China reinventa smartphone com IA no centro do sistema operativo

O telefone passará a ser o centro invisível de um conjunto de dispositivos
Refletindo sobre como os smartphones com IA integrada se tornarão o núcleo de um ecossistema de dispositivos conectados.
Mark

Porque é que isto importa? Parece apenas uma forma mais cómoda de usar o telemóvel.

Mimi

Importa porque muda quem controla o acesso ao mundo digital. Se a IA escolhe as aplicações em vez do utilizador, as lojas de aplicações deixam de ser necessárias. E as lojas de aplicações são onde a Apple e a Google ganham a maior parte do dinheiro.

Mark

Mas a Apple e a Google não podem simplesmente fazer o mesmo?

Mimi

Teoricamente podem, mas têm muito a perder. Dependem das receitas das lojas. Os fabricantes chineses não têm esse problema. Podem experimentar livremente porque não têm um modelo de negócio global a proteger.

Mark

E o Honor Robot Phone? Porque é que um telefone precisa de uma câmara que se move?

Mimi

Não é apenas sobre a câmara. É sobre mostrar que o corpo do telefone pode ser programável, que a inteligência artificial pode controlar componentes físicos. Cria uma ligação emocional mais forte com o utilizador. Um telefone que reage, que se move, que parece compreender o que está a acontecer.

Mark

Isso não levanta problemas de privacidade?

Mimi

Levanta muitos. Um telefone que observa o ambiente, interpreta sons, acompanha movimentos, recolhe muito mais contexto do que um equipamento convencional. Para as empresas, isto torna-se uma questão de segurança crítica. Uma falha de segurança num agente pode afetar múltiplos serviços ao mesmo tempo.

Mark

Então isto é realmente uma ameaça ao modelo ocidental?

Mimi

É mais do que uma ameaça. É uma divisão. Dois caminhos completamente diferentes. Ocidente com aplicações individuais e lojas digitais. China com agentes, superaplicações e integração direta. A questão é se conseguem coexistir ou se um vai dominar.

  • Apple extrai 15-30% das receitas das aplicações no seu ecossistema
  • Compras dentro de aplicações móveis caíram cerca de 40% até início de 2026
  • Honor Robot Phone apresentado no Mobile World Congress 2026 tem câmara com quatro graus de liberdade
  • Fabricantes chineses não dependem de lojas globais de aplicações, têm liberdade para experimentar

IA deixa de ser funcionalidade para coordenar aplicações, serviços e componentes físicos, simplificando como usamos smartphones. Apple e Google enfrentam ameaça ao modelo de receitas das lojas digitais, enquanto fabricantes chineses têm liberdade para experimentar.

Fabricantes chineses desenvolvem telemóveis onde IA coordena aplicações e serviços, ameaçando o modelo de lojas de aplicações da Apple e Google e transformando como acedemos ao mundo digital.

Há uma mudança silenciosa a acontecer nos laboratórios chineses que pode reconfigurar completamente a forma como tocamos nos nossos telemóveis. Os fabricantes estão a desenvolver equipamentos onde a inteligência artificial deixa de ser um recurso adicional — aquela funcionalidade que torna o telefone mais esperto — e passa a ser o maestro que coordena tudo o resto. Aplicações, serviços, até componentes físicos. Tudo sob o comando de um sistema que compreende o que o utilizador quer fazer, em vez de o obrigar a navegar entre dezenas de aplicações diferentes.

O smartphone tradicional funciona como um labirinto de escolhas. Quer enviar dinheiro? Abre uma aplicação. Quer reservar uma viagem? Abre outra. Quer pagar uma conta? Mais uma. A vida digital fragmenta-se em pequenos silos, cada um com a sua interface, a sua lógica, o seu próprio caminho. A nova geração de telemóveis chineses promete simplificar isto radicalmente. Em vez de o utilizador dizer ao telefone qual a aplicação que quer abrir, diz-lhe simplesmente o que pretende fazer. O telefone procura os serviços necessários, combina-os, executa a tarefa. Parece apenas uma questão de conveniência, uma forma mais elegante de interagir com a máquina. Mas a realidade é muito mais profunda.

O problema começa aqui, e é um problema enorme para a Apple e para a Google. Estas duas empresas construíram impérios financeiros em torno das lojas de aplicações. A Apple extrai entre 15% e 30% de todas as receitas geradas pelas aplicações no seu ecossistema. A Google não divulga números, mas estima-se que a Play Store gere entre 17% e 26% de resultado operacional. Se uma camada de inteligência artificial conseguir executar serviços sem nunca mostrar as aplicações ao utilizador — se o telefone conseguir fazer o trabalho nos bastidores — então estas lojas perdem o seu poder. Deixam de ser portas de entrada obrigatórias. Deixam de ser o lugar onde as pessoas veem, escolhem e compram. A disputa deixa de ser apenas sobre qual é o melhor smartphone. Torna-se uma luta pelo controlo da camada que decide que serviços chegam até ao utilizador.

