CEO do Rei do Mate alerta que fim da escala 6x1 afetará pequenas lojas

É fácil dizer que se quer isso, como criança preferindo menos escola
CEO do Rei do Mate questiona a lógica de trabalhar menos pela mesma remuneração em contexto de crise do varejo.
Mark

Quando você diz que a reforma tributária é um "empurrão para o abismo", está falando de um risco real de falências em massa?

Mimi

Não é risco, é certeza para muita gente. Já estamos vendo recuperações judiciais, concordatas. Pequenos lojistas não têm margem. Se o imposto sobe e o cliente não absorve preço, o negócio fecha.

Mark

Mas o Rei do Mate cresceu 7% no semestre. Como você cresce enquanto o setor sofre?

Mimi

Porque temos escala, temos parceiros, temos história. A maioria do pequeno varejo não tem nada disso. Eles estão sozinhos nessa.

Mark

Você compara o fim da escala 6x1 com uma criança que não quer ir à escola. Isso não soa um pouco cínico?

Mimi

Não é cinismo. É realidade. Ninguém nega o direito de ficar com a família. Mas quando o custo operacional sobe, quem paga é o consumidor que já está endividado. Não há mágica.

Mark

O Rei do Mate vai sentir impacto dessa mudança?

Mimi

Sim, até uma empresa grande e formalizada como a nossa sente. Mas sobrevivemos. As pequenas lojas? Muitas não vão.

Mark

Você mencionou trazer outras marcas para o grupo. Isso é uma estratégia de defesa?

Mimi

É oportunidade. Mas também é verdade que em tempos difíceis, quem tem estrutura consegue absorver negócios que estão em dificuldade. É assim que o mercado se nivela.

Mark

Qual é a vantagem real do Rei do Mate sobre a Starbucks ou o Juan Valdéz?

Mimi

Eles não sabem o que o brasileiro gosta. A gente sabe há 30 anos. Pão de queijo, açaí, coxinha — essas coisas não estão no manual deles. Aqui, a gente já nasceu sabendo.

  • A reforma tributária é descrita pelo CEO como um 'empurrão para o abismo': pequenos lojistas sem estrutura financeira não conseguirão absorver novos custos nem repassá-los a consumidores já endividados.
  • O possível fim da escala 6x1 elevaria custos operacionais em um momento em que falências e recuperações judiciais já assombram o varejo brasileiro.
  • Os juros altos persistem porque o capital estrangeiro está em fuga do país, criando um ambiente de crédito caro que sufoca margens e investimentos.
  • O Rei do Mate cresce 7% no semestre e aposta em parcerias com fornecedores e franqueados, além de buscar aquisição de marcas complementares para se reinventar.
  • A inovação no setor tem vida curta: produtos proteicos lançados como diferencial foram replicados por concorrentes em poucos meses, revelando a velocidade brutal do mercado.

Em São Paulo, o CEO de uma das maiores redes de food service do Brasil oferece um diagnóstico sombrio sobre o varejo nacional: a reforma tributária que se aproxima e o possível fim da escala 6x1 ameaçam empurrar pequenos comerciantes para a informalidade ou o fechamento. Antônio Carlos Nasraui fala a partir de quase cinco décadas de história familiar no setor — e é justamente essa experiência acumulada que torna seu alerta difícil de ignorar. O crescimento existe, mas coexiste com uma fragilidade estrutural que nenhum número de tíquete médio consegue esconder.

Antônio Carlos Nasraui comanda o Rei do Mate, rede fundada por seu pai no centro de São Paulo há quase cinco décadas, com cerca de 300 lojas e crescimento de 7% no faturamento no primeiro semestre de 2026. Os números são sólidos — tíquete médio e volume de transações avançaram — mas quando o assunto é o futuro do varejo brasileiro, o tom do executivo muda completamente.

Nasraui vê o setor sob pressão simultânea de custos trabalhistas, juros elevados e consumidores endividados. Os juros não devem cair, avalia, porque o capital estrangeiro está saindo do país. O Rei do Mate resiste porque construiu relações sólidas com fornecedores e franqueados, e porque conhece o mercado local de um jeito que grandes redes internacionais ainda estão aprendendo — enquanto a Starbucks chegava ao Brasil sem saber o que era açaí, a empresa já trabalhava há décadas com pão de queijo.

A reforma tributária, no entanto, preocupa profundamente o CEO. Ele a descreve como um golpe para o varejo menor: muitos pequenos comerciantes não têm estrutura para absorver novos custos, e o consumidor endividado não tem margem para aceitar reajustes de preço. Nasraui prevê que a reforma pode empurrar lojistas para a informalidade — deixar de emitir nota fiscal pode se tornar a única saída para quem não tem alternativa.

