O governo controla efetivamente o acesso ao mercado
A China de Xi Jinping persegue uma visão tecnológica de proporções históricas — centros de dados, robótica, manufatura de ponta —, mas toda visão encontra, cedo ou tarde, a resistência da realidade financeira. Com uma conta estimada em trilhões de yuans ao longo da próxima década, o país descobre que a vontade política não substitui a profundidade dos mercados de capitais. O dilema não é apenas econômico: é a tensão entre o controle que garante direção e a liberdade que gera inovação.
- A China precisa de US$ 295 bilhões apenas para centros de dados de IA nos próximos cinco anos — e isso é só o começo de uma conta muito maior.
- O governo flexibilizou a pressão sobre o capital privado, provocando uma explosão de novos fundos: mais de 9,5 mil lançados nos primeiros cinco meses de 2026, o dobro do ano anterior.
- O dinheiro estatal vem com condições: gestores são obrigados a investir em empresas alinhadas aos planos do partido, o que sufoca startups genuinamente inovadoras e distorce o mercado.
- Reguladores agora acumulam funções contraditórias — fiscalizar mercados e ao mesmo tempo executar política industrial —, criando incerteza crescente para investidores privados.
- Enquanto os mercados americanos absorvem mega IPOs e fervilham com capital de IA, os mercados chineses, mais controlados e mais modestos, correm para não ficar para trás.
A China enfrenta um dilema que a vontade política sozinha não resolve: o custo de suas ambições tecnológicas está começando a superar a capacidade de seus mercados de capitais de financiá-las. Só os centros de dados para sustentar operações de inteligência artificial custarão 295 bilhões de dólares nos próximos cinco anos. Somados à robótica e à manufatura de ponta — setores estratégicos para Xi Jinping —, a conta chega a trilhões de yuans ao longo da próxima década.
O primeiro-ministro Li Qiang revelou a urgência do momento ao elogiar publicamente a Unitree, empresa de robótica cuja avaliação saltou de 1,47 milhão para 6,2 bilhões de dólares em dez anos. Líderes chineses raramente celebram valorizações de empresas específicas, especialmente às vésperas de aberturas de capital. O gesto sinalizou claramente: o governo precisa que o setor privado invista em tecnologia, e em escala.
Nos últimos dois anos, Xi flexibilizou a pressão sobre o capital privado, e o resultado foi explosivo. Nos primeiros cinco meses de 2026, mais de 9,5 mil novos fundos de ações foram lançados — o dobro do mesmo período em 2025. Fundos orientados pelo Estado levantaram 33,9 bilhões de dólares em novos capitais para tecnologia no final de 2025, contra apenas 1,6 bilhão no ano anterior.
Mas esse dinheiro tem um preço. Gestores que recebem capital estatal são obrigados a direcioná-lo para empresas alinhadas aos planos do partido. Muitas dessas empresas não são particularmente inovadoras, e fundos apoiados por bancos raramente apostam em startups com menos de cinco anos. A inovação real corre o risco de ficar em segundo plano. Afastar-se dos setores favorecidos significa menos capital, avaliações menores e dificuldade para obter aprovação de IPO.
A Comissão Reguladora do Mercado de Valores Mobiliários acumula agora um papel contraditório: além de fiscalizar mercados e prevenir bolhas, precisa garantir que o capital flua para os objetivos de Xi. Equilibrar regulação e planejamento industrial é cada vez mais difícil. Enquanto os mercados americanos absorvem mega IPOs e fervilham com febre de IA, os mercados chineses — mais modestos e mais controlados — correm para acompanhar o ritmo. A questão que paira é se conseguirão.
A China enfrenta um dilema que nenhuma quantidade de vontade política consegue resolver sozinha: o custo astronômico de suas ambições tecnológicas está começando a superar a capacidade de seus mercados de capitais de financiá-las. Nos próximos cinco anos, apenas os centros de dados necessários para sustentar operações de inteligência artificial custarão 295 bilhões de dólares. Some-se a isso a robótica e a manufatura de ponta — setores que Xi Jinping considera estratégicos — e o país enfrenta uma conta de trilhões de yuans ao longo da próxima década.
O primeiro-ministro Li Qiang reconheceu essa realidade de forma indireta quando elogiou publicamente a Unitree, uma empresa de robótica, destacando como sua avaliação saltou de 1,47 milhão de dólares para 6,2 bilhões em dez anos. Raramente líderes chineses mencionam empresas específicas ou celebram suas valorizações, especialmente quando estão à beira de aberturas de capital. O gesto revelou a urgência: o governo precisa que o setor privado invista em tecnologia, e precisa que invista em escala.
