Precisamos de gente com humildade para governar, não para mandar
A poucos dias das eleições autárquicas de Ponta Delgada, marcadas para 12 de outubro, o candidato do Chega José Pacheco escolheu o Mercado da Graça — recém-reaberto após quatro anos de obras — como palco para questionar não apenas a gestão do presidente em exercício Pedro Nascimento Cabral, mas a própria natureza do compromisso político. A pergunta que lançou era simples na forma e profunda na intenção: teria um líder a humildade de servir mesmo quando a vitória lhe escapa? Por detrás da disputa eleitoral, emerge uma reflexão mais antiga sobre o que distingue quem governa por vocação de quem governa por poder.
- Pacheco desafia publicamente Cabral a comprometer-se com o cargo de vereador na oposição caso perca, duvidando abertamente que o presidente tenha essa disposição.
- O Mercado da Graça, símbolo de uma reabilitação que durou quatro anos e condenou comerciantes a trabalhar num parque de estacionamento, torna-se o epicentro da crítica à gestão municipal.
- O candidato do Chega classifica o processo de obras como 'anedota' e 'pouca vergonha', argumentando que uma solução simples foi transformada num calvário desnecessário para quem dependia do mercado.
- Pacheco apresenta uma visão alternativa assente em redução de taxas, incentivos fiscais, modernização digital do comércio tradicional e apoio direto a jovens empreendedores.
- Com sete candidatos em disputa e o PSD a controlar cinco dos nove lugares do executivo, a campanha posiciona-se como um confronto entre continuidade e rutura na maior autarquia dos Açores.
José Pacheco escolheu o Mercado da Graça, no coração histórico de Ponta Delgada, para lançar uma das perguntas mais incómodas da campanha autárquica: teria Pedro Nascimento Cabral, presidente em exercício pela PSD, coragem política para aceitar um lugar de vereador na oposição caso perdesse as eleições de 12 de outubro? "Eu tenho dificuldade em acreditar que ele vai fazer isto", disse o candidato do Chega à Lusa, contrastando com a sua própria declarada humildade de aceitar qualquer cargo em caso de derrota. A sua previsão sobre Cabral era direta: "Vai-se pôr em casa ou no seu escritório a trabalhar."
O mercado onde Pacheco falava tinha reaberto a 25 de setembro no seu local original, mas o caminho até lá custara caro a quem dependia dele. Durante quatro anos, os comerciantes foram confinados ao piso inferior do edifício, normalmente usado como parque de estacionamento. Para Pacheco, isso era simplesmente inaceitável — uma "pouca vergonha" que revelava ausência de planeamento. Chegou a dizer a Cabral que, se não conseguia abrir o mercado em condições, bastava retirar a cobertura e deixar as pessoas trabalhar enquanto se encontrava solução melhor. O processo inteiro, descreveu, era "uma anedota".
A crítica ao mercado era, no fundo, uma crítica a uma visão de liderança. Cabral, concluía Pacheco, sairia "pela porta pequena" por não ter um plano para a cidade. Em alternativa, o candidato do Chega propunha atrair famílias dispostas a abrir negócios, reduzir taxas, modernizar o comércio tradicional com presença digital e criar um gabinete de apoio a jovens empreendedores. Com sete candidatos em disputa e o executivo dividido entre cinco lugares do PSD e quatro do PS, Pacheco apresentava-se como a voz que combinava denúncia do presente com propostas concretas para o futuro de Ponta Delgada.
José Pacheco estava no Mercado da Graça, no coração histórico de Ponta Delgada, quando lançou uma pergunta que pairava sobre a campanha para as eleições autárquicas de 12 de outubro. Olhando para o mercado que acabava de regressar à sua localização original após quatro anos de obras, questionou se Pedro Nascimento Cabral, o atual presidente da câmara que se recandidatava pela PSD, teria a coragem política necessária para sentar-se como vereador na oposição caso perdesse. "Eu tenho dificuldade em acreditar que ele vai fazer isto", disse o candidato do Chega à agência Lusa.
Pacheco contrastava a sua própria disposição com o que imaginava ser a atitude de Cabral. Se fosse ele a perder, afirmou, teria "humildade suficiente" para aceitar o cargo de vereador. Mas sobre o presidente em exercício, a sua previsão era diferente: "Pedro Nascimento Cabral vai sentar-se na cadeira da oposição ou vai-se pôr em casa ou no seu escritório a trabalhar? Parece-me que é o mais certo." A questão revelava uma crítica mais profunda sobre o tipo de político que Ponta Delgada precisava — alguém disposto a servir de qualquer posição, não apenas a mandar.
