Aos 115 anos, a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa escolheu um momento de desconfiança crescente face ao conhecimento para repensar a forma como se apresenta ao mundo. Em vez de promover cursos ou celebrar datas, a instituição lançou uma campanha que coloca o valor intrínseco da ciência no centro da conversa pública. É um gesto que reconhece que, numa era de desinformação, as universidades já não podem limitar-se a fornecer diplomas — têm de ser guardiãs de uma relação de confiança entre o saber e a sociedade.
Ciências ULisboa reposiciona marca em torno do valor social da ciência
A reputação não se constrói numa campanha de semanas
Porque é que uma faculdade de ciências precisa de uma campanha sobre o valor social da ciência? Não é óbvio que a ciência é importante?
Não é óbvio, não. Nos últimos anos temos visto crescer narrativas que questionam o valor do conhecimento científico. Há desconfiança, há desinformação. Uma universidade não pode apenas fazer ciência; tem de comunicar porque é que a ciência importa.
Mas isto é uma campanha de comunicação, não é ação. Como é que uma assinatura muda a perceção das pessoas sobre a ciência?
Não muda sozinha. A campanha é o primeiro passo de uma estratégia de longo prazo. O que muda a perceção é a coerência entre o que se comunica e o que se faz, ao longo do tempo.
E qual é a diferença entre esta campanha e as campanhas tradicionais de universidades?
As campanhas tradicionais promovem cursos — captam candidatos para um ano letivo. Esta campanha trabalha o posicionamento institucional, constrói reputação e confiança a longo prazo.
Mas a Faculdade ainda precisa de captar estudantes. Como é que uma campanha sobre o valor da ciência para a sociedade ajuda nisso?
A notoriedade de marca é a condição que sustenta, a médio e longo prazo, a capacidade de captar os melhores candidatos. O posicionamento foi pensado também no seu efeito na atração de estudantes.
Que tipo de resultados já estão a ver?
Indicadores de earned media são positivos. Mas a reputação não se constrói numa campanha de algumas semanas. É ainda cedo para conclusões definitivas.
Ganhou uma bolsa ERC de 10 milhões de euros. Isso é um resultado da campanha ou é investigação que já estava a acontecer?
A investigação já estava a acontecer. O que a campanha faz é comunicar porque é que esse trabalho importa — tornar visível o valor da ciência que ainda não tem uma aplicação imediata.
Então a campanha é sobre contar histórias que já existem?
É sobre contar histórias que já existem, mas de uma forma que mostre o seu valor para a sociedade. É uma mudança de foco, não de conteúdo.
Le Pouls
- A desinformação e o distanciamento crescente dos cidadãos face à ciência criaram uma urgência que a Faculdade de Ciências decidiu não ignorar.
- A campanha 'A Ciência é o Caminho. Tu és o Futuro' rompe com o discurso institucional tradicional, apostando numa narrativa sobre o papel da ciência na vida de todos.
- O ensino superior tornou-se uma arena competitiva global, onde a reputação de marca vale mais do que a promoção isolada de qualquer curso ou programa.
- A estratégia multicanal combina meios generalistas e redes sociais, adaptando a linguagem sem perder a coerência da mensagem para públicos radicalmente diferentes.
- Os primeiros indicadores estão a ser acompanhados, mas a própria instituição reconhece que a reputação não se constrói em semanas — este é apenas o primeiro passo de uma aposta de longo prazo.
Aos 115 anos, a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa escolheu um momento de desconfiança crescente face ao conhecimento para repensar a forma como se apresenta ao mundo. Em vez de promover cursos ou celebrar datas, a instituição lançou uma campanha que coloca o valor intrínseco da ciência no centro da conversa pública. É um gesto que reconhece que, numa era de desinformação, as universidades já não podem limitar-se a fornecer diplomas — têm de ser guardiãs de uma relação de confiança entre o saber e a sociedade.
A Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa decidiu que os seus 115 anos não seriam celebrados com uma retrospetiva de datas e marcos históricos. Em vez disso, a instituição usou a efeméride como ponto de partida para uma mudança mais profunda: abandonar o discurso centrado na oferta formativa e colocar no centro da conversa o valor da ciência para a sociedade. A assinatura escolhida — 'A Ciência é o Caminho. Tu és o Futuro' — sintetiza essa dualidade: o legado de rigor e método acumulado ao longo de mais de um século, e o convite a quem vai continuar esse percurso num mundo marcado pela desinformação.