O possível fim da escala 6x1 agrava o cenário. Nasraui reconhece o direito das pessoas de querer mais tempo com a família, mas questiona a lógica de trabalhar menos pela mesma remuneração em um momento em que o varejo já enfrenta falências e recuperações judiciais. Um aumento de custo operacional, diz ele, será fatal para lojas menores.

Apesar do pessimismo estrutural, a empresa segue em movimento: busca aquisições de marcas complementares e se reinventa constantemente. O Rei do Mate permanecerá na família, garante Nasraui — mas o destino do varejo brasileiro menor dependerá de como essas duas grandes mudanças serão, afinal, implementadas.

Antônio Carlos Nasraui comanda uma das maiores redes de food service do Brasil. O Rei do Mate, fundado por seu pai no centro de São Paulo há quase cinco décadas, opera cerca de 300 lojas e cresceu 7% no faturamento durante o primeiro semestre de 2026. Os números parecem sólidos — o tíquete médio subiu 7%, e a quantidade de transações avançou 9%. Mas quando Nasraui fala sobre o futuro do varejo brasileiro, o tom muda. Ele enxerga um setor sob pressão extrema, e duas questões o preocupam particularmente: a reforma tributária que se aproxima e o possível fim da escala de trabalho 6x1.

O executivo não poupa palavras ao descrever o cenário. O varejo, diz ele, está em um momento delicado. Cafeterias, restaurantes, lojas de food service — todos enfrentam pressão simultânea de custos trabalhistas, juros altos e consumidores endividados. Os juros não vão cair, observa, porque não há capital estrangeiro entrando no país. "Todo mundo está fugindo." Mesmo assim, o Rei do Mate consegue crescer porque construiu parcerias sólidas com fornecedores e franqueados, e porque conhece o gosto brasileiro de forma que grandes redes internacionais ainda estão aprendendo. Quando a Starbucks chegou ao Brasil, seu fundador não sabia o que era açaí ou coxinha. O Rei do Mate trabalha há 30 anos com pão de queijo. Essa intimidade com o mercado local é um ativo que nem mesmo marcas globais conseguem replicar rapidamente.

Mas a reforma tributária, na visão de Nasraui, será um golpe devastador para o varejo menor. Ele a descreve como um "empurrão do varejo para o abismo". Muitos pequenos comerciantes não têm estrutura para absorver novos custos. Não há para onde correr. O problema não é apenas o imposto em si, mas a impossibilidade de repassá-lo ao consumidor. O cliente está endividado, sem margem para absorver aumentos de preço. A briga, diz Nasraui, é entregar mais cobrando um preço justo — e isso fica cada vez mais difícil. Ele prevê que a reforma pode gerar mais informalidade, com pequenos lojistas deixando de emitir nota fiscal porque não terão alternativa. A logística já é difícil no Brasil, as diferenças de impostos entre estados já complicam a operação, e agora vem a reforma tributária. É uma arte conseguir trazer produto de qualidade e manter preço justo para um público em boa parte endividado.

O possível fim da escala 6x1 agrava o quadro. Nasraui reconhece que é um direito das pessoas querer passar mais tempo com a família, e que ninguém deve ser proibido de escolher trabalhar mais. Mas ele questiona a lógica de trabalhar menos pela mesma remuneração. "É fácil dizer que se quer isso, da mesma forma que uma criança sempre vai preferir ir menos vezes à escola." A comparação é provocadora, mas o ponto é sério: em um momento em que o varejo já enfrenta falências, recuperações judiciais e concordatas, um aumento de custo operacional pode ser fatal para lojas menores. Se o custo salarial subir, haverá repasse de preço, e o consumidor endividado não tem elasticidade para absorver isso. As lojas menores que o Rei do Mate serão muito afetadas.

Apesar desse pessimismo estrutural, Nasraui mantém a empresa em crescimento. O Rei do Mate busca oportunidades de mercado, incluindo a possibilidade de trazer outras marcas para o grupo, desde que estejam no mesmo segmento. A empresa completa 48 anos, e Nasraui diz que precisa se reinventar constantemente — de manhã e à tarde, a cada período. Lançou produtos proteicos no início do ano esperando ser disruptivo, mas em poucos meses todo mundo entrou nesse mercado. A informação circula rápido demais para que qualquer inovação dure muito. A empresa permanecerá na família, diz ele. Mas o futuro do varejo brasileiro, particularmente das lojas pequenas, dependerá de como essas duas grandes mudanças — a reforma tributária e a possível alteração da jornada de trabalho — serão implementadas.

Será mais um empurrão do varejo para o abismo. Muita gente não tem estrutura, não tem mais para onde correr.
— Antônio Carlos Nasraui, CEO do Rei do Mate
É fácil dizer que se quer isso, da mesma forma que uma criança sempre vai preferir ir menos vezes à escola.
— Antônio Carlos Nasraui, sobre o fim da escala 6x1
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