Mas a verdadeira frustração de Pacheco concentrava-se no Mercado da Graça. O edifício tinha reaberto no seu local original a 25 de setembro, mas o caminho até lá tinha sido longo e custoso para quem dependia dele. Durante quatro anos, os comerciantes tinham sido confinados ao piso inferior do prédio, um espaço que normalmente funcionava como parque de estacionamento. Para Pacheco, isto era inaceitável. "Isto foi uma pouca vergonha que se fez aos comerciantes e aos utilizadores deste mercado", declarou. Tinha dito frontalmente a Cabral que, se não conseguisse abrir o mercado nas condições adequadas, teria simplesmente removido a cobertura e deixado as pessoas trabalhar enquanto se encontrava uma solução melhor.
O candidato do Chega descrevia o processo de reabilitação como "uma anedota", considerando que se tratava apenas de colocar uma cobertura simples no edifício. O facto de ter levado vários anos sugeria, na sua perspectiva, uma falta de planeamento e eficiência. Cabral, concluía, sairia "pela porta pequena" porque "não tem um plano para Ponta Delgada". A crítica não era apenas sobre um edifício, mas sobre uma visão de liderança que Pacheco considerava insuficiente.
A sua proposta alternativa era clara: atrair comerciantes genuínos para a cidade, não grandes empresas, mas famílias dispostas a abrir negócios. Isto exigia redução de taxas, incentivos concretos, modernização do comércio tradicional com presença em redes sociais e plataformas digitais, e alívio da carga burocrática que pesava sobre os empresários. Pacheco também enfatizava a necessidade de a maior autarquia dos Açores atrair jovens, facilitando a sua instalação com isenção de taxas e um gabinete de apoio dedicado.
As eleições de 12 de outubro apresentavam sete candidatos à presidência da câmara: Isabel Almeida Rodrigues pela coligação Unidos por Ponta Delgada (PS, BE, PAN e Livre), Sónia Nicolau como independente pela lista Ponta Delgada Para Todos, Pedro Nascimento Cabral pela PSD em busca de um segundo mandato, Alexandra Cunha pela Iniciativa Liberal, José Pacheco pelo Chega, Henrique Levy pela CDU (coligação PCP/PEV) e Rui Matos pela ADN. No executivo camarário em exercício, o PSD controlava cinco lugares e o PS quatro. A campanha de Pacheco, assim, posicionava-se como uma alternativa que combinava crítica ao presente com propostas para o futuro.
Notable Quotes
Ele tem coragem política para, no dia a seguir a perder as eleições, se sentar na oposição como vereador?— José Pacheco, candidato do Chega
Isto foi uma pouca vergonha que se fez aos comerciantes e aos utilizadores deste mercado— José Pacheco, sobre a reabilitação do Mercado da Graça
The Hearth Conversation Another angle on the story
O que o preocupa mais — a questão sobre se Cabral aceitaria ser vereador, ou a forma como o Mercado da Graça foi gerido?
São duas faces da mesma moeda. A questão do vereador é sobre carácter político. Mas o Mercado da Graça é concreto — quatro anos de pessoas a trabalhar num piso de estacionamento. Isso não é abstrato.
Mas por que é que Pacheco acredita que Cabral não aceitaria o cargo de vereador?
Porque vê um padrão. Um presidente que demora anos a resolver um telhado, que não tem um plano claro para a cidade — esse tipo de pessoa não quer estar na oposição. Quer estar no comando ou não estar.
E a solução de Pacheco é diferente? Reduzir taxas, incentivar negócios pequenos?
É mais sobre filosofia. Ele diz que precisa de gente com humildade para governar, não para mandar. Quer comerciantes de verdade, famílias, não grandes corporações. É uma visão diferente de desenvolvimento.
Isso é viável numa ilha?
Essa é a pergunta que os eleitores vão fazer. Mas o que Pacheco está a fazer é oferecer uma alternativa clara ao que existe. Neste momento, o que existe deixou comerciantes num parque de estacionamento durante quatro anos.
E se Pacheco perder? Ele aceitaria ser vereador?
Segundo ele próprio, sim. Com humildade. Mas isso é fácil de dizer antes das eleições.