Celma Padamo, diretora de Comunicação e Imagem da Faculdade, identifica a crise de confiança no conhecimento científico como o ponto de partida da estratégia. Num contexto em que as instituições de ensino superior competem em rankings internacionais, disputam financiamento e precisam de atrair estudantes e investigadores de todo o mundo, promover cursos isoladamente já não chega. A marca Ciências foi pensada como uma âncora simbólica — um sinal de credibilidade, rigor e pertinência social que sustenta, a médio e longo prazo, a capacidade de atrair os melhores candidatos e parceiros.
A campanha aposta numa lógica multicanal que combina meios generalistas — imprensa, rádio e televisão — com redes sociais, reconhecendo que cada plataforma desempenha um papel distinto na construção de reputação. A linguagem adapta-se aos públicos, mas a mensagem mantém-se coerente: a ciência não é uma atividade distante das necessidades quotidianas, mas a condição essencial para compreender o mundo e criar as bases do seu progresso. Projetos como o estudo das alterações climáticas na Antártida ou uma bolsa europeia de 10 milhões de euros para investigação sobre matéria viva são exemplos do desafio de comunicar investigação fundamental de forma relevante para o cidadão comum.
A Faculdade acompanha indicadores de cobertura mediática, desempenho digital e tráfego de conteúdos, mas reconhece que o indicador mais importante — a associação entre a marca Ciências e o valor intrínseco da ciência — ainda não pode ser avaliado com conclusões definitivas. O que está em curso não é um reposicionamento que abandona o passado, mas uma clarificação do espaço que a instituição quer ocupar na sociedade: menos comunicação sobre o que faz, mais narrativa sobre o que representa. É, nas palavras da própria instituição, o primeiro passo de uma estratégia que terá de ser sustentada, todos os dias, pela própria ação da Faculdade.
A Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa escolheu um momento de crise de confiança para repensar completamente a forma como fala de si mesma. Aos 115 anos, a instituição lançou uma campanha que abandona o discurso tradicional sobre cursos e investigadores para colocar no centro da conversa uma ideia mais ampla: o valor intrínseco da ciência para a sociedade. A assinatura "A Ciência é o Caminho. Tu és o Futuro" sintetiza essa mudança de perspetiva — não é sobre o passado da Faculdade, mas sobre quem vai continuar esse trabalho e porque é que isso importa num mundo marcado pela desinformação e pela desconfiança crescente face ao conhecimento científico.
Celma Padamo, diretora de Comunicação e Imagem da Faculdade, explica que o ponto de partida foi precisamente essa perceção de crise. As instituições de ensino superior enfrentam hoje narrativas que questionam o valor do conhecimento científico, tornando essencial reforçar a literacia científica e aproximar a ciência dos cidadãos. Mas isto não é mais uma campanha de desmistificação da atividade científica — é uma aposta estratégica em colocar o valor da ciência na agenda pública de forma diferente daquela que as universidades habitualmente praticam. O contexto é competitivo: internacionalização, rankings, necessidade de captação de financiamento e mobilidade de estudantes transformaram o ensino superior numa arena onde as instituições precisam de se afirmar como marcas, não apenas como fornecedoras de diplomas.
Promover cursos isoladamente responde a uma lógica de curto prazo — capta candidatos para um ano letivo, mas não constrói memória nem confiança a longo prazo. A Faculdade percebeu que o seu âmbito de atuação é muito mais vasto do que a formação: prestação de serviços, investigação aplicada, integração em redes internacionais, formação ao longo da vida. Isto alarga o espectro de públicos e torna necessário que a instituição se diferencie não apenas pela oferta formativa, mas por aquilo que representa enquanto projeto científico e social. A marca Ciências funciona como uma âncora simbólica que comunica credibilidade científica, rigor e pertinência social — especialmente importante num contexto de desinformação crescente. Este posicionamento reforça a legitimidade da Faculdade como interlocutora de confiança entre a comunidade científica e a sociedade, o que se traduz, de forma indireta mas sólida, na atratividade como um todo, incluindo a investigação fundamental, cujo retorno é sempre a longo prazo.
