Canetas emagrecedoras: uso entre mulheres cresce 75% e médicos alertam para riscos

Mulheres que se automedicam sem acompanhamento enfrentam riscos de alterações menstruais, perda de massa muscular, queda de cabelo e possíveis complicações reprodutivas não planejadas.
O medicamento não é a solução, é o acompanhamento que faz a diferença
Médicos alertam que canetas emagrecedoras exigem supervisão contínua, não apenas prescrição inicial.
Mark

Por que o crescimento entre mulheres é tão desproporcional? 75% a mais que entre homens — isso reflete algo sobre como as mulheres veem esses medicamentos?

Mimi

Parte é certamente a pressão estética que recai sobre mulheres de forma diferente. Mas também há algo sobre acesso à informação e redes sociais — esses medicamentos viralizaram em comunidades femininas online. O que preocupa os médicos é que muitas mulheres estão usando sem nunca ter consultado um profissional.

Luke

Mas espera — esses números da Serasa são só pedidos online. Não sabemos quantos desses pedidos resultaram em compras reais, nem se refletem o mercado inteiro. E a Serasa mesma diz que são transações analisadas, não faturamento consolidado. Então o 75% é real, mas incompleto.

Mark

E quanto aos riscos específicos que os médicos mencionam — queda de cabelo, alterações menstruais? Isso é comprovado ou são possibilidades?

Mimi

São observações clínicas que De Fazzio vê regularmente em pacientes que chegam sem acompanhamento. Mas não há estudos de larga escala sobre isso. A literatura sobre efeitos orais da semaglutida, por exemplo, ainda é limitada — muitas evidências são indiretas ou baseadas em relatos clínicos.

Luke

Exatamente. Os médicos estão descrevendo o que veem na prática, o que é valioso. Mas não podemos dizer que esses efeitos são garantidos ou que afetam a maioria das mulheres. O risco existe, mas a frequência e a severidade ainda não estão bem mapeadas.

Mark

E a questão da fertilidade — mulheres podem engravidar sem planejar enquanto usam essas canetas?

Mimi

Sim. Se uma mulher tinha ciclos irregulares por causa da obesidade ou síndrome dos ovários policísticos, e emagrece rapidamente, pode voltar a ovular. Como os agonistas de GLP-1 não são recomendados na gravidez, isso é um problema real de saúde pública.

Luke

Mas novamente — isso é particularmente relevante para mulheres com obesidade e SOP. Não sabemos quantas das 602,8 mil mulheres que pediram essas canetas se encaixam nesse perfil. Muitas podem estar usando apenas para perder alguns quilos, onde o risco de gravidez não planejada é menor.

Mark

Então o que um leitor deveria fazer se está considerando usar uma dessas canetas?

Mimi

Consultar um médico. Não comprar pela internet. Entender que é um tratamento de longo prazo, não uma solução rápida. E estar atenta a qualquer sintoma inesperado.

Luke

E saber que se parar de usar, o peso pode voltar. Isso não é um atalho permanente.

  • 602,8 mil pedidos femininos de medicamentos GLP-1 no primeiro semestre de 2026, 75,2% acima dos pedidos masculinos
  • 1,36 milhão de pedidos totais analisados, crescimento de 149,3% em relação ao mesmo período de 2025
  • R$ 2,35 bilhões movimentados, com mais de R$ 1 bilhão em transações de mulheres
  • Desde 23 de junho de 2025, medicamentos agonistas de GLP-1 exigem retenção de receita em farmácias no Brasil

Mulheres representam 44,2% dos 1,36 milhão de pedidos de canetas emagrecedoras no primeiro semestre de 2026, com crescimento de 149,3% em relação ao ano anterior. Especialistas alertam para riscos específicos em mulheres: queda de cabelo, alterações menstruais, perda de massa muscular e possíveis mudanças na fertilidade sem acompanhamento adequado.

Pedidos de medicamentos GLP-1 por mulheres crescem 75,2% mais que homens, movimentando R$ 2,35 bilhões. Médicos alertam para riscos do uso sem acompanhamento profissional.

No primeiro semestre de 2026, mulheres fizeram 602,8 mil pedidos online de medicamentos à base de GLP-1 — as chamadas canetas emagrecedoras — um volume 75,2% maior que o registrado entre homens. Os números vêm da Serasa Experian, que analisou 1,36 milhão de solicitações entre janeiro e junho, um crescimento de 149,3% comparado ao mesmo período do ano anterior. Essas transações movimentaram R$ 2,35 bilhões, sendo mais de R$ 1 bilhão vinculado a pedidos de mulheres. Elas representaram 44,2% do total de requisições. O levantamento, porém, captura apenas os pedidos submetidos às tecnologias antifraude da empresa — não reflete o mercado brasileiro em sua totalidade.