Os fabricantes chineses têm uma vantagem clara nesta corrida. Não dependem das receitas de uma loja global de aplicações. Não têm o mesmo peso financeiro a puxá-los para trás. Podem experimentar livremente. Na China, os serviços da Google já estão ausentes da maioria dos telemóveis. O próximo passo é substituir gradualmente as próprias aplicações por agentes ligados a fabricantes e a superaplicações — plataformas que concentram múltiplos serviços num único lugar. Os números já começam a refletir esta mudança. As compras dentro de aplicações móveis caíram cerca de 40% até ao início de 2026, apesar de os utilizadores estarem a gastar mais dinheiro do que antes. A explicação está nas subscrições de serviços de IA, que oferecem várias funcionalidades por um único pagamento recorrente. O valor está a deslocar-se.

Mas a transformação não fica pelo software. Alguns fabricantes chineses estão a explorar algo ainda mais radical: telemóveis onde a inteligência artificial controla partes móveis do próprio dispositivo. O Honor Robot Phone, apresentado no Mobile World Congress 2026, é um exemplo. Combina IA, perceção do ambiente e um sistema mecânico capaz de mover a câmara em tempo real. Tem um micromotor e um gimbal ultracompacto com quatro graus de liberdade. Durante uma videochamada, o telefone consegue acompanhar o utilizador, ajustar o enquadramento, reagir com movimentos que imitam acenos ou inclinações. A câmara estabiliza-se em três eixos como um tripé motorizado. Consegue rastrear objetos automaticamente, rodar 90 ou 180 graus, e tem um sensor de 200 megapíxeis. Isto não significa que os telemóveis estejam prestes a transformar-se em robôs — estes modelos continuam raros, mesmo na China. Mas mostram que a diferenciação já não depende apenas do processador, do ecrã ou do número de câmaras. O próprio corpo do telefone pode tornar-se programável.

Esta abordagem aproxima os equipamentos daquilo que se chama economia do apego — um modelo em que os produtos tecnológicos usam gestos e comportamentos próximos dos humanos para criar uma ligação emocional mais forte com os utilizadores. É comercialmente atraente, mas levanta questões importantes. Um telefone que observa o ambiente, interpreta sons, acompanha movimentos e reage fisicamente recolhe muito mais contexto do que um equipamento convencional. Para as empresas, a escolha de um smartphone deixa de ser simples. Não basta avaliar o sistema operativo, a bateria, a segurança ou as aplicações disponíveis. É preciso compreender que autonomia têm os agentes, que serviços conseguem utilizar, como tratam os dados, até que ponto prendem a organização ao ecossistema de um fabricante. Um agente capaz de trabalhar entre várias aplicações pode poupar tempo e reduzir tarefas repetitivas. Mas uma decisão errada, uma permissão excessiva ou uma falha de segurança também pode produzir consequências em vários serviços ao mesmo tempo.

O que está a emergir é uma divisão clara entre dois modelos de mobilidade. De um lado, o sistema ocidental: aplicações individuais, lojas digitais, plataformas controladas pela Apple e pela Google. Do outro, uma arquitetura assente em agentes, superaplicações e integração direta entre software, serviços e componentes físicos. Se estes equipamentos conquistarem o mercado chinês, os fabricantes tentarão expandi-los para outras regiões. Isto não significará apenas vender telemóveis. Abrirá espaço a serviços financeiros, plataformas de informação e superaplicações desenvolvidas por empresas chinesas. Os próximos dispositivos vestíveis — óculos, relógios com IA — tornarão esta disputa ainda mais relevante. Continuarão a depender dos smartphones para aceder à rede, processar informação e conectar-se a modelos de inteligência artificial. Nesse cenário, o telefone passará a ser o centro invisível de um conjunto de dispositivos que comunicam com o utilizador. Os agentes e modelos escolhidos determinarão que informação é apresentada, que serviços são utilizados, que decisões são automatizadas. A compra de um smartphone deixará de ser apenas uma escolha entre marcas ou especificações. Será também uma escolha sobre quem controla a inteligência artificial que medeia uma parte crescente da vida digital.

O utilizador deixa de dizer ao telefone que aplicação quer abrir e passa a dizer-lhe aquilo que pretende fazer
— Conceito central da nova geração de telemóveis chineses
A compra de um smartphone deixará de ser apenas uma escolha entre marcas ou especificações. Será também uma escolha sobre quem controla a inteligência artificial que medeia uma parte crescente da vida digital
— Análise sobre o futuro da decisão de compra de telemóveis
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