O desafio criativo partiu de uma pergunta simples: como sintetizar 115 anos de história e, ao mesmo tempo, projetá-la no futuro? A dualidade da assinatura responde a isso. "A Ciência é o Caminho" reconhece o legado — o método, o rigor, a construção contínua de conhecimento desde a fundação. "Tu és o Futuro" desloca o foco para quem vai continuar esse percurso: estudantes, investigadores, mas também a sociedade que beneficia e dá continuidade a esse conhecimento. A comemoração dos 115 anos foi tratada como pretexto, não como objeto. Em vez de construir uma narrativa centrada exclusivamente na história da Faculdade — datas, marcos, figuras —, optou-se por usar essa longevidade como prova de legitimidade para uma conversa dirigida ao presente e ao futuro. O maior risco de uma efeméride institucional é que ela se torne autorreferencial; a estratégia evitou isso colocando a ênfase na inovação e no impacto social.
No contexto de desinformação e distanciamento da ciência, o marketing universitário não pode ser pensado como comunicação pontual ou sazonal. Tem de estar à altura de compromissos de longo prazo que a própria relação com o estudante exige. O objetivo não é vender um produto, mas construir reputação e gerar confiança, demonstrando todos os dias coerência entre o que a organização promete e a forma como é percecionada ao longo do tempo. Na universidade, a credibilidade é o maior ativo. O tempo de vida investido numa instituição é, em média, vários anos da vida de uma pessoa, entregues numa fase decisiva de formação pessoal e profissional. Se uma universidade falha em corresponder à confiança depositada nesses anos, dificilmente essa reputação se reconstrói.
A campanha aposta numa lógica verdadeiramente multicanal: dos grandes media generalistas — imprensa, rádio e televisão, que continuam a ter papel importante na construção da reputação — às redes sociais, que são hoje o principal ponto de contacto com os mais jovens. Esta combinação não é redundante, é complementar. As redes sociais propiciam uma linguagem mais próxima, visual e interativa, adaptada aos hábitos de consumo de informação das novas gerações, mas a criatividade adaptou-se às especificidades de cada meio, preservando a coerência da mensagem sem cair na tentação do simples copy-paste entre plataformas. Quando se pretende mobilizar públicos tão diversos — jovens estudantes, famílias, professores, decisores políticos, empresas e sociedade — cada canal desempenha o papel para o qual é mais eficaz.
O equilíbrio entre notoriedade de marca e performance na captação de candidatos foi pensado de forma integrada. O ponto de partida no ensino superior são os estudantes — numa Faculdade de Ciências, o aluno participa de forma prática na produção de conhecimento. A notoriedade de marca não é um fim em si mesma, é a condição que sustenta, a médio e longo prazo, a capacidade de captar os melhores candidatos. Por isso, a campanha foi desenhada para que a primeira sirva a segunda: o posicionamento institucional foi pensado também no seu efeito, direto ou indireto, na atração de estudantes. A valorização da investigação fundamental é um dos pilares da campanha — projetos como o estudo da influência das alterações climáticas no desenho de políticas públicas na Antártida, ou a bolsa ERC de 10 milhões de euros para compreender os princípios que regem a formação e transformação da matéria viva. O desafio de comunicação é explicar porque é que uma investigação que à partida pode parecer distante das necessidades imediatas da sociedade é, na realidade, essencial para compreender o mundo e criar as condições para o seu progresso.
A Faculdade acompanha indicadores como cobertura mediática, desempenho das campanhas digitais, tráfego para conteúdos e evolução das pesquisas associadas à marca. Mas há uma dimensão considerada importante: perceber se está a conseguir reforçar a associação entre a marca Ciências e o valor intrínseco da ciência para a sociedade. Sobre este último indicador, é ainda cedo para retirar conclusões definitivas, até porque a reputação não se constrói numa campanha de algumas semanas. A campanha marca uma evolução no branding da marca Ciências, mas é importante distinguir evolução de reposicionamento. Não se está a abandonar aquilo que a marca é; está-se a tornar mais claro aquilo que se quer que ela represente e o espaço que ocupa na sociedade. Passou-se de uma comunicação centrada naquilo que se faz enquanto instituição para uma narrativa focada no valor que a ciência tem para a sociedade. É o primeiro passo de uma estratégia de longo prazo, que terá de ser sustentada pela experiência, pela comunicação e, sobretudo, pela própria ação da instituição.
Citations marquantes
Uma universidade não pode comunicar apenas aquilo que faz, mas aquilo que representa— Celma Padamo, diretora de Comunicação e Imagem da Faculdade de Ciências
O maior risco de uma efeméride institucional é que ela se torne autorreferencial, uma celebração da instituição para a instituição— Celma Padamo