A China projeta reduzir importações de soja em 25% até 2030, afetando diretamente o Brasil, que gera US$ 26 bilhões anuais com esse comércio. O país aplica estratégia semelhante à que dominou energias renováveis e eletrônicos, com investimentos em biotecnologia, proteínas sintéticas e aumento de produtividade agrícola.
China busca transformar-se de maior importadora para potência agrícola global
Os chineses dão risada quando ouvem que são dependentes
Se a China conseguir reduzir importações de soja em 25%, o que acontece com o Brasil?
O Brasil perde um cliente que compra 70% de sua soja e gera US$ 26 bilhões anuais. Não há outro mercado de tamanho comparável.
Mas essa redução de 25% é projeção de quem? Do governo chinês ou de análise independente?
A Systemiq fez as projeções baseada em estimativas do governo chinês. É uma consultoria britânica respeitada, mas depende da confiabilidade daqueles números.
A China realmente consegue fazer isso? Tem tecnologia?
Está investindo pesadamente em biotecnologia e proteínas sintéticas. Já está testando rações com menos soja na Muyuan Foods, o maior frigorífico de suínos do mundo.
Mas isso é um teste. Escala é diferente. Reduzir 25% em importações nacionais é outra coisa.
Quando isso aconteceria?
As projeções apontam 2030 para soja e 2034 para produção doméstica. Mas há cenários de 2050 onde a China seria líder global em alimentos.
Esses prazos são muito longos. Muita coisa pode mudar. Crescimento populacional, clima, tecnologia.
Verdade. Por isso alguns analistas da StoneX dizem que é cedo para vislumbrar redução drástica. Mas há ameaças reais.
O Brasil pode fazer algo?
Pesquisadores do Insper sugerem expandir cooperação em inovação, logística, sanidade alimentar e tecnologia — não apenas vender commodities.
Isso é um conselho ou um plano que alguém está executando?
É um conselho. A questão é se o Brasil vai ouvir.
Il Polso
- China projeta reduzir importações de soja em 25% até 2030 — 23,5 milhões de toneladas
- Brasil envia 70% de sua soja para portos chineses, gerando US$ 26 bilhões anuais
- Muyuan Foods reduziu farelo de soja para 6% nas rações, economizando 31 quilos por animal
- China possui 15% da população mundial mas apenas 8% das terras cultiváveis e 6% da água doce
A China projeta reduzir importações de soja em 25% até 2030, afetando diretamente o Brasil, que gera US$ 26 bilhões anuais com esse comércio. O país aplica estratégia semelhante à que dominou energias renováveis e eletrônicos, com investimentos em biotecnologia, proteínas sintéticas e aumento de produtividade agrícola.
A China planeja reduzir drasticamente sua dependência de importações agrícolas através de investimentos em tecnologia e inovação, ameaçando o modelo de exportação de commodities do Brasil, que envia 70% de sua soja para portos chineses.
A China está em busca de uma transformação que poderia remodelar os mercados agrícolas globais. Assim como dominou a produção de veículos elétricos, painéis solares e eletrônicos, o país agora quer deixar de ser o maior comprador de alimentos do mundo para se tornar uma potência agrícola autossuficiente — e até exportadora. Para uma nação de 1,4 bilhão de habitantes, com apenas 8% das terras cultiváveis do planeta e 6% de sua água doce, o objetivo parece desproporcional. Mas está inscrito nos planos quinquenais mais recentes e mobiliza investimentos vultosos em tecnologia e inovação.
Pascal Lamy, ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, resumiu o alcance da mudança em um artigo recente: a era em que a China era a principal compradora de produtos agrícolas do mundo pode estar terminando. Essa transformação, segundo ele, poderá remodelar os mercados globais e forçar os atuais países produtores a repensar seus modelos de crescimento. O Brasil, maior exportador de soja do mundo, está na linha de frente dessa reconfiguração.
