Candidaturas femininas estacionam em um terço há quatro eleições nacionais

Para uma mulher sentar, um homem vai precisar levantar
Advogada eleitoralista explica por que partidos resistem a aumentar representação feminina.
Mark

Por que essa estagnação em um terço persiste há quatro eleições? Parece que nada mudou.

Mimi

Porque os partidos tratam o mínimo legal como máximo aceitável. A lei diz 30%, eles cumprem 30% e param ali. Não há pressão real para ir além.

Mark

Mas as mulheres são maioria da população. Não deveriam estar mais representadas?

Mimi

Deveriam, claro. Mas representação não é automática. Exige que homens abram mão de espaço, e eles controlam os partidos. Para uma mulher entrar, um homem sai.

Mark

E quanto às mulheres que querem concorrer? Elas existem?

Mimi

Existem. 47% das filiadas em partidos são mulheres. O problema não é falta de interesse. É que os partidos não investem nelas como investem em homens.

Mark

Então é uma questão de vontade política?

Mimi

Exatamente. E de violência política de gênero, que afasta mulheres da disputa mais do que afasta homens. É um sistema que desestimula.

Mark

E na presidência? Duas mulheres entre treze candidatos parece muito pouco.

Mimi

É histórico. Será a primeira eleição presidencial deste século sem mulheres nas chapas que realmente competem. As duas que se registraram estão em partidos pequenos.

Mark

O que precisaria mudar?

Mimi

Reserva de cadeiras, não só de candidaturas. Outros países na América Latina já fazem isso. Aqui ainda se discute se 30% é suficiente.

  • Quatro eleições seguidas com a proporção de candidatas presas em torno de um terço do total — o crescimento prometido pela lei de 2009 simplesmente parou.
  • Das 13 candidaturas presidenciais, apenas duas são de mulheres, tornando 2026 a primeira eleição deste século sem nenhuma mulher em chapa competitiva ao Palácio do Planalto.
  • Mulheres são 42,6% dos registros para vice-governador, mas apenas 16,8% para governador — a posição de poder real continua sendo reservada aos homens.
  • Especialistas denunciam que partidos usam o mínimo legal como máximo prático, distribuem mal os recursos do fundo partidário e ignoram que 47% de seus próprios filiados são mulheres.
  • A violência política de gênero e a falta de investimento real das legendas afastam candidatas em potencial antes mesmo de chegarem às urnas.

A cada eleição, o Brasil reafirma uma contradição silenciosa: as mulheres são maioria da população, mas continuam sendo minoria nas disputas pelo poder. Em 2026, 34,9% das candidaturas pertencem a elas — um avanço de apenas 1,1 ponto percentual em quatro anos, suficiente para revelar uma estagnação que já dura quatro pleitos consecutivos. O que os números escondem é mais revelador do que o que mostram: mulheres aparecem como vice e suplente, raramente como cabeça de chapa, enquanto os partidos transformam o piso legal de 30% em teto prático. A paridade, no Brasil, ainda é uma promessa adiada.

Nas eleições de 2026, as mulheres representam 34,9% das candidaturas — uma alta de apenas 1,1 ponto percentual em relação a 2022. O dado parece modesto, mas carrega um peso maior: há quatro pleitos consecutivos, a proporção de candidatas permanece estagnada em torno de uma para cada três candidatos. Num país onde as mulheres são 51,5% da população, a distância entre presença social e representação política segue sendo enorme.

Do total de 20.530 candidatos registrados na Justiça Eleitoral — já uma queda histórica de 30% em relação a 2022 —, 7.156 são mulheres. Mas onde elas aparecem importa tanto quanto quantas são: mulheres ocupam 42,6% dos registros para vice-governador e apenas 16,8% para governador. Na corrida presidencial, apenas duas das 13 candidaturas são femininas, nenhuma delas em chapa com chances reais de vitória. Será a primeira eleição presidencial deste século sem mulheres nas disputas competitivas.

Para especialistas em direito eleitoral, a raiz do problema está nos próprios partidos. A lei de 2009 estabeleceu um piso de 30% de candidaturas para mulheres, mas as legendas o tratam como teto — e não como ponto de partida. A distribuição de recursos do fundo partidário e do tempo de TV raramente favorece candidatas. A violência política de gênero afasta mais mulheres do que homens. E o argumento de que faltam mulheres interessadas em concorrer cai por terra diante de um dado simples: elas são 47% das filiadas nos partidos brasileiros.

