No último dia do ano, o secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, levantou duas questões que tocam no coração da governação pública: a independência das instituições de saúde face à influência partidária, e a capacidade do Estado de antecipar crises em momentos de maior pressão. As acusações de que administradores hospitalares estão a ser substituídos por militantes do PSD, sem fundamento de desempenho, e as dúvidas sobre o planeamento nos aeroportos durante o Natal, colocam o Governo perante um escrutínio que vai além da conjuntura — interrogam a fronteira entre gestão e política.
Carneiro acusa Governo de exonerar administrações hospitalares por razões políticas
Tem fundamentos estritamente de natureza política
Porque é que Carneiro insiste que isto é política e não gestão?
Porque não há justificação pública para as exonerações. Se as administrações funcionavam bem, porque as afastar? A única explicação que sobra é que são do lado errado politicamente.
Mas o Governo não pode simplesmente querer a sua própria equipa?
Pode, claro. Mas há uma diferença entre escolher a tua equipa e afastar pessoas que estão a fazer bem o trabalho. Carneiro está a dizer que isto é um padrão — primeiro o SNS, agora os hospitais.
E quanto aos aeroportos? Porque é que Carneiro questiona se havia um plano?
Porque o Governo teve de suspender um sistema europeu inteiro. Se houvesse planeamento, talvez tivessem antecipado o pico de Natal e Ano Novo. Isto parece reativo, não proativo.
Marques Mendes discorda?
Não exatamente. Ele concorda que a decisão foi boa, mas diz que foi tardia. Portanto, até quem não é do PS reconhece que o Governo agiu tarde demais.
Qual é o risco real aqui?
Segurança no aeroporto, principalmente. Se suspenderam um sistema de controlo, há questões sobre se o controlo está realmente a funcionar bem. E politicamente, isto alimenta a narrativa de que o Governo é desorganizado.
El Pulso
- Carneiro acusa o Governo de disfarçar decisões políticas de gestão hospitalar, denunciando que os substitutos das administrações exoneradas seriam militantes do PSD.
- O padrão não seria novo: a exoneração anterior de Fernando Araújo, substituído por um nome do PSD, é invocada como precedente com resultados negativos.
- No aeroporto de Lisboa, a suspensão do novo sistema europeu de controlo de fronteiras e o reforço com militares da GNR revelam uma crise operacional que o PS atribui à ausência de planos de contingência.
- Luís Marques Mendes, candidato presidencial, defende que a decisão governamental foi correta — mas tardia, abrindo uma fissura entre quem vê incompetência e quem vê apenas atraso.
- Carneiro exige respostas do primeiro-ministro, argumentando que a segurança interna é responsabilidade direta do chefe do Governo.
No último dia do ano, o secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, levantou duas questões que tocam no coração da governação pública: a independência das instituições de saúde face à influência partidária, e a capacidade do Estado de antecipar crises em momentos de maior pressão. As acusações de que administradores hospitalares estão a ser substituídos por militantes do PSD, sem fundamento de desempenho, e as dúvidas sobre o planeamento nos aeroportos durante o Natal, colocam o Governo perante um escrutínio que vai além da conjuntura — interrogam a fronteira entre gestão e política.
José Luís Carneiro saiu do hospital de Barcelos nesta quarta-feira com duas acusações dirigidas ao Governo. O secretário-geral do PS tinha visitado a unidade, mas o que o inquietava eram os acontecimentos noutros hospitais — e o padrão que dizia conseguir identificar.
Segundo Carneiro, as administrações da Unidade Local de Saúde de São José, em Lisboa, e da ULS de Coimbra estavam prestes a ser exoneradas, sendo os seus substitutos militantes do PSD. Para o líder socialista, não havia fundamentos de desempenho que justificassem as saídas — apenas motivações políticas. Invocou o caso anterior de Fernando Araújo, exonerado por Álvaro Almeida e que viria a ser candidato nas listas do PS, como prova de que esta prática já tinha produzido maus resultados.
A segunda frente era a dos aeroportos. O Governo suspendera o novo sistema europeu de controlo de fronteiras em Lisboa durante três meses, reforçando a operação com militares da GNR, após constrangimentos causados pelo novo Sistema de Entrada/Saída da União Europeia. Carneiro não contestava a medida em si, mas questionava se o Governo tinha preparado planos de contingência para os picos de procura do Natal e Ano Novo — algo que, historicamente, sempre existiu. Exigiu que o primeiro-ministro respondesse publicamente, sublinhando que a segurança interna é da sua responsabilidade direta.
