Em Portugal, o mercado automóvel avança com passo firme mas desigual: enquanto as marcas europeias tradicionais mantêm o domínio histórico, fabricantes chineses como a BYD crescem a ritmos vertiginosos a partir de uma base ainda quase invisível. Em Mangualde, a Stellantis inaugura a produção de elétricos em solo português, sinalizando que a transição energética já não é promessa — é chão de fábrica. O que está verdadeiramente em jogo não é apenas a quota de mercado, mas a reconfiguração silenciosa de quem fabrica, quem vende e quem define o futuro da mobilidade na Europa.
Carros chineses crescem 1150% mas ainda longe do top 10 português
Crescimento espetacular que parte de uma base tão pequena
Como é possível a BYD crescer 1150% e ainda assim estar no 21.º lugar?
Porque começou praticamente do zero. Se vendeu 10 carros no ano passado e 125 este ano, tecnicamente cresceu 1150%. O número absoluto continua minúsculo, mas a taxa de crescimento é real.
Então as marcas chinesas não são ainda uma ameaça real ao mercado português?
Não neste momento. Mas o padrão é claro — crescem muito mais depressa que qualquer concorrente. Se mantiverem este ritmo durante alguns anos, mesmo começando de baixo, eventualmente ganham relevância.
E as tarifas da UE vão travar isto?
Provavelmente vão abrandar. Tornam os carros chineses mais caros, o que reduz a vantagem competitiva que tinham. Mas não sabemos se será o suficiente para parar o movimento completamente.
Porque é que a Peugeot é líder se está em queda?
Porque começou de um lugar tão alto que mesmo caindo continua à frente. É como ser o jogador mais velho do campo — ainda marca golos, mas os mais jovens estão a ganhar velocidade.
O que muda realmente neste mercado?
Os motores. O gasóleo desapareceu. Os elétricos e híbridos já são mais de metade das vendas. Isso é uma transformação profunda que vai remodelar toda a indústria nos próximos anos.
The Pulse
- A BYD cresceu 1150% em vendas em Portugal num ano, mas ainda ocupa apenas o 21.º lugar — um paradoxo que revela tanto o impulso chinês como a distância que ainda falta percorrer.
- O gasóleo, outrora rei absoluto das estradas portuguesas, caiu para apenas 8,7% das novas matrículas, enquanto as energias alternativas ultrapassam pela primeira vez a maioria com 55,2%.
- A Comissão Europeia propõe tarifas aduaneiras sobre elétricos chineses, alegando subsídios estatais desleais — uma medida que pode cortar o crescimento acelerado destas marcas antes que ganhem massa crítica.
- Em Mangualde, a Stellantis começa a produzir elétricos em série, posicionando Portugal como território de resposta industrial europeia à pressão asiática.
- O mercado português cresceu 4,6% nos primeiros nove meses de 2024, com Peugeot, Renault e Mercedes a segurar o topo — mas a Toyota é a única marca asiática a entrar no top 5, e nenhuma chinesa se aproxima do pódio.
Em Portugal, o mercado automóvel avança com passo firme mas desigual: enquanto as marcas europeias tradicionais mantêm o domínio histórico, fabricantes chineses como a BYD crescem a ritmos vertiginosos a partir de uma base ainda quase invisível. Em Mangualde, a Stellantis inaugura a produção de elétricos em solo português, sinalizando que a transição energética já não é promessa — é chão de fábrica. O que está verdadeiramente em jogo não é apenas a quota de mercado, mas a reconfiguração silenciosa de quem fabrica, quem vende e quem define o futuro da mobilidade na Europa.
Em Mangualde, a Stellantis deu início à produção em série de veículos elétricos, marcando um momento simbólico para a indústria automóvel portuguesa num ano de transformação acelerada. O mercado cresceu 4,6% nos primeiros nove meses de 2024, com 186.996 novos veículos matriculados — um avanço modesto, mas que esconde histórias muito distintas a acontecer em simultâneo.
A Peugeot mantém a liderança nacional, seguida por Renault, Mercedes, Dacia e Toyota — a única marca asiática no top 5. A Tesla aparece no nono lugar. As marcas chinesas, apesar do ruído que geram, ainda não chegam perto deste patamar. A BYD é o caso mais chamativo: cresceu 1150% face ao mesmo período de 2023, mas parte de uma base tão reduzida que ocupa apenas o 21.º lugar do ranking. O volume absoluto continua residual.