Os sinais já aparecem. A Muyuan Foods, o maior frigorífico de suínos do planeta, está testando rações com menos proteína vegetal. Reduziu a inclusão de farelo de soja para 6% na composição da ração — menos da metade da média de 13% usada normalmente. Isso economiza 31 quilos de soja por animal. Segundo projeções da consultoria britânica Systemiq, baseadas em estimativas do governo chinês, a importação de soja deverá cair 25% até 2030, uma redução de 23,5 milhões de toneladas. O impacto para o Brasil é direto: quase 70% da soja exportada pelo país tem como destino os portos chineses, gerando mais de US$ 26 bilhões anuais.
A mudança é estratégica, não apenas econômica. Até o início dos anos 2000, a China era autossuficiente na produção de alimentos, mas era também uma nação bem mais pobre. Desde então, o consumo de proteína animal foi multiplicado por seis, e o país passou a ter grandes déficits na balança comercial agrícola — no ano passado, o saldo negativo ultrapassou US$ 120 bilhões. Para um país com superávit industrial superior a US$ 1 trilhão, o número é pequeno. A questão real é geopolítica. Em um momento de guerras comerciais e dominação de cadeias de suprimento como arma estratégica — como a China faz com terras raras e os EUA com chips de inteligência artificial — a dependência alimentar é um calcanhar de Aquiles. Os EUA e a Europa são autossuficientes na produção de alimentos. A China não. As guerras na Ucrânia e no Oriente Médio desestabilizaram cadeias de alimentos e fertilizantes, dando mais urgência ao projeto chinês.
A estratégia não busca autossuficiência absoluta, segundo pesquisadores do Insper Agro. Trata-se de reduzir vulnerabilidades. A China atua em duas frentes principais: elevar a produtividade nas áreas já cultivadas e diminuir o uso de farelo de soja nas rações. As projeções indicam que ganhos de produtividade, mantida a área atual, elevariam a produção doméstica de cerca de 21 milhões para 28,6 milhões de toneladas até 2034. Ao mesmo tempo, reduzir a utilização de farelo nas rações pode diminuir o consumo de soja para essa finalidade em quase 40% nos próximos cinco anos — de cerca de 100 milhões para pouco mais de 60 milhões de toneladas anuais. O país investe também na melhoria de áreas hoje pouco férteis.
O Brasil continuará sendo um grande exportador, mas terá que se adaptar. Pesquisadores do Insper alertam que a relação agroalimentar entre Brasil e China não pode permanecer limitada à compra e venda de commodities. O processo chinês de modernização abre espaço para uma agenda mais ampla de cooperação em inovação, logística, sanidade, segurança alimentar e desenvolvimento tecnológico. Na carne bovina, o Brasil responde por 40% das compras internacionais da China e é um parceiro difícil de substituir pela escala e competitividade. Mas o principal desafio será o avanço da diversificação de fornecedores promovida por Pequim.
A Systemiq vê isso como um jogo que entrou em uma nova fase. A China começou a aplicar aos setores agrícolas a mesma estratégia que a levou à liderança em energia renovável e transporte. O 15º Plano Quinquenal envolve ampliar pesquisa em biotecnologia, particularmente para aumento de produtividade e desenvolvimento de proteínas sintéticas. A estratégia opera por cinco mecanismos que se reforçam: visão coordenada do governo central para províncias e empresas estatais; ambiente empresarial competitivo com parcerias universitárias; apoio financeiro via bancos estatais e subsídios; suporte político e regulatório; e indução de demanda por compras públicas. Os investimentos em tecnologia poderiam tornar a China uma exportadora relevante de proteína animal dentro de 15 anos. Em 2050, segundo a consultoria, os chineses seriam líderes globais na indústria de alimentos.
Ricardo Geromel, ex-trader de commodities em Hong Kong, acredita que muitos analistas e produtores brasileiros ainda não compreenderam o impacto das transformações que virão. O Brasil não encontrará outro cliente que compense a redução do apetite chinês. O principal problema, segundo ele, é que líderes do agro não conhecem a China. Os chineses querem reduzir essa dependência e vão investir massivamente nessa revolução tecnológica. Seria um risco contar com o fracasso chinês nessa empreitada.
Citazioni salienti
A era da China como a principal compradora de produtos agrícolas do mundo pode estar chegando ao fim— Pascal Lamy, ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio
O Brasil não encontrará um outro cliente que compense a redução do apetite chinês— Ricardo Geromel, ex-trader de commodities agrícolas em Hong Kong