Numa descoberta que desafia as fronteiras entre o selvagem e o domesticado, investigadores de Sydney e Londres revelaram que os cangurus são capazes de comunicar intencionalmente com humanos — pedindo ajuda com gestos e olhares deliberados quando confrontados com um problema insolúvel. O que torna este achado singular é que, ao contrário de cães ou cavalos moldados por milénios de convivência humana, os cangurus nunca passaram por esse processo. A ciência começa, assim, a suspeitar que a inteligência animal foi, durante muito tempo, medida com réguas demasiado curtas.
Cangurus comunicam intencionalmente com humanos, revela estudo
Olharam para trás, como se realmente estivessem a comunicar
O que é que torna este estudo diferente de outras investigações sobre comportamento animal?
A maioria dos estudos sobre comunicação animal focam-se em espécies domesticadas — cães, cavalos, cabras. Os cangurus nunca foram domesticados, mas mostraram o mesmo padrão de comportamento. Isso sugere que a capacidade está lá, independentemente da domesticação.
Mas espera — estamos a falar de onze animais. Onze. Como é que podemos generalizar a partir de uma amostra tão pequena?
É um ponto justo. Os investigadores reconhecem que é uma amostra pequena. Mas é a primeira vez que isto é estudado em marsupiais, portanto é um começo.
E o que é que o comportamento específico deles nos diz sobre o que estão a pensar?
Quando olham para o investigador e depois para a caixa, estão a fazer algo que parece muito com pedir ajuda. Alguns até se aproximaram, arranharam, farejaram — como se estivessem a tentar comunicar algo muito deliberado.
Mas "parece muito com" não é a mesma coisa que "é". Como é que sabemos que não é apenas um comportamento aleatório que interpretámos como comunicação?
É verdade que há interpretação envolvida. Mas o padrão é consistente com o que vemos noutros animais que sabemos estar a comunicar.
Porque é que isto importa para os australianos?
Os cangurus têm uma reputação terrível na Austrália. São vistos como pragas, como agressivos. Se as pessoas compreenderem que são inteligentes e capazes de comunicar, talvez a atitude mude.
Mas isso é esperança, não é facto. O estudo não prova que a perceção pública vai mudar.
Não, não prova. Mas é o que os investigadores esperam que aconteça.
El Pulso
- Onze cangurus em cativeiro foram colocados perante uma caixa de comida impossível de abrir — e em vez de desistirem, olharam diretamente para os investigadores como se pedissem ajuda.
- Alguns animais foram mais longe: aproximaram-se dos humanos, arranharam-nos e farejaram-nos antes de voltarem o olhar para a caixa, num padrão de comunicação intencional que surpreendeu os cientistas.
- O que perturba as certezas estabelecidas é que este comportamento era conhecido apenas em animais domesticados há séculos — os cangurus nunca o foram, o que sugere um potencial cognitivo sistematicamente ignorado.
- Com uma amostra de apenas onze animais, o estudo é modesto, mas os seus autores veem-no como ponto de partida para investigação mais ampla sobre cognição em espécies não domésticas.
- Alexandra Green espera que a descoberta transforme também a perceção pública: na Austrália, os cangurus são simultaneamente símbolo nacional e praga — e revelar a sua inteligência pode começar a reescrever essa contradição.
Numa descoberta que desafia as fronteiras entre o selvagem e o domesticado, investigadores de Sydney e Londres revelaram que os cangurus são capazes de comunicar intencionalmente com humanos — pedindo ajuda com gestos e olhares deliberados quando confrontados com um problema insolúvel. O que torna este achado singular é que, ao contrário de cães ou cavalos moldados por milénios de convivência humana, os cangurus nunca passaram por esse processo. A ciência começa, assim, a suspeitar que a inteligência animal foi, durante muito tempo, medida com réguas demasiado curtas.
Investigadores da Universidade de Sydney e da Universidade de Roehampton, em Londres, descobriram que os cangurus são capazes de comunicar intencionalmente com humanos — uma revelação que sugere uma vida mental muito mais rica do que se supunha.
