Celina anuncia duplicação de orçamento e novo modelo para acolher dependentes químicos no DF

Seis pessoas em situação de rua morreram por suicídio no ano anterior, motivando as novas políticas de acolhimento e tratamento.
Quando eu pego uma pessoa em surto, tudo está errado
A governadora criticou o protocolo anterior que enviava pessoas em crise para UPAs por sete dias e depois as devolvia às ruas.

Diante de seis mortes por suicídio entre pessoas em situação de rua no ano anterior, a governadora do Distrito Federal, Celina Leão, reconheceu publicamente que o modelo vigente de acolhimento falha em seu propósito essencial. Em junho de 2026, ela anunciou a duplicação do orçamento destinado a essa população e a reformulação completa dos protocolos de atendimento, incluindo um novo marco legal que distingue o cuidado voluntário da internação involuntária — esta última reservada a situações de risco iminente e condicionada à avaliação médica. O gesto revela uma tensão antiga entre urgência humanitária e eficácia institucional: acolher não basta se o caminho de volta à rua permanece aberto.

  • Seis mortes por suicídio em um ano entre pessoas em situação de rua expuseram a falência silenciosa do sistema de acolhimento do DF.
  • O ciclo vicioso era claro: quem chegava em surto era enviado à UPA por sete dias e depois devolvido às ruas, sem continuidade de cuidado.
  • O governo assinou um projeto de lei que institui a internação involuntária como medida de última instância, obrigatoriamente precedida de laudo médico e comunicada ao Ministério Público em até 72 horas.
  • Comunidades terapêuticas receberão mais vagas e recursos, enquanto políticas de reinserção profissional tentam fechar a lacuna que existe após os 12 meses de tratamento.
  • A governadora mira explicitamente evitar a formação de 'cracolândias' no DF, buscando referências em experiências de São Paulo para estruturar um modelo de acolhimento com dignidade e continuidade.

Numa segunda-feira de junho, a governadora Celina Leão visitou o Centro de Reintegração Deus Proverá e fez um diagnóstico sem eufemismos: o sistema atual não funciona. Pessoas chegam em surto, ficam sete dias na UPA e voltam para as ruas. Para ela, tudo errado.

O plano anunciado dobra o orçamento para acolhimento e redesenha o fluxo de atendimento em dois caminhos distintos. Quem aceita ajuda voluntariamente é encaminhado a comunidades terapêuticas. Nos casos graves, com risco iminente a si mesmo ou a terceiros, prevê-se internação involuntária — mas apenas após avaliação técnica de médicos, não de burocratas ou policiais. Dias antes, Leão havia assinado um projeto de lei que formaliza essas diretrizes, define a internação involuntária como medida excepcional e de prazo determinado, e exige comunicação ao Ministério Público em até 72 horas.

A governadora também voltou atenção ao que acontece depois do tratamento. Completar 12 meses de recuperação sem perspectiva de trabalho, argumentou ela, deixa a reabilitação incompleta. Por isso, o governo desenvolve políticas de reinserção profissional para facilitar o retorno ao mercado.

Por trás de todo o anúncio há um número concreto: seis pessoas em situação de rua morreram por suicídio no ano anterior. Leão citou esses dados como a razão da urgência. As mudanças, portanto, não são apenas administrativas — são uma resposta a mortes que o poder público reconhece que poderiam ter sido evitadas.

Celina Leão chegou ao Centro de Reintegração Deus Proverá numa segunda-feira de junho com uma crítica contundente ao sistema que seu próprio governo havia herdado. A governadora do Distrito Federal não usou rodeios: o modelo atual de acolhimento para pessoas em situação de rua e dependentes químicos não funciona. Quando alguém chega em surto, explicou, é mandado para a UPA, fica sete dias, e depois é devolvido às ruas. Tudo errado, disse ela.

Para corrigir esse caminho, Leão anunciou um plano ambicioso: dobrar o orçamento destinado ao acolhimento, expandir o número de vagas em comunidades terapêuticas e, mais importante, redesenhar completamente o fluxo de atendimento. O governo está revendo os protocolos que guiam o trabalho com pessoas vulneráveis e em surtos causados pelo uso de drogas. A proposta reconhece que não existe uma solução única para todos os casos.