O crescimento acelerado preocupa médicos. Alvaro Pulchinelli, toxicologista e diretor técnico da Toxicologia Pardini do Grupo Fleury, identifica um problema que vai além da substância em si: o uso sem prescrição e sem acompanhamento adequado, frequentemente motivado por objetivos puramente estéticos. Qualquer medicamento utilizado dessa forma coloca a saúde em risco — seja pela escolha de um produto inadequado, dose incorreta, aumento inadequado da dosagem ou uso prolongado além do necessário. Pulchinelli aponta ainda uma ilusão perigosa: a ideia de que um resultado rápido na balança transforma o medicamento em solução pontual. Tratamentos com esses fármacos costumam ser de longo prazo e precisam ser discutidos dessa forma desde o início. Interromper por conta própria após atingir determinado peso não garante que o resultado será mantido.

As mulheres enfrentam riscos particulares durante um emagrecimento acelerado sem supervisão. César De Fazzio, cirurgião bariátrico e diretor do Instituto de Cirurgia Digestiva em Brasília, recebe frequentemente pacientes que recorreram aos medicamentos por iniciativa própria e chegam ao consultório quando as consequências já apareceram: queda de cabelo, alterações no ciclo menstrual e perda de massa muscular. De Fazzio explica que mulheres possuem, em média, menor reserva de músculo e massa óssea que os homens. Quando o emagrecimento é rápido e ocorre sem acompanhamento nutricional e de atividade física, a redução de massa magra ganha importância desproporcional. Pulchinelli reforça que a perda progressiva de massa muscular merece atenção especial após os 40 anos, em ambos os sexos. Por isso defende que o acompanhamento não esteja voltado exclusivamente à balança, mas inclua médico, apoio nutricional e atividade física.

Outra dimensão crítica envolve fertilidade e ciclo menstrual. De Fazzio chama atenção para mudanças na capacidade reprodutiva durante o emagrecimento. Mulheres que apresentavam alterações no ciclo podem voltar a ovular e engravidar quando ocorre melhora metabólica e perda de peso. Estudos apontam possíveis melhorias na regularidade menstrual, ovulação e taxas de gravidez com redução de peso e uso de agonistas de GLP-1 em mulheres com obesidade e síndrome dos ovários policísticos, embora ainda existam lacunas sobre efeitos reprodutivos em mulheres de forma geral. Como esses agonistas não são recomendados durante a gravidez, planejamento reprodutivo e contracepção precisam fazer parte da orientação de mulheres em idade fértil que utilizam esses medicamentos. Uma gestação pode ocorrer em momento não planejado.

Pulchinelli também se preocupa com o uso exclusivamente estético. Recorrer ao medicamento apenas para eliminar poucos quilos não elimina seus possíveis efeitos adversos. A pessoa pode perder peso além do pretendido e apresentar alterações musculares, digestivas e outros efeitos que precisam ser acompanhados. A indicação não deve partir apenas de quantos quilos alguém gostaria de eliminar. Antes de prescrever, o profissional precisa conhecer histórico de saúde, doenças existentes, tratamentos em andamento e outros medicamentos utilizados. Não existe uma lista única de exames indicada indistintamente para todos — a avaliação depende de cada paciente, das doenças presentes e de como tudo será manejado.

Um erro frequente entre quem se automédica é negligenciar sinais do próprio organismo. Um sintoma recorrente pode ser mascarado ou ignorado enquanto a pessoa mantém o medicamento por conta própria, retardando a investigação de uma doença que, identificada inicialmente, poderia ter abordagem mais simples. Em fevereiro de 2026, a Anvisa reforçou alerta para casos de pancreatite aguda relacionados ao uso indevido de agonistas de GLP-1. A reação já está prevista nas bulas aprovadas no país, mas a Agência apontou aumento das notificações e recomenda atendimento imediato em caso de dor abdominal intensa e persistente, que pode irradiar para as costas e vir acompanhada de náuseas e vômitos.

A facilidade de encontrar ofertas de canetas em redes sociais, sites e aplicativos abre outra frente de preocupação. Pulchinelli alerta principalmente para produtos falsificados, contrabandeados, manipulados irregularmente ou vendidos sem procedência conhecida. O consumidor pode não ter qualquer garantia de que o princípio ativo informado realmente esteja no produto, de que a concentração corresponda à indicada no rótulo ou de que fabricação, manipulação, armazenamento e transporte tenham seguido os padrões sanitários exigidos. A recomendação é adquirir medicamentos apenas por canais regulares, com prescrição e produtos provenientes de fabricantes legalizados. Ao longo de 2026, a Anvisa determinou apreensões e proibições de diferentes canetas vendidas sem registro no país. Em setembro, proibiu importação, armazenamento, distribuição, comercialização, propaganda e uso da T36, que não possui registro sanitário. Desde 23 de junho de 2025, medicamentos agonistas de GLP-1 somente podem ser vendidos no Brasil com retenção da receita pela farmácia ou drogaria — a regra alcança produtos como Ozempic, Wegovy, Mounjaro e Saxenda.

O que preocupa mais hoje é o mau uso, principalmente quando existe uma finalidade estética, sem prescrição e sem acompanhamento adequados
— Alvaro Pulchinelli, toxicologista e diretor técnico da Toxicologia Pardini
Mulheres precisam de atenção especial porque possuem, em média, menor reserva de músculo e massa óssea do que os homens
— César De Fazzio, cirurgião bariátrico e diretor do Instituto de Cirurgia Digestiva
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