O que verdadeiramente muda é a motorização. O gasóleo caiu para 8,7% das novas matrículas. As energias alternativas já representam 55,2% dos carros novos registados em 2024, com os totalmente elétricos em 18,4% e os híbridos convencionais em 16,5%. A gasolina mantém 36%, mas a tendência é inequívoca.
Este crescimento das marcas chinesas decorre num contexto de tensão regulatória. A Comissão Europeia concluiu que os fabricantes chineses beneficiam de apoios estatais que lhes permitem praticar preços artificialmente competitivos, e propôs tarifas aduaneiras adicionais sobre os seus elétricos. Se e quando essa medida entrar em vigor, o ritmo de crescimento da BYD e das suas congéneres pode abrandar consideravelmente. Por agora, o mercado português permanece um território europeu — mas os alicerces estão, lentamente, a mover-se.
Em Mangualde, no distrito de Viseu, a Stellantis ligou os motores de uma nova era. A fábrica portuguesa do grupo multinacional começou a produzir em série veículos elétricos — um marco que marca o reposicionamento da indústria automóvel nacional num momento em que o mercado inteiro está em transformação acelerada. Mas enquanto a Europa debate o futuro dos carros chineses, Portugal continua a ser um território onde as marcas asiáticas ainda mal conseguem ganhar tração.
Os números de Setembro fecham o terceiro trimestre com uma fotografia clara: o mercado português de automóveis ligeiros cresceu 4,6% nos primeiros nove meses de 2024 face ao período homólogo do ano anterior. Foram colocados em circulação 186.996 novos veículos. O crescimento é modesto, mas existe. E dentro dele há histórias muito diferentes a desenrolar-se em paralelo.
A Peugeot mantém a coroa. É a marca mais vendida em Portugal, apesar de ser a única do top 5 a registar uma queda homóloga ao fim de três trimestres. Atrás dela vêm Renault, Mercedes, Dacia e Toyota — a única marca asiática que conseguiu entrar no top 5 nacional. O resto do top 10 inclui a Tesla no nono lugar. Nenhuma marca chinesa consegue sequer aproximar-se deste pódio.
Mas há um crescimento que não pode ser ignorado. A BYD, fabricante chinesa de veículos elétricos, viu as suas vendas explodir 1150% entre Janeiro e Setembro de 2024 comparado com o mesmo período de 2023. O problema é que este crescimento espetacular parte de uma base tão pequena que a BYD ocupa apenas o 21.º lugar do ranking nacional. Em termos absolutos, o volume de vendas continua residual. Globalmente, as marcas chinesas ainda representam uma fatia minúscula do mercado português, mas quando se compara com o ano anterior, são claramente as que crescem mais depressa.
O que realmente está a mudar em Portugal é a natureza dos motores. O gasóleo, que foi rei durante décadas, caiu para 8,7% das novas matrículas em 2024. A gasolina mantém 36% de quota. Mas o grande movimento está nas energias alternativas: 55,2% de todos os carros novos registados este ano funcionam com tecnologias que não dependem de combustíveis fósseis. Os veículos totalmente elétricos representam 18,4% das vendas, enquanto os híbridos convencionais — aqueles que não podem ser carregados na tomada — ficam-se pelos 16,5%. Dentro dos ligeiros de passageiros, o crescimento foi de apenas 2,9%, mas os ligeiros de mercadorias subiram 17%.
Esta transformação tecnológica está a acontecer num contexto europeu tenso. A Comissão Europeia investigou as práticas comerciais das marcas chinesas e concluiu que conseguem oferecer preços mais competitivos porque beneficiam de ajudas de Estado no país de origem. A resposta foi propor tarifas aduaneiras adicionais sobre os carros elétricos chineses. Quando esta decisão entrar em vigor, o cenário pode mudar radicalmente. Os preços podem subir. O crescimento acelerado que a BYD e outras marcas chinesas estão a registar pode abrandar significativamente.
Por enquanto, em Portugal, o mercado continua dominado pelas marcas tradicionais europeias. Mas a velocidade a que as marcas chinesas estão a crescer — mesmo que partindo de números pequenos — é um sinal de que algo se está a mover nos alicerces. A questão agora é se as tarifas conseguem travar este movimento antes que ganhe verdadeira massa crítica.
Notable Quotes
As marcas chinesas ainda representam uma fatia minúscula do mercado português, mas quando se compara com o ano anterior, são claramente as que crescem mais depressa.— Análise de dados da ACAP