Em meio à corrida global por minerais essenciais à transição energética, o Brasil se vê diante de um paradoxo: possui um dos maiores potenciais geológicos do mundo, mas seus próprios entraves regulatórios e a insegurança jurídica impedem que esse potencial se converta em riqueza e trabalho. Executivos da Vale e legisladores reuniram-se para nomear os obstáculos — licenciamentos lentos, ações judiciais sem consequência, regulamentação uniforme para realidades distintas — e esboçar caminhos antes que a janela histórica se feche. A questão não é apenas econômica; é sobre o lugar que o país escolh
CEO da Vale alerta: Brasil perde corrida por minerais críticos sem resolver entraves regulatórios
Ninguém paga nada, perde e entra de novo
Por que o Brasil está perdendo essa corrida por minerais críticos? Parece que temos recursos naturais.
Temos os recursos, mas não temos velocidade. Um projeto leva sete a quinze anos para sair do papel. Enquanto isso, outros países já estão operando.
Mas isso é verdade em qualquer lugar, não? Mineração é lenta por natureza.
É, mas aqui tem um agravante: a insegurança jurídica. Licenças já concedidas podem ser paralisadas por ações judiciais sem que ninguém pague por isso.
Então é um problema de regras do jogo que mudam no meio do caminho?
Exatamente. Um investidor não sabe se o que foi aprovado hoje vai estar válido amanhã. Isso afasta capital.
A Vale está pedindo menos regulação ou regulação melhor?
Melhor. Eles querem regras claras e específicas para minerais críticos, não as mesmas regras para tudo.
E o Congresso está fazendo algo?
Está. Aprovou licenciamento especial e trabalha em um Marco Legal. Mas ainda há tensão sobre quanto controle manter.
Qual é o número que realmente importa aqui?
Se o Brasil resolver isso, pode gerar 2 milhões de empregos e aumentar arrecadação de R$ 74 bilhões para R$ 130 bilhões em dez anos.
Isso é muito dinheiro.
É. E é dinheiro que está sendo deixado para trás enquanto a gente discute.
Der Puls
- O Brasil pode dobrar sua arrecadação mineral em dez anos — de R$ 74 bilhões para R$ 130 bilhões — mas apenas se remover os gargalos que hoje afastam investidores para outros países.
- Projetos de mineração levam entre 7 e 15 anos para sair do papel, e é nessa janela longa e incerta que bilhões em investimento morrem ou migram.
- A insegurança jurídica é apontada como vilã central: ações civis públicas sem custo para quem as move permitem que um único servidor paralise empresas com milhares de funcionários.
- O Congresso aprovou licenciamento especial e avança no Marco Legal dos Minerais Críticos, mas o debate sobre como estimular o processamento local sem engessar a iniciativa privada ainda divide opiniões.
- A proposta mais concreta é criar forças-tarefas exclusivas para grandes empreendimentos, integrando comunidades e governo desde o início para destravar aprovações sem sacrificar a participação social.
Em meio à corrida global por minerais essenciais à transição energética, o Brasil se vê diante de um paradoxo: possui um dos maiores potenciais geológicos do mundo, mas seus próprios entraves regulatórios e a insegurança jurídica impedem que esse potencial se converta em riqueza e trabalho. Executivos da Vale e legisladores reuniram-se para nomear os obstáculos — licenciamentos lentos, ações judiciais sem consequência, regulamentação uniforme para realidades distintas — e esboçar caminhos antes que a janela histórica se feche. A questão não é apenas econômica; é sobre o lugar que o país escolhe ocupar em uma transformação civilizatória que já está em curso.
Gustavo Pimenta, presidente da Vale, apresentou números que funcionam como um ultimato silencioso: se o Brasil resolver seus entraves regulatórios na próxima década, a arrecadação do setor minerador pode saltar de R$ 74 bilhões para R$ 130 bilhões em impostos e royalties, acompanhada da criação de mais de 2 milhões de postos de trabalho. A mensagem subjacente era direta — o país está deixando oportunidades históricas sobre a mesa.
O debate revelou uma desconexão entre o que o Brasil poderia ser e o que consegue fazer. Rafael Bittar, vice-presidente técnico da Vale, explicou que um projeto de mineração leva entre sete e quinze anos desde a prospecção até a operação — e é nessa janela que investimentos morrem ou migram. Sua sugestão foi pragmática: forças-tarefas exclusivas para grandes empreendimentos, com comunidades e governo envolvidos desde o início. Bittar alertou ainda para o risco de aplicar a mesma regulamentação a minerais críticos — que operam em escala de milhares de toneladas — e a commodities como ferro e cobre, que movem milhões.
A insegurança jurídica dominou parte do debate. Kátia Abreu, ex-ministra e conselheira da Sigma Lithium, criticou o uso de ações judiciais contra licenças já concedidas, apontando que no Brasil esse mecanismo não tem custo para quem o aciona — o que permite paralisar empresas com milhares de funcionários sem qualquer consequência para o autor da ação.
O deputado Arnaldo Jardim, relator do Marco Legal dos Minerais Críticos, defendeu que o Legislativo age ativamente: a Câmara aprovou licenciamento especial voltado a empreendimentos da transição energética, e pelo menos duas propostas tramitam para reorganizar o setor. Jardim justificou mecanismos como o prazo de dez anos para pesquisa de campo — contado a partir do licenciamento ambiental — como forma de combater a especulação e estimular o processamento interno. Sobre exportações, foi enfático: contratos de off-taker devem ser para produtos já beneficiados, não para a commodity bruta.
