Posse encheu o bolso enquanto Milei prega contra a casta
Na noite de 27 de maio, Nicolás Posse deixou a chefia de gabinete do governo argentino de Javier Milei, encerrando semanas de rumores sobre fraturas internas num projeto político que se apresenta ao mundo como ruptura radical com o passado. Sua saída — motivada por contradições entre o discurso de austeridade e práticas que o contradiziam — revela que revoluções ideológicas também produzem suas próprias tensões de poder. Guillermo Francos, homem de negociação e trânsito parlamentar, herda o posto num momento em que o governo precisa transformar retórica em legislação aprovada.
- A renúncia de Posse expõe uma fissura no núcleo duro do governo Milei: o chefe de gabinete era visto como figura apagada, cuja voz raramente ecoava nas decisões que importavam.
- O episódio do aumento salarial de 40% que Posse recebeu na YPF tornou-se uma ferida simbólica — um homem do governo que atacava a 'casta' enquanto replicava seus privilégios.
- Sua ausência no lançamento do livro de Milei no Luna Park funcionou como sinal público de que a ruptura já estava consumada antes de ser anunciada.
- Francos chega ao cargo com capital político que Posse nunca teve: foi ele quem conduziu as negociações no Congresso pelo pacote liberal ainda travado no Senado.
- A reforma marca a baixa mais expressiva do governo em seis meses e reposiciona o tabuleiro interno justamente enquanto Milei parte para sua quinta viagem aos Estados Unidos.
Na noite de 27 de maio, Nicolás Posse deixou a chefia de gabinete do governo argentino de Javier Milei. A Casa Rosada confirmou a saída com um comunicado lacônico, mencionando apenas "diferenças de critérios e expectativas na condução do governo". Dias de especulação nos corredores ministeriais chegavam, assim, ao seu desfecho.
Posse ocupava, no papel, uma posição central: coordenar o trabalho conjunto de todos os ministérios. Na prática, era descrito por colegas como figura apagada, cuja voz raramente pesava em reuniões decisivas. O sinal mais visível de seu isolamento havia sido a ausência no lançamento do livro de Milei no Luna Park — evento que funcionou como vitrine política do presidente. A partir daí, sua saída era questão de tempo.
Um episódio havia agravado as tensões: Posse recebera um aumento de 40% em seu salário na diretoria da petroleira estatal YPF, acima da inflação. A contradição era difícil de ignorar num governo que construiu sua identidade atacando a "casta" política por enriquecer às custas do Estado em crise.
Para substituí-lo, Milei escolheu Guillermo Francos, até então ministro do Interior. Ao contrário de Posse, Francos havia protagonizado as negociações com o Congresso para tentar fazer avançar o pacote de medidas liberais ainda parado no Senado — o que lhe conferia um perfil mais operacional e politicamente útil ao momento. A nota do gabinete presidencial, sob influência de Karina Milei, praticamente ignorou Posse e elogiou Francos por "profissionalismo, experiência e capacidade política".
A saída marcava a baixa mais significativa do governo em quase seis meses. O ministério do Interior, que Francos deixava, seria rebaixado a secretaria e passaria a responder diretamente à nova chefia de gabinete. Os anúncios foram feitos no dia em que Milei embarcava para os Estados Unidos — sua quinta viagem ao país —, onde se reuniria com Timothy Cook, da Apple, e Mark Zuckerberg, da Meta, sem jamais ter sido recebido por Joe Biden na Casa Branca.
Na noite de segunda-feira, 27 de maio, Nicolás Posse deixou o cargo de chefe de gabinete do governo argentino de Javier Milei. Sua saída encerrava dias de especulação nos corredores de poder sobre tensões internas que vinham se acumulando. A Casa Rosada confirmou a notícia com um comunicado breve, mencionando apenas "diferenças de critérios e expectativas na condução do governo e das tarefas a ele encomendadas".
Posse havia ocupado uma posição que, teoricamente, era central: coordenar o trabalho conjunto de todos os ministérios. Na prática, porém, ele era visto por colegas como uma figura apagada. Nos corredores ministeriais, conversas entre interlocutores o descreviam como alguém cuja voz raramente ecoava em reuniões importantes. Sua ausência no show que Milei realizou na semana anterior, durante o lançamento de seu novo livro no Luna Park, um dos principais espaços de apresentações de Buenos Aires, havia sido o sinal mais claro de que seus dias no governo ultraliberal estavam contados.