Parte dessa conta será coberta pelo sistema bancário estatal e pelos lucros reinvestidos de grandes corporações já estabelecidas. Mas a maior fatia terá de vir de investidores públicos e privados — exatamente o tipo de capital que o governo havia reprimido nos anos anteriores. Nos últimos dois anos, Xi Jinping flexibilizou essa pressão, sinalizando claramente para onde deseja que o dinheiro flua. O resultado foi explosivo: nos primeiros cinco meses de 2026, foram lançados mais de 9,5 mil novos fundos de ações, o dobro do número do mesmo período em 2025. Grande parte dessa atividade veio de fundos de capital de risco criados por grandes corporações, tanto privadas quanto estatais. No final de 2025, os fundos orientados pelo Estado levantaram 33,9 bilhões de dólares em novos capitais para investimento em tecnologia — um salto dramático em relação aos 1,6 bilhão do ano anterior.
Mas há um preço para esse dinheiro. Quando gestores de ativos recebem capital estatal, vem acompanhado de condições explícitas: o dinheiro deve fluir para empresas que se encaixem nos planos tecnológicos do partido. Muitas dessas empresas não são particularmente inovadoras. Algumas trabalham em problemas que outros países resolveram há anos. Investidoras apoiadas por bancos raramente apostam em startups com menos de cinco anos de existência, preferindo empresas que já receberam algum tipo de reconhecimento governamental. Isso limita o potencial de ganho e cria um mercado onde a inovação real pode ficar em segundo plano.
O custo de se afastar dos setores favorecidos é alto. Menos capital estatal reduz avaliações. A falta de apoio governamental torna mais difícil obter aprovação para aberturas de capital, mesmo que fundos como o da SMIC já tenham listado 48 empresas e se preparem para abrir o capital de outras 50. Os reguladores reservam privilégios de listagem quase exclusivamente para grandes fabricantes de hardware como a Unitree e para empresas que ajudam a China a se livrar da dependência de tecnologia estrangeira, como a CXMT.
A Comissão Reguladora do Mercado de Valores Mobiliários da China, principal órgão de fiscalização, não se limita mais apenas a avaliar empresas, prevenir bolhas e gerenciar liquidez. Sua função agora inclui garantir que o capital seja direcionado para os objetivos das políticas de Xi Jinping. É um papel que mistura regulação com planejamento industrial — e encontrar equilíbrio entre esses dois objetivos é cada vez mais difícil. O mercado de ações americano recebe mega IPOs atrás de mega IPOs, enquanto seu mercado de títulos ferve com febre de IA. Os mercados de capitais chineses, mais modestos e mais controlados, precisam acompanhar o ritmo. A questão que paira é se conseguirão.
Citações Notáveis
O dinheiro deve ser direcionado a empresas que se encaixem nos planos tecnológicos do partido— Análise de condições impostas pelo governo chinês a gestores de ativos
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que o governo chinês está tão focado em destacar empresas como a Unitree neste momento específico?
Porque precisa de investimento privado em escala massiva, e raramente consegue isso sem sinalizar para onde quer que o dinheiro vá. Quando o primeiro-ministro elogia uma empresa antes de seu IPO, está dizendo aos investidores: este é o tipo de negócio que o governo apoia.
Mas se o governo controla para onde o dinheiro flui, como isso não sufoca a inovação?
Sufoca mesmo. Investidores estatais evitam startups jovens e preferem empresas que já têm reconhecimento governamental. Isso significa que ideias realmente novas têm menos chance de ser financiadas.
Então por que as empresas aceitam essas condições?
Porque a alternativa é pior. Sem apoio estatal, sua avaliação cai, e abrir capital fica quase impossível. O governo controla efetivamente o acesso ao mercado.
Isso não cria bolhas? Se o dinheiro vai para empresas escolhidas politicamente, não para as melhores?
Potencialmente, sim. E é por isso que os reguladores agora têm um trabalho impossível: precisam manter a estabilidade do mercado enquanto direcionam capital para objetivos políticos. Esses dois objetivos entram em conflito constantemente.
A China conseguirá financiar todas essas ambições tecnológicas?
Essa é a pergunta que ninguém consegue responder com certeza. O dinheiro está fluindo, mas está fluindo para lugares escolhidos politicamente, não necessariamente para onde geraria o maior retorno. No longo prazo, isso pode ser um problema.