O que estava em jogo naquele encontro não era apenas regulamentação ou prazos. Era a posição do Brasil em uma corrida global que já avança — enquanto o país ainda debate como dar o primeiro passo.
Gustavo Pimenta, presidente da Vale, apresentou um cenário econômico que funciona como ultimato silencioso: se o Brasil resolver seus entraves regulatórios nos próximos dez anos e recuperar sua fatia compatível com o potencial geológico do país, a arrecadação nacional de impostos e royalties do setor minerador saltará de R$ 74 bilhões para R$ 130 bilhões. Junto a isso viria a criação de mais de 2 milhões de postos de trabalho ao longo de toda a cadeia produtiva. A mensagem subjacente era clara: o país está deixando dinheiro e oportunidades sobre a mesa.
O debate que reuniu executivos e autoridades em torno dos minerais críticos — aqueles essenciais para a transição energética global — revelou uma desconexão entre o que o Brasil poderia ser e o que efetivamente consegue fazer. Rafael Bittar, vice-presidente técnico da Vale, explicou a realidade dos prazos: desde a prospecção inicial até o início efetivo da operação, um projeto de mineração leva entre sete e quinze anos para se concretizar. Essa janela longa e incerta é onde muitos investimentos morrem ou migram para outros países. A sugestão de Bittar foi pragmática — criar forças-tarefas exclusivas para os grandes empreendimentos, trazendo comunidades e governo para a conversa desde o princípio, com o objetivo de agilizar os processos de aprovação governamental. "A mineração é uma indústria muito complexa, e muitas vezes a gente tende a simplificar", alertou Bittar, ressaltando que os minerais críticos operam em escala de milhares de toneladas, enquanto ferro e cobre movem milhões. Aplicar a mesma regulamentação para realidades tão distintas, segundo ele, é correr o risco de perder valor que poderia ser extraído para o país.
A insegurança jurídica emergiu como vilã recorrente no debate. Kátia Abreu, ex-ministra da Agricultura e atual conselheira da Sigma Lithium, criticou duramente o uso constante de ferramentas judiciais contra licenças já concedidas, argumentando que essa prática afasta investidores. Ela apontou uma assimetria: nos Estados Unidos, quando um procurador entra com ação civil pública e perde, precisa arcar com os custos, gerando responsabilidade. No Brasil, segundo Abreu, o processo funciona sem consequência — "é por hora, como se estivesse fazendo pão francês. Ninguém paga nada, perde e entra de novo". Essa dinâmica permite que um único servidor público paralise uma empresa com 1.500 funcionários que fatura bilhões.
O Congresso, porém, não ficou passivo. Arnaldo Jardim, deputado federal pelo Cidadania de São Paulo e relator do projeto que fundamenta o Marco Legal dos Minerais Críticos e Estratégicos, defendeu que o Legislativo trabalha ativamente para melhorar o ambiente de negócios. Ele citou a aprovação na Câmara de legislação que institui o licenciamento especial, mecanismo desenhado especificamente para abranger novos empreendimentos focados na transição energética. Pelo menos duas propostas tramitam no Congresso para estabelecer as novas regras do setor. Abreu elogiou os incentivos de crédito e a criação de fundos garantidores presentes nos textos, mas questionou dispositivos que, em sua visão, engessam a iniciativa privada.
Jardim rebateu as críticas justificando que os novos mecanismos — como a formação de um conselho de homologação para alterações societárias e a limitação das pesquisas de campo a uma década — miram o combate à especulação e o estímulo ao processamento interno. O prazo de pesquisa, explicou, é contado a partir do licenciamento ambiental e tem a finalidade de evitar que empresas obtenham direitos de lavra e os mantenham como ativos especulativos. Quanto à exportação, Jardim concordou com contratos de off-taker, mas ressalvou que eles não devem ser feitos com a commodity bruta. O contrato deve ser para fornecer um produto já em fase de beneficiamento ou transformação, garantindo liberdade de exportação apenas depois dessa agregação de valor.
O beneficiamento local — o que a indústria chama de downstream — depende fortemente de insumos competitivos, conforme Pimenta reforçou em sua exposição. O líder da Vale defendeu que equacionar os gargalos estruturais é o passo definitivo para que o Brasil assuma protagonismo na nova economia sustentável. O que estava em jogo naquele debate não era apenas regulamentação ou prazos, mas a posição do país em uma corrida global que já estava em andamento, com outros concorrentes avançando enquanto o Brasil ainda resolvia como começar.
Bemerkenswerte Zitate
A mineração é uma indústria muito complexa, e muitas vezes a gente tende a simplificar. Quando falamos de minerais críticos, estamos falando de milhares de toneladas, enquanto no minério de ferro ou no cobre a escala é de milhões.— Rafael Bittar, vice-presidente técnico da Vale
Não há mais possibilidade de o Ministério Público Estadual ou Federal paralisar uma empresa com 1.500 funcionários, que fatura bilhões, com uma única caneta de um cidadão lá no órgão ambiental.— Kátia Abreu, ex-ministra da Agricultura e conselheira da Sigma Lithium