa. Agora, investigadores desenvolveram o IceBoost v2.0, um modelo de inteligência artificial alimentado com mais de sete milhões de medições de espessura de gelo, cruzadas com 26 características físicas e geográficas de cada glaciar. O resultado: uma precisão 40% superior aos métodos anteriores e uma nova contagem do gelo que o planeta guarda — 150 mil quilómetros cúbicos, excluindo a Gronelândia e a Antártida. Se derretesse por completo, o nível dos oceanos subiria 32,3 centímetros.
As surpresas foram significativas. No planalto de Geikie, no leste da Gronelândia, os glaciares armazenam quase o dobro do gelo que se estimava, com espessuras que chegam aos dois quilómetros. No arquipélago de Nova Zembla, no Ártico russo, o modelo identificou zonas com cerca de 610 metros de gelo. Estas diferenças não são meramente académicas: saber quanto gelo existe hoje é o ponto de partida para calcular quanto desaparecerá à medida que as temperaturas sobem, e os dados serão agora usados para simular a evolução dos glaciares até 2100.
Mas o nível do mar é apenas parte da história. Aproximadamente 1,9 mil milhões de pessoas dependem, em algum grau, de água proveniente de glaciares para consumo, agricultura e sustento das suas comunidades. O degelo cria uma situação aparentemente contraditória: numa primeira fase, mais gelo a derreter pode significar mais água nos rios; mas quando a reserva acumulada se esgota, esse fluxo diminui. Niccolò Maffezzoli, investigador da Universidade Ca' Foscari de Veneza e um dos autores do estudo, é direto: muitos glaciares de latitudes médias, incluindo nos Alpes, poderão desaparecer nas próximas décadas. O IceBoost v2.0 não foi criado para prever uma data — foi criado para estabelecer, com mais rigor do que nunca, o que ainda existe e onde está guardado.
Há gelo escondido em lugares que nunca vimos. Nas encostas do Alasca, nas profundezas dos Himalaias, debaixo das montanhas do Ártico — quantidades colossais de água congelada que ninguém conseguia medir com precisão. Até agora, determinar exatamente quanto gelo existe no planeta e o que aconteceria se desaparecesse era um problema que desafiava os cientistas. A resposta, quando finalmente chegou, foi surpreendente: 150 mil quilómetros cúbicos de gelo espalhados pelos glaciares do mundo, excluindo as gigantescas camadas da Gronelândia e da Antártida.
Se todo esse gelo derretesse de uma vez, o nível dos oceanos subiria 32,3 centímetros. Não é uma previsão de quando isso vai acontecer — é o potencial total contido naquele gelo agora mesmo. Para chegar a este número, investigadores desenvolveram um modelo de inteligência artificial chamado IceBoost v2.0, alimentado com mais de sete milhões de medições da espessura do gelo recolhidas em glaciares de todo o mundo. O sistema cruzou esses dados com 26 características físicas e geográficas diferentes: a inclinação do terreno, a velocidade a que o gelo se move, a temperatura, a curvatura das montanhas. Depois estimou a espessura e o volume de todos os glaciares incluídos no Randolph Glacier Inventory, um dos principais registos globais destas massas de gelo. A precisão foi impressionante — 40% superior aos métodos anteriores.
O trabalho revelou surpresas. No planalto de Geikie, no leste da Gronelândia, os cálculos indicam que os glaciares armazenam quase o dobro do gelo que se pensava. Em certos pontos, a espessura chega aos dois quilómetros. No arquipélago de Nova Zembla, no Ártico russo, o modelo identificou zonas onde o gelo atinge aproximadamente 610 metros. Estas diferenças não são académicas. Saber quanto gelo existe hoje é o ponto de partida para calcular quanto desaparecerá à medida que as temperaturas sobem. Os dados serão agora utilizados em modelos destinados a simular a evolução dos glaciares até 2100 e a estimar a sua contribuição para a subida do nível do mar.
Mas o nível do mar é apenas parte da história. Os glaciares funcionam como enormes reservas naturais de água doce. A neve acumula-se durante décadas, transforma-se em gelo e vai sendo libertada gradualmente através do degelo, alimentando rios, agricultura e comunidades inteiras. Aproximadamente 1,9 mil milhões de pessoas dependem, em algum grau, de água proveniente de glaciares. Os glaciares de montanha são particularmente vulneráveis ao aumento das temperaturas. Nos Alpes, Andes e Himalaias, têm sido registadas perdas acentuadas nas últimas décadas, com o gelo a derreter mais rapidamente do que a neve consegue substituí-lo. Niccolò Maffezzoli, investigador da Universidade Ca' Foscari de Veneza e um dos autores do trabalho, é claro: muitos glaciares situados nas latitudes médias, incluindo nos Alpes, poderão desaparecer nas próximas décadas.
O desaparecimento do gelo cria uma situação aparentemente contraditória. Numa primeira fase, o aumento do degelo pode significar mais água a correr para os rios. Mas, à medida que o glaciar encolhe e a reserva acumulada desaparece, esse fluxo acaba por diminuir. É por isso que o IceBoost v2.0 importa. Não foi criado para determinar uma data em que os glaciares desaparecerão, mas para estabelecer uma imagem mais precisa da quantidade de gelo que existe atualmente e de onde está armazenada. Medições diretas da espessura do gelo são difíceis de realizar e estão distribuídas de forma muito desigual pelo planeta. Alguns glaciares foram estudados extensivamente; outros têm poucos dados disponíveis. Com mais de sete milhões de registos e as características do terreno, o novo modelo permite preencher parte dessas lacunas. E revelou que, em alguns lugares, havia bastante mais gelo debaixo dos nossos olhos do que os cálculos anteriores indicavam.
Notable Quotes
Muitos glaciares situados nas latitudes médias, incluindo nos Alpes, poderão desaparecer nas próximas décadas— Niccolò Maffezzoli, investigador da Universidade Ca' Foscari de Veneza