O novo modelo cria dois caminhos distintos. Para quem aceita ajuda voluntariamente, há encaminhamento direto para comunidades terapêuticas. Para os casos mais graves — aqueles em que a pessoa representa risco iminente a si mesma ou a terceiros — o governo prevê internação involuntária, mas com uma diferença crucial: será precedida de avaliação técnica realizada por médicos. A decisão sobre internação não será tomada por burocratas ou policiais, mas por profissionais de saúde que farão laudos e avaliarão se a pessoa realmente está em surto e oferecendo perigo.

Essa abordagem foi formalizada dias antes, quando Leão assinou um projeto de lei instituindo novas diretrizes para o acolhimento. O texto define a internação involuntária como medida de última instância, aplicada apenas em situações excepcionais e por prazo determinado. Quando ocorrer, o Ministério Público e órgãos de fiscalização devem ser comunicados em até 72 horas. O projeto também estabelece o que chama de acolhimento humanizado: um conjunto articulado de ações públicas voltadas à proteção integral, com princípios que incluem dignidade, autonomia, escuta qualificada e atenção à saúde física e mental.

Mas Leão foi além do diagnóstico imediato. Ela apontou um problema que muitos sistemas de saúde ignoram: o que acontece depois. Quando alguém completa 12 meses de tratamento e recebe alta, precisa de algo mais que abstinência. Precisa de trabalho. O governo está desenvolvendo políticas de reinserção profissional para que essas pessoas tenham alternativas reais de retorno ao mercado de trabalho. Sem isso, disse ela, a recuperação fica incompleta.

A governadora também revelou sua preocupação com o que chama de cracolândias — áreas urbanas marcadas pelo consumo aberto de drogas. O governo está buscando referências em iniciativas de São Paulo para evitar que o Distrito Federal desenvolva espaços assim. O objetivo não é apenas acolher, mas acolher bem, com dignidade e estrutura adequada.

Por trás dessas políticas há um número que pesou na decisão: seis pessoas em situação de rua morreram por suicídio no ano anterior. Leão citou esses dados como justificativa para a urgência das mudanças. Essas eram pessoas oferecendo risco para si mesmas, disse ela, e é exatamente esse grupo que o governo quer acolher, tratar e cuidar. O anúncio, portanto, não é apenas sobre orçamento ou protocolos. É uma resposta a mortes que poderiam ter sido evitadas.

Aquela pessoa que quiser ir para uma comunidade terapêutica vai de livre e espontânea vontade. Já as pessoas que estão em um surto total passarão por uma análise realizada por médicos para uma internação involuntária humanizada
— Celina Leão, governadora do Distrito Federal
Temos uma pessoa que está recebendo alta depois de 12 meses. Precisa ter uma política de emprego para essas pessoas. Elas venceram o vício e agora precisam de uma alternativa para retornar ao mercado de trabalho
— Celina Leão
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que dobrar o orçamento agora? O que mudou?

Model

Seis pessoas em situação de rua se mataram no ano passado. Quando você vê esse número, fica claro que o sistema anterior não estava funcionando. Não era questão de mais dinheiro no mesmo modelo — era questão de mudar o modelo inteiro.

Inventor

Mas internação involuntária é um passo delicado. Como garantir que não vira abuso?

Model

Por isso a lei exige avaliação médica obrigatória e comunicação ao Ministério Público em 72 horas. A decisão não fica com um policial ou um burocrata. Fica com um médico que precisa atestar risco iminente. É a tentativa de humanizar algo que historicamente foi desumano.

Inventor

E depois que a pessoa sai do tratamento? Seis meses depois ela volta para a rua sem emprego?

Model

Exatamente esse é o problema que ninguém resolve. Celina está falando em políticas de reinserção profissional. Alguém que venceu o vício precisa de uma porta de entrada no mercado de trabalho, não apenas de alta hospitalar.

Inventor

Você acha que vai funcionar?

Model

Depende de como é implementado. O desenho está certo — diferencia casos voluntários de casos graves, envolve médicos, prevê acompanhamento. Mas políticas públicas vivem de execução. Se virar burocracia pura, falha. Se virar apenas internação sem reinserção, falha também.

Inventor

E a questão das cracolândias que ela mencionou?

Model

É uma preocupação legítima. Sem acolhimento estruturado, essas áreas crescem. Com acolhimento mal feito, você apenas desloca o problema. O governo está tentando evitar os dois cenários.

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