Para substituí-lo, Milei escolheu Guillermo Francos, que até então era ministro do Interior. Diferentemente de Posse, Francos havia se destacado como figura protagonista nas negociações com o Congresso para tentar fazer avançar o pacote de medidas liberais que o governo pretendia aprovar e que permanecia travado no Senado. A nota emitida pelo gabinete presidencial, sob influência de Karina Milei, secretária-geral e irmã do presidente, praticamente ignorou Posse e dedicou-se a elogiar Francos, descrevendo-o como alguém reconhecido por "profissionalismo, experiência e capacidade política".
As razões exatas do desentendimento entre os dois homens, que se conheciam desde aproximadamente 2009 quando trabalhavam juntos, permaneciam nebulosas. Mas um episódio recente havia alimentado a tensão. Posse, que fazia parte da diretoria da petroleira estatal YPF, havia recebido um aumento salarial de 40%, acima da inflação. A ironia era cortante: Milei construía sua retórica política atacando o que chamava de "casta", a classe política tradicional que, segundo ele, aumentava seus próprios salários enquanto o Estado argentino enfrentava dificuldades orçamentárias. Posse, nesse contexto, havia se tornado um símbolo vivo dessa contradição.
Oriundo do setor privado e não da política tradicional, Posse havia sido uma das figuras centrais na interlocução do governo com a Casa Branca e organismos financeiros como o Fundo Monetário Internacional, trabalhando ao lado da chanceler Diana Mondino. Em seu primeiro informe ao Senado, no dia 15 de maio, ele havia replicado fielmente a cartilha do governo, defendendo a redução do tamanho do Estado, que descreveu como "muito grande", "impossível de pagar" e "tremendamente ineficaz".
A saída de Posse marcava a baixa mais significativa no governo Milei em quase seis meses de gestão. Em março anterior, já havia sido oficializada a saída de Guillermo Ferraro do Ministério de Infraestrutura. No lugar de Francos na pasta do Interior, que cuidava da articulação com estados, municípios e partidos, entraria Lisandro Catalán. A área seria rebaixada de ministério para secretaria, passando a responder diretamente à chefia de gabinete agora sob comando de Francos.
O conjunto de anúncios foi feito no dia em que Milei embarcava novamente para os Estados Unidos, onde permaneceria até sexta-feira. Tinha à sua frente uma série de reuniões com empresários de destaque, incluindo Timothy Cook, presidente-executivo da Apple, e Mark Zuckerberg, CEO da Meta. Era a quinta viagem de Milei aos EUA, embora o presidente argentino nunca tivesse se encontrado com Joe Biden na Casa Branca. Segundo levantamento do jornal La Nación, Milei era o presidente da era democrática argentina que mais havia viajado ao exterior no primeiro semestre de governo. Com essa ida aos EUA, o número chegaria a oito viagens.
Notable Quotes
Diferenças de critérios e expectativas na condução do governo e das tarefas a ele encomendadas— Casa Rosada, em comunicado oficial
Não apenas é muito grande como se tornou impossível de pagar e tremendamente ineficaz, com serviços de má qualidade— Nicolás Posse, em seu informe ao Senado sobre o tamanho do Estado
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que Posse era considerado inexpressivo se ocupava um cargo tão importante?
Porque a posição de chefe de gabinete é mais sobre coordenação administrativa do que poder político real. Posse não tinha a capacidade de persuasão ou a rede de influência que Francos demonstrou ter no Congresso. Ele era competente em tarefas técnicas, mas invisível nas decisões que realmente importavam.
O aumento salarial de 40% foi realmente o motivo da saída?
Provavelmente foi a gota d'água, não a causa raiz. Mas simbolizava uma hipocrisia que Milei não podia tolerar publicamente. Ele construiu sua campanha atacando exatamente esse tipo de comportamento. Posse se tornou um problema de imagem.
Francos é realmente mais capaz, ou apenas mais alinhado ideologicamente?
Ambas as coisas. Francos provou que consegue negociar no Congresso, o que Posse nunca fez. Mas também é mais ideologicamente próximo do núcleo duro do governo, incluindo Karina Milei. Isso importa tanto quanto competência.
O que muda para o governo com essa troca?
Francos tem mais poder político real. Ele não apenas coordena, ele negocia e influencia. O governo ganha velocidade nas suas agendas legislativas, pelo menos em teoria. Mas também fica mais concentrado em torno de um círculo menor de pessoas.
Por que Milei estava nos EUA quando isso aconteceu?
Talvez para criar distância. Ou simplesmente porque suas prioridades estão lá — com empresários americanos, com financistas. A Argentina é o palco onde ele governa, mas os EUA é onde ele quer estar.