A sub-representação não se limita ao gênero. Candidatos pretos e pardos somam 49,8% das candidaturas, abaixo dos 55,6% que representam na população. A idade média dos postulantes gira em torno dos 45 a 49 anos, e 58,6% têm ensino superior completo. O cenário partidário também encolheu: trinta partidos disputarão 2026, dois a menos que no pleito anterior, com quedas expressivas nas candidaturas para deputado federal e estadual — a maior retração desde 1994.

As mulheres representam pouco mais de um terço das candidaturas nas eleições de 2026. O número é 34,9%, uma subida tímida em relação aos 33,8% de quatro anos atrás. Essa pequena variação marca um ponto de estagnação preocupante: há quatro eleições nacionais consecutivas, a proporção de candidatas permanece presa em torno de uma mulher para cada três candidatos no total. O Brasil segue longe da paridade, apesar de as mulheres serem 51,5% da população segundo o IBGE.

Este ano, 20.530 candidatos se registraram na Justiça Eleitoral — um recuo histórico de 30% em relação a 2022, quando havia 28.200. Desse total, 13.374 são homens e 7.156 são mulheres. Os números refletem pedidos de registro antes da aprovação final, embora pequenas alterações ainda possam ocorrer por desistências, falecimentos ou decisões judiciais. A análise considera dados do Tribunal Superior Eleitoral atualizados até terça-feira, 18 de agosto.

O avanço feminino na política começou em 2009, quando uma lei estabeleceu a reserva de 30% de candidaturas, financiamento e propaganda para mulheres. Desde então, a participação cresceu. Mas nas últimas três eleições, o crescimento travou. Mais revelador ainda é onde as mulheres aparecem: elas são 42,6% dos registros para vice-governador, mas apenas 16,8% para governador. Na disputa presidencial, apenas duas das 13 candidaturas são de mulheres — Samara Martins, pela UP, e Clariana Barão, pelo DC. Será a primeira eleição presidencial deste século sem mulheres nas chapas competitivas.

Para Bianca Gonçalves de Silva, advogada especializada em direito eleitoral, a estagnação tem raízes profundas. Os partidos, diz ela, tratam o piso de 30% como um teto, não como um ponto de partida. Há também a violência política de gênero, que afasta mais mulheres da disputa do que homens. E há dificuldade de fiscalizar como os recursos do fundo partidário e do tempo de TV são distribuídos. "No Brasil, a gente ainda discute uma reserva de candidaturas, enquanto em outros países, especialmente na América Latina, discute-se a reserva de cadeiras", observa. "Para uma mulher sentar na Câmara, um homem vai precisar levantar, e eles são maioria, não querem isso."

Os partidos frequentemente alegam não encontrar mulheres dispostas a concorrer. Mas Silva aponta a contradição: mulheres são 52% da população e 47% das filiadas em partidos políticos. "Se as mulheres não se interessassem por política, elas não seriam filiadas", diz. O problema não é falta de interesse, mas falta de investimento real das legendas em candidatas.

Outros grupos também permanecem sub-representados. Candidatos pretos e pardos somam 49,8% das candidaturas, abaixo dos 50,3% de 2022, apesar de representarem 55,6% da população. A lei exige que partidos destinem ao menos 30% das vagas e recursos para candidatos negros, mas a disparidade entre cabeças de chapa e vices persiste. Pardos são 36,1% dos registros (7.418 candidatos) e pretos, 13,6% (2.800 candidatos).

A idade média dos candidatos concentra-se entre 45 e 49 anos, com 3.547 postulantes. O mais velho é Almir Rangel, com 92 anos, candidato a deputado estadual pelo Rio de Janeiro. A mais jovem é Carol Medeiros, com 19 anos, também candidata a deputado estadual, no Maranhão. Em escolaridade, 58,6% informaram ensino superior completo. Entre as profissões mais comuns estão empresários (12,5%), advogados (8,2%), deputados (4,3%), vereadores (4%) e policiais militares (2,8%).

O cenário partidário também mudou. Trinta partidos concorrerão em 2026, dois a menos que em 2022. O PL e o MDB lideram em número de candidatos, com 1.628 e 1.391 respectivamente. O PRTB e o PCB têm a menor representação, com 10 e 23 candidatos. O maior recuo ocorreu nas candidaturas legislativas: deputados federais caíram de 10.630 para 7.636, e deputados estaduais de 17.347 para 11.523. É a queda mais acentuada desde 1994, primeiro ano com dados disponíveis no TSE.

Para uma mulher sentar na Câmara, um homem vai precisar levantar, e eles são maioria, não querem isso
— Bianca Gonçalves de Silva, advogada eleitoralista
Os partidos falam muito que não acham mulheres para concorrer, mas o que vemos na prática é que elas são 52% da população e 47% das filiadas em partidos
— Bianca Gonçalves de Silva
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