Chanceler alemão classifica vitória da AfD como resultado 'sísmico' e descarta aliança

Não vou me desviar nem um milímetro da minha convicção
Merz reafirma sua posição inabalável sobre apoio à Ucrânia e defesa contra a Rússia, apesar da derrota eleitoral.
Mark

Como exatamente um partido que recebe 44% dos votos fica sem maioria no parlamento estadual?

Mimi

A Saxônia-Anhalt tem 83 cadeiras no parlamento estadual. A AfD conquistou 39 delas. Não é proporcional porque o sistema alemão tem regras específicas de distribuição de assentos.

Luke

Espera — então a AfD está tentando convencer deputados da CDU a votarem com eles para formar governo? Isso é constitucional?

Mimi

Sim, é. Deputados podem votar como quiserem em questões de governo. Mas historicamente, os partidos tradicionais se recusam a fazer isso com a extrema direita — é o "muro de contenção".

Mark

E Merz está dizendo que a CDU não vai fazer isso, certo?

Mimi

Exatamente. Ele foi muito claro: nenhuma aliança, nenhum trabalho conjunto.

Luke

Mas ele admitiu que seus próprios índices de popularidade estão nos níveis mais baixos. Quanto tempo ele consegue manter essa posição se a pressão aumentar?

Mimi

Essa é a questão real. Ele diz que não vai renunciar e que vai manter a agenda de reformas. Mas tem eleições regionais em duas semanas.

Mark

E a Rússia? Por que isso importa tanto aqui?

Mimi

A AfD quer acabar com as sanções à Rússia e reduzir o apoio à Ucrânia. Merz disse que não vai ceder nem um milímetro nessa questão.

Luke

Mas a AfD está crescendo justamente em estados pobres do leste. Esses são os lugares onde as pessoas podem estar mais desesperadas por mudança — qualquer mudança.

Mimi

Verdade. E a AfD oferece respostas simples: culpa a imigração, culpa a UE, culpa a política tradicional.

Mark

Então o que acontece agora?

Mimi

Merz espera que a CDU consiga se reorganizar antes das próximas eleições regionais. Mas o "muro de contenção" está sendo testado como nunca antes.

  • AfD conquistou 43,8% dos votos na Saxônia-Anhalt, dobrando seu resultado anterior
  • CDU caiu de 37,2% para 17,2%, a pior derrota em décadas
  • AfD tem 39 das 83 cadeiras no parlamento estadual, sem maioria absoluta
  • Friedrich Merz descartou qualquer aliança com a AfD
  • Saxônia-Anhalt é um dos estados mais pobres do leste alemão, com pouco mais de 2 milhões de habitantes

A AfD conquistou quase 44% dos votos na Saxônia-Anhalt, enquanto a CDU caiu de 37,2% para 17,2%, marcando a pior derrota do partido em décadas. O chanceler Merz descartou categoricamente qualquer trabalho conjunto com a AfD e mantém firme sua posição de apoio à Ucrânia e defesa contra a Rússia.

O partido de extrema direita AfD obteve 43,8% dos votos na Saxônia-Anhalt, dobrando seu resultado anterior. O chanceler Friedrich Merz descartou qualquer aliança com a legenda e classificou o resultado como a derrota mais dura da CDU em décadas.

Friedrich Merz acordou na segunda-feira de manhã como chanceler de um país que havia se movido sob seus pés. A noite anterior, eleitores da Saxônia-Anhalt haviam entregado quase 44% de seus votos à Alternativa para a Alemanha, a AfD, um partido de extrema direita que Merz e seus aliados tradicionais se recusam categoricamente a abraçar. O resultado não era apenas um revés eleitoral — era sísmico, na palavra que o próprio Merz escolheu para descrevê-lo.