O ponto de partida foi simples: colocar comida dentro de uma caixa que os animais não conseguiam abrir. Onze cangurus de várias espécies, mantidos em cativeiro, foram confrontados com este problema sem solução. A maioria não desistiu nem ignorou a situação — olhou diretamente para um dos investigadores e depois voltou a atenção para a caixa. Alexandra Green, coautora do estudo, interpretou este padrão como um pedido claro de ajuda. Alguns animais foram ainda mais longe, aproximando-se dos humanos, arranhando-os e farejando-os antes de olharem de volta para a caixa.
O que torna a descoberta particularmente significativa é que este tipo de comportamento era até agora associado apenas a animais domesticados há séculos, como cães, cavalos e cabras. Os cangurus nunca passaram por esse processo. Alan McElligott, autor principal do estudo, sublinha que o padrão observado é praticamente idêntico ao de espécies domésticas — o que levanta uma questão fundamental sobre o potencial cognitivo real destes marsupiais, os primeiros da sua ordem a serem estudados desta forma.
Apesar da amostra reduzida, McElligott vê os resultados como ponto de partida para investigação mais ampla. Alexandra Green nutre ainda uma esperança adicional: que o estudo ajude a mudar a forma como os australianos veem os cangurus — animais que, apesar de serem um símbolo nacional, são frequentemente tratados como uma praga. Revelar a sua inteligência pode, talvez, começar a reescrever essa narrativa contraditória.
Investigadores da Universidade de Sydney e da Universidade de Roehampton em Londres descobriram que os cangurus conseguem comunicar intencionalmente com os humanos — uma capacidade que sugere uma vida mental muito mais complexa do que se acreditava até agora.
O estudo partiu de uma ideia simples: colocar comida dentro de uma caixa que os animais não conseguiam abrir. Onze cangurus de várias espécies, mantidos em cativeiro, foram confrontados com este problema sem solução. O que aconteceu a seguir surpreendeu os investigadores. Em vez de desistirem ou ignorarem a situação, a maioria dos cangurus olhou diretamente para um dos responsáveis pela investigação e depois voltou a atenção para a caixa — um padrão de comportamento que Alexandra Green, coautora do estudo, interpretou como um pedido claro de ajuda.
Alguns dos animais foram ainda mais longe. Aproximaram-se dos investigadores, arranharam-nos, farejaram-nos, e depois olharam para trás na direção da caixa, como se estivessem a tentar comunicar algo muito específico. Green explicou que este tipo de comunicação entre espécies pode ser aprendido por qualquer criatura que possua "poder cerebral" suficiente. O que torna esta descoberta particularmente notável é que os cangurus nunca foram domesticados — ao contrário dos cães, cavalos e cabras que mostram comportamentos semelhantes.
Alan McElligott, o autor principal do estudo, sublinhou que o padrão de comportamento observado nos cangurus é praticamente idêntico ao que se vê em animais domesticados há centenas de anos quando enfrentam a mesma tarefa impossível. Isto levanta uma questão fundamental: se os cangurus conseguem fazer isto sem terem sido domesticados, qual é realmente o potencial cognitivo destes marsupiais? McElligott argumenta que a capacidade de comunicação intencional com humanos foi sistematicamente subestimada no reino animal, e que os cangurus são os primeiros marsupiais a serem estudados desta forma.
É verdade que a investigação trabalhou com uma amostra pequena — apenas onze animais. Mas McElligott vê isto como um ponto de partida, não como uma limitação definitiva. Os resultados positivos, defende, devem abrir caminho a mais investigação sobre cognição animal para além das espécies domésticas habituais.
Alexandra Green tem uma esperança adicional: que este estudo ajude a mudar a forma como os australianos veem os cangurus. Estes animais têm uma reputação complicada no seu país de origem. Não têm a ternura associada aos coalas. São considerados superabundantes, são caçados regularmente, e muitas pessoas veem-nos como uma praga. Há uma divisão estranha: os cangurus são uma espécie icónica australiana, mas ao mesmo tempo são frequentemente tratados como um problema a resolver. Um estudo que revele a sua inteligência e capacidade de comunicação pode, talvez, começar a reescrever essa narrativa.
Citas Notables
A nossa investigação mostra que o potencial de comunicação intencional referencial para os seres humanos por parte dos animais foi subestimado— Alan McElligott, autor principal do estudo
Os cangurus não são considerados tão fofos como os coalas, por isso têm uma má reputação— Alexandra Green, coautora do estudo