Nem todos partilhavam a mesma leitura. Luís Marques Mendes, candidato presidencial, considerou que o Governo tinha tomado uma boa decisão — suspender o mecanismo europeu, convocar a GNR e alargar o número de gates —, mas que o tinha feito tarde demais. Entre Carneiro e Marques Mendes, a diferença era de diagnóstico: um via incompetência e falta de planeamento; o outro, uma resposta correta, apenas atrasada.
José Luís Carneiro saiu do hospital de Barcelos nesta quarta-feira com duas acusações pesadas na bagagem. O secretário-geral do PS tinha vindo visitar a unidade, mas o que o preocupava mesmo era o que estava acontecendo noutros hospitais — e no Governo que os governa.
Segundo o Observador, a administração da Unidade Local de Saúde de São José, em Lisboa, estava prestes a ser exonerada. O mesmo se passaria com a ULS de Coimbra. E havia um padrão que Carneiro não conseguia ignorar: os substitutos seriam militantes do PSD. Para o líder socialista, isto não era gestão hospitalar — era política pura, disfarçada de administração. "É uma prática que nós só podemos repudiar e condenar publicamente, porque ela não tem fundamentos que tenham a ver com o serviço público, tem fundamentos estritamente de natureza política", disse aos jornalistas.
O argumento de Carneiro era simples: se estas administrações funcionavam bem, porque as afastar? Não havia, segundo ele, "indícios" públicos, "elementos de natureza pública" que justificassem as exonerações. Havia apenas continuidade de uma prática que o Governo já tinha iniciado antes — quando liquidou a administração da estrutura executiva do SNS. Nessa altura, Fernando Araújo tinha sido exonerado por Álvaro Almeida, do PSD. Araújo viria depois a ser candidato nas listas do PS. Para Carneiro, os resultados dessa decisão anterior tinham sido vistos: não tinham sido bons.
Mas havia uma segunda frente nesta quarta-feira. Carneiro queria respostas sobre os aeroportos. O Governo tinha anunciado que suspendia o novo sistema europeu de controlo de fronteiras no aeroporto de Lisboa durante três meses, reforçando a operação com militares da GNR. A razão: constrangimentos na zona de chegadas de passageiros não-europeus, causados pela implementação do novo Sistema de Entrada/Saída da União Europeia. Carneiro não discordava da medida em si — discordava de ela ter sido necessária. "O Governo fez, ou não fez, um plano para gerir essa procura e o pico dessa procura, que é próprio destas épocas do ano?", perguntou.
Historicamente, explicou, havia três planos de contingência: um para a Páscoa, outro para o Verão, outro para o Natal e Ano Novo. Carneiro queria saber se este Governo tinha um. E se tinha, qual era. E se a suspensão do sistema europeu significava falhas de segurança no controlo do aeroporto. "São respostas às quais o primeiro-ministro tem o dever de responder, porque só ele é o primeiro responsável pelo sistema de segurança interna."
Não estava sozinho na crítica. Luís Marques Mendes, candidato presidencial, também falou sobre o tema nesta quarta-feira. Mas a sua posição era diferente. Marques Mendes considerava que o Governo tinha agido bem — apenas tarde. "Acho que a decisão que o Governo tomou nesta matéria é positiva, mas é tardia. Primeiro, podia ter sido tomada mais cedo."
Para Marques Mendes, a decisão tinha três componentes. Primeiro, suspender o mecanismo adicional de controlo europeu durante três meses para reavaliação — algo que os regulamentos europeus já permitiam. Segundo, convocar a GNR para ajudar a PSP, simplificando o controlo de fronteiras. Terceiro, alargar o número de gates para estas operações. Tudo isto lhe parecia "correcto". A diferença era que Carneiro via incompetência e falta de planeamento. Marques Mendes via uma boa decisão, apenas atrasada.
Citas Notables
É uma prática que nós só podemos repudiar e condenar publicamente, porque ela não tem fundamentos que tenham a ver com o serviço público, tem fundamentos estritamente de natureza política— José Luís Carneiro, secretário-geral do PS
Acho que a decisão que o Governo tomou nesta matéria é positiva, mas é tardia— Luís Marques Mendes, candidato presidencial