A derrota da União Democrata-Cristã de Merz foi brutal em sua precisão. Onde o partido havia conquistado 37,2% dos votos na eleição anterior, agora recebia apenas 17,2%, uma queda de vinte pontos que Merz reconheceu como a mais dura derrota de seu partido em décadas. A AfD, por sua vez, mais que dobrou seu desempenho anterior no estado. Nenhum resultado recente havia sacudido a política alemã com tanta força. Merz, em entrevista coletiva em Berlim no dia seguinte à votação, não procurou minimizar o golpe. "Não apenas no país, mas também dentro do meu próprio partido político, e levo isso muito a sério", disse ele, reconhecendo que o resultado havia abalado as fundações da CDU.

O que tornava a situação ainda mais delicada era que a AfD, apesar de sua votação expressiva, não havia conquistado maioria absoluta no parlamento estadual da Saxônia-Anhalt. Com 39 das 83 cadeiras, o partido agora se movia para atrair deputados da CDU, buscando viabilizar o que seus líderes chamavam de uma "maioria conservadora de centro-direita". Tino Chrupalla, um dos copresidentes nacionais da AfD, apelava publicamente para que parlamentares da CDU abandonassem o que ele chamava de "jogos partidários" — uma referência direta ao "muro de contenção", a recusa histórica dos partidos tradicionais alemães em trabalhar com a extrema direita. Se bem-sucedida, essa manobra resultaria na primeira vez que uma legenda de extrema direita assumiria o poder em nível estadual na Alemanha do pós-guerra.

Merz, porém, fechou essa porta com clareza. Descartou qualquer aliança com a AfD, segundo informações da agência Reuters, e manteve sua posição com firmeza mesmo quando questionado sobre sua própria permanência no cargo. "Desistir não é uma opção para mim", afirmou. Ele também não cedeu no terreno da política externa. Quando perguntado sobre a possibilidade de mudar sua posição em relação à Rússia — uma questão central para a AfD, que defende o fim das sanções a Moscou e a redução do apoio alemão à Ucrânia — Merz foi categórico: "Não vou me desviar nem um milímetro da minha convicção fundamental de que precisamos defender nossa liberdade, especialmente agora, contra a Rússia". Ele argumentou que interromper o apoio à Ucrânia pioraria a situação e que a liderança russa buscava desestabilizar o sistema de valores ocidental.

O resultado da Saxônia-Anhalt reverberou para além das fronteiras alemãs. Na França, o ministro das Finanças Roland Lescure descreveu a votação como enviando um sinal "muito, muito preocupante", vendo nela um reflexo de uma onda populista que se espalhava pelo mundo. A Polônia também reagiu com preocupação. A França enfrentaria suas próprias eleições nacionais no ano seguinte, tornando o resultado alemão um aviso potencial sobre tendências políticas mais amplas.

Os números revelavam padrões que ajudavam a explicar o sucesso da AfD. Entre os homens, 50% votaram no partido, contra 39% das mulheres. Os eleitores da AfD tendiam a ter menor estabilidade econômica e menor escolaridade. A Saxônia-Anhalt, um estado de pouco mais de dois milhões de habitantes que havia integrado a Alemanha Oriental, era um dos mais pobres do leste do país — um terreno fértil para mensagens que culpavam a imigração e a política tradicional pelos problemas econômicos.

Alice Weidel, a outra copresidente nacional da AfD, chamou o resultado de marco histórico e sinalizou ambições ainda maiores: o partido buscava alcançar ao menos 40% na próxima eleição nacional, prevista para 2029. Merz, entretanto, tinha duas semanas para processar essa derrota antes de enfrentar novas eleições regionais em Berlim e em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. Ele prometeu que a CDU e a coalizão governamental fariam uma análise profunda sobre o que poderia ser feito de forma diferente. Seus índices de popularidade, nos níveis mais baixos já registrados, haviam contribuído para o resultado, e ele reconhecia que mudanças eram necessárias — mas não as mudanças que a AfD ou seus simpatizantes esperavam.

Não apenas no país, mas também dentro do meu próprio partido político, e levo isso muito a sério
— Friedrich Merz, chanceler alemão
Não vou me desviar nem um milímetro da minha convicção fundamental de que precisamos defender nossa liberdade, especialmente agora, contra a Rússia
— Friedrich Merz, sobre sua posição em relação à Rússia e Ucrânia